Estamos tratando as vacas erradas para metrite?

Tratar excessivamente a metrite pode estar custando muito caro para as fazendas leiteiras. Uma em cada quatro vacas leiteiras desenvolve metrite. É uma das doenças mais comuns e caras do pós-parto. E se não estivermos realmente definindo a metrite corretamente desde o início?

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A metrite é uma doença comum e cara no pós-parto, afetando uma em cada quatro vacas leiteiras. O diagnóstico visual da doença é problemático, pois não há consenso sobre os critérios para defini-la. Vacas com secreção VD4 e VD5 são frequentemente tratadas da mesma forma, embora evidências sugiram que VD5 representa uma condição sistêmica mais grave. Tratar vacas VD4, que podem não necessitar de tratamento, gera custos elevados. A precisão no tratamento é essencial para a gestão de antimicrobianos e eficiência econômica.
Esse texto é parte da publicação de Andrea Bedford, na revista Dairy Herd Management, em abril de 2026.

Tratar excessivamente a metrite pode estar custando muito caro para as fazendas leiteiras. Uma em cada quatro vacas leiteiras desenvolve metrite. É uma das doenças mais comuns e caras do pós-parto. E se não estivermos realmente definindo a metrite corretamente desde o início? Porque se a definição estiver errada, tudo que vem depois, diagnóstico, tratamento, uso de antimicrobianos, também estará errado.

As falhas começam no diagnóstico

Na prática, a metrite é diagnosticada visualmente, usando a avaliação da descarga vaginal, que é simples e rápida. Geralmente, as vacas são avaliadas em uma escala de escores de 1 a 5. O problema não está em como avaliar as vacas, mas em quais escores definem a metrite. Segundo Dr. Caio Figueiredo, da Washington State University, não existe um consenso claro sobre qual tipo de descarga, no nível clínico, distingue uma vaca com metrite de uma sem metrite.

Essa falta de consenso influencia diretamente quais vacas recebem tratamento. Então, antes mesmo de falarmos sobre protocolos de tratamento, já estamos lidando com um problema difícil de ser resolvido. A maioria dos sistemas de pontuação dos escores eventualmente se enquadra em duas categorias que são clinicamente importantes:

VD4: secreção purulenta;
VD5: secreção fétida, aquosa e vermelho amarronzada. 

Ambas são comumente rotuladas como “metrite” e ambas são frequentemente tratadas. Mas elas não têm a mesma aparência e os dados sugerem que também não se comportam da mesma forma. As perguntas que surgem, segundo o Dr. Figueiredo são:

“Essas duas condições são metrite?"

"Devemos tratar ambas ou apenas uma?”

Apesar da incerteza, a maioria das fazendas de leite não faz diferenciação, tratando tanto as vacas VD4 quanto VD5 com antibióticos. Segundo uma pesquisa realizada em 45 fazendas na Califórnia, EUA, somente um grupo muito selecionado trata exclusivamente vacas VD5. O restante das fazendas trata ambas as condições.

VD5 parece uma doença diferente

Há algumas evidências de que esses grupos não são necessariamente os mesmos. Essa diferença se torna muito mais difícil ser ignorada a avaliação for além da própria descarga. As vacas VD5 apresentam níveis maiores de inflamação em comparação com aquelas com descarga purulenta VD4. As vacas VD5 apresentam maior inflamação sistêmica. Um estudo de 2024 analisou o microbioma uterino para investigar as diferenças entre as vacas VD5 e todas as outras. Somente vacas com descarga vaginal escore 5 apresentam maior contagem bacteriana em comparação com as demais descargas.

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Esses animais apresentaram maior contagem bacteriana geral, bem como aumento nas contagens de Fusobacterium, Porphyromonas e Bacteroides em comparação com vacas de escore menor. E quando se observa o animal como um todo, a separação torna-se ainda mais clara.  Em dados não publicados do laboratório do Dr.Figueiredo, vacas VD5 apresentam: 

• Proteínas de fase aguda mais altas (por exemplo, haptoglobina) no pós-parto;
• Piores indicadores de função hepática (↓ albumina, ↑ bilirrubina, ↓ colesterol);
• Perfis metabólicos alterados;
• Redução da ruminação e da atividade durante janelas de maior risco.

