A bovinocultura leiteira em pequena escala, especialmente em regiões de clima semiárido e solos pouco férteis, enfrenta desafios econômicos e estruturais que comprometem sua viabilidade e sustentabilidade. Altos custos de manutenção, limitação da área de produção e o difícil acesso a tecnologias apropriadas são fatores que tornam a atividade cada vez mais difícil para pequenos produtores. Nesse contexto, surge a necessidade de diversificação produtiva e adoção de sistemas mais adaptados à realidade local.
Caprinocultura como alternativa
Entre as alternativas, a caprinocultura leiteira tem se destacado como uma opção viável, sobretudo em regiões do Nordeste, onde as condições ambientais exigem rusticidade dos animais (SANTOS et al., 2023). Além disso, a atividade vem ganhando destaque por sua relevância socioeconômica. Segundo o IBGE (2023), das 12,9 milhões de cabeças de caprinos, a região Nordeste concentra cerca de 96% desse rebanho e, o estado da Paraíba com um rebanho estimado em quase 765 mil caprinos, segue sendo o principal produtor de leite com 5,6 milhões de litros de leite produzido por ano.
A caprinocultura leiteira vem se mostrando uma alternativa viável de geração de renda, especialmente nas regiões semiáridas, onde outras atividades agropecuárias enfrentam dificuldades. A atividade exige baixo investimento inicial, além dos animais serem rústicos e bem adaptados ao clima do sertão (SANTOS et al., 2023). No Nordeste, há sistemas de produção diversificados que associam caprinocultura, agricultura e outras criações (bovinos, aves), contribuindo para aumentar a resiliência das famílias frente a riscos econômicos e climáticos (OLIVEIRA, 2020).
Mas não é só no Nordeste que a caprinocultura leiteira se destaca. No Sudeste e Sul do país, sistemas mais intensivos vêm ganhando espaço, com foco na produção de derivados de alta qualidade, como queijos finos e iogurtes, voltados para nichos de mercado exigentes. Nessas regiões, a valorização do leite de cabra é visível: os produtos são comercializados com preços significativamente superiores aos do leite bovino, devido à sua digestibilidade e ao apelo saudável (SILVA; FAVARIN, 2020).
Nos últimos anos, observa-se ainda um avanço na tecnificação dos sistemas de criação, com introdução de raças especializadas, melhorias no manejo alimentar e estruturação de salas de ordenha (MENESES, 2015). De acordo com Costa et al. (2010), trata-se de uma atividade que exige baixo capital inicial e, considerando que várias raças caprinas são de dupla aptidão, ou seja, servem tanto para produção de carne quanto para produção de leite e, em alguns casos, também para o aproveitamento do couro e outros subprodutos, a criação promove segurança alimentar e renda.
Essa criação também se destaca por suas características favoráveis à realidade da agricultura familiar. Os caprinos são animais de pequeno porte, com alta eficiência alimentar, podendo ser criados em espaços limitados e com menor demanda por insumos (SANTOS et al., 2023). Mesmo sem padrão racial definido, muitos rebanhos apresentam animais com bom potencial leiteiro, resultado da introdução de raças como Saanen, Parda Alpina e Toggenburg (COSTA et al., 2010).
A média de produção por lactação vem crescendo: enquanto nas décadas passadas variava entre 89 e 174 litros, em 2017 passou para valores acima de 280 litros, reflexo dos avanços genéticos e nutricionais (IBGE, 2023). Ainda que o volume seja menor em relação à bovinocultura, o leite de cabra é mais rico em sólidos totais, como gordura, proteína, cálcio e fósforo, tornando-se ideal para a produção de queijos e outros derivados (ROHENKOHL et al., 2011). O manejo simples e o custo operacional reduzido é altamente compatível com os pequenos produtores.
O mercado para derivados caprinos
O mercado de derivados caprinos também tem experimentado período de expansão, tanto para consumo interno quanto nas possibilidades de exportação. Além disso, a indústria de cosméticos tem investido cada vez mais em produtos à base de leite de cabra. Programas de apoio à agricultura familiar, como linhas de crédito específicas e assistência técnica, se bem aplicados, podem impulsionar a profissionalização e a organização da cadeia produtiva. A diversificação produtiva, característica comum entre os pequenos produtores, se mostra fundamental para o sucesso da caprinocultura leiteira. Ao integrar diferentes fontes de renda – como produção vegetal, outras criações e beneficiamento artesanal – os agricultores familiares conseguem maior estabilidade econômica e melhor aproveitamento dos recursos disponíveis.
O crescimento do mercado e a valorização de produtos derivados do leite de cabra impulsionam a atividade. O leite caprino tem atraído consumidores com intolerância à lactose, adeptos de dietas funcionais, além de ocupar espaço na gastronomia e na indústria cosmética (SEBRAE, 2017) e portanto, a caprinocultura tem sido reconhecida como uma importante estratégia de inclusão produtiva e de fortalecimento da economia rural (HOLANDA JUNIOR et al., 2008).
Os principais obstáculos da caprinocultura e como solucioná-los
Porém um dos principais obstáculos enfrentados pelos produtores é a falta de infraestrutura adequada. Muitas propriedades não possuem salas de ordenha ou tanques de refrigeração, o que compromete a qualidade do leite e limita sua comercialização formal (OLIVEIRA, 2020). Além disso, grande parte da produção ainda é vendida de forma informal, o que reduz a competitividade do setor e dificulta o acesso a mercados mais exigentes (SILVA; FAVARIN, 2020). Outro desafio é a carência de assistência técnica e de gestão. Muitos produtores desconhecem os custos reais de produção e não fazem registros zootécnicos ou econômicos. Isso dificulta a tomada de decisão e impede a avaliação da viabilidade do sistema (RODRIGUES et al., 2004).
Apesar do potencial e do aumento da produção e consumo visto nos últimos anos, o consumo de leite de cabra ainda é limitado, especialmente pela baixa oferta e preços elevados. Os produtos mais populares são os queijos (60%), seguidos por leite em pó (16%). A compra pelos consumidores é geralmente feita em supermercados ou hipermercados, motivada por fatores como sabor, curiosidade, benefícios nutricionais e indicação médica (SILVEIRA; SCHMIDT, 2022). O mercado de produtos derivados do leite de cabra no Brasil movimentou cerca de US$ 317,9 milhões em 2023 e deve alcançar US$ 433,2 milhões até 2030, com crescimento anual de 4,5%.
Para ampliar ainda mais esse mercado, são necessárias políticas públicas que favoreçam a produção e comercialização, especialmente no Nordeste brasileiro, por causa da sua importância social, econômica e de segurança alimentar. A política pública mais estruturada e com resultados concretos é o Programa de Aquisição de Alimentos - Leite (PAA-Leite), que une produção familiar, segurança alimentar e inclusão social. Ela tem permitido que estados como a Paraíba se tornem líderes nacionais na produção de leite caprino. Paralelamente, leis estaduais e programas de ATER reforçam a cadeia produtiva.
O Programa de Aquisição de Alimentos - Leite (PAA-Leite) foi criado em 2003 no âmbito do Programa Fome Zero, há a compra de leite de cabra e de vaca de agricultores familiares com distribuição gratuita a famílias em situação de vulnerabilidade social. Tem forte presença em estados do Nordeste (ex.: Paraíba, Pernambuco, Ceará e Rio Grande do Norte) e como impactos positivos, garante mercado seguro para produtores de leite de cabra, melhora a nutrição de famílias vulneráveis e incentiva a permanência do agricultor familiar no semiárido.
A Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER) desenvolvida pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, executada por meio de convênios com a Embrapa Caprinos e Ovinos, por exemplo, tem foco em melhorar índices zootécnicos (nutrição, sanidade, reprodução), difundir tecnologias de produção de leite, carne e derivados e capacitar agricultores familiares.
As Políticas Públicas de apoio à Caprinovinocultura de diversos estados nordestinos (Paraíba, Bahia, Ceará) vêm discutindo e criando leis estaduais de incentivo à caprinocultura, como a Paraíba que possui legislação que inclui o Programa de Incentivo à Caprinocultura Leiteira, focado em assistência técnica, crédito e garantia de compra do leite e, a Bahia, que tem o programa de fortalecimento da caprinovinocultura dentro do Plano de Desenvolvimento da Pecuária Familiar, voltado à organização de cooperativas e agroindústrias.
E não menos importante, os Programas Estaduais e associações de Cooperativismo cujos bons exemplos estão na Paraíba, maior produtor de leite de cabra do país, que tem a Cooperativa dos Produtores Rurais de Monteiro (Capribom), apoiada por políticas de compra governamental; no Ceará com o Projeto Cabra Nossa de Cada Dia, que distribui leite de cabra para escolas e famílias carentes e, em Pernambuco, com diversos programas de crédito rural e apoio à industrialização de queijos e iogurtes caprinos.
Por fim, a caprinocultura leiteira se mostra um alternativa viável. Ela alia produção sustentável, inclusão social e geração de renda. Com políticas públicas adequadas, acesso à informação, capacitação técnica e valorização dos produtos, a atividade pode se tornar ainda mais relevante em diferentes regiões do Brasil, contribuindo diretamente para o fortalecimento da agricultura familiar.
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Referências bibliográficas
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