Esses resultados sugerem que não se trata apenas de uma diferença de descarga, mas de um estado de doença sistêmica.

Consequências no desempenho

As diferenças biológicas se traduzem diretamente em resultados. Em grandes conjuntos de dados de múltiplos rebanhos, vacas VD5 apresentaram desempenho visivelmente prejudicado:

Produção de leite: até 1.000 kg a menos de leite em 300 dias de lactação

• Reprodução:

- Menor probabilidade de retomar a ciclicidade;
- Menor probabilidade de receber a primeira IA;
- Taxas de prenhez mais baixas aos 300 dias de lactação.

• Sobrevivência:

- Maior risco de descarte;
- Remoção mais rápida do rebanho.

Em contraste, as vacas VD4 eram indistinguíveis das vacas com pontuação mais baixa em muitos desses mesmos parâmetros.

O que é VD4?

Se VD5 representa uma doença sistêmica verdadeira, VD4 pode representar outra coisa, talvez uma condição mais leve, localizada ou até transitória. Em múltiplos conjuntos de dados, vacas VD4 apresentam desempenho similar ao de suas companheiras de rebanho com escores mais baixas. O que levanta uma questão crítica: Estamos tratando vacas que na verdade não precisam de tratamento?

A realidade econômica do tratamento de vacas VD4

Só nos EUA, existem cerca de 9,5 milhões de vacas leiteiras e uma incidência de ~25% de VD4 e ~25% de VD5. Isso coloca milhões de vacas em cada categoria anualmente. Se ambos os grupos forem tratados: os custos totais com tratamento antimicrobiano podem superar $500 milhões por ano. Se as vacas VD4 forem excluídas do tratamento: a economia potencial se aproxima de $250 milhões por ano Essa diferença de custo não leva em conta o trabalho, quaisquer efeitos do estresse do manuseio ou os impactos subsequentes do uso de antimicrobianos.

Por que isso importa mais do que parece

Não se trata apenas de uma questão de classificação. Isso afeta vários pontos:

· Gestão de antimicrobianos: a metrite é um dos principais fatores que levam ao uso de antibióticos. Refinar os critérios de tratamento é uma das maneiras mais rápidas de reduzir a exposição desnecessária.
·  Eficiência econômica: tratar vacas que não se beneficiam é pura ineficiência em larga escala.
· Confiança pública: a preocupação do consumidor em relação ao uso de antimicrobianos continua a crescer. Precisão importa.

Do diagnóstico visual à precisão biológica

A mensagem não é parar de tratar a metrite, mas começar a tratá-la com mais precisão. Atualmente, as decisões são amplamente guiadas pelo que podemos ver. Mas as evidências sugerem que o que vemos nem sempre reflete o que está acontecendo biologicamente. Um modelo mais prático, alinhado com os dados, poderia ser:

• VD5 → doença sistêmica clara → tratar
• VD4 → incerto ou leve → monitorar, refinando ou tratar seletivamente

Essa mudança nos afasta de um modelo de diagnóstico puramente visual. Isso significa integrar sinais metabólicos e comportamentais.

No final das contas, vacas VD4 e VD5 não compartilham a mesma biologia, o mesmo risco ou as mesmas consequências. Uma se comporta como uma condição leve ou localizada, enquanto a outra é uma verdadeira doença sistêmica com impactos mensuráveis no desempenho e na sobrevivência. Tratá-las da mesma forma é ineficiente e ultrapassado. O futuro do manejo da metrite não é tratar mais vacas, é tratar as vacas certas.

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Material escrito por:

Ricarda Maria dos Santos

Ricarda Maria dos Santos

Professora da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Federal de Uberlândia. Médica veterinária formada pela FMVZ-UNESP de Botucatu em 1995, com doutorado em Medicina Veterinária pela FCAV-UNESP de Jaboticabal em 2005.

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