Tecnologias verdes na cadeia do queijo: reduzindo impactos ambientais com eficiência

A produção de queijos pode ser mais verde: veja como práticas sustentáveis e tecnologias limpas reduzem emissões e fortalecem o setor lácteo.

Publicado por: vários autores

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As mudanças climáticas têm levado a indústria de laticínios, especialmente a produção de queijos, a repensar suas operações, pois o setor é responsável por cerca de 4% das emissões globais de gases de efeito estufa. No Brasil, a cadeia do leite é crucial para a economia rural, mas seu impacto ambiental deve ser mitigado. As principais emissões ocorrem na produção primária (65-70%) e no processamento. Estratégias para reduzir a pegada de carbono incluem intervenções nutricionais, uso de energias renováveis e reuso de água. Projetos como o Programa de Carbono Neutro da Embrapa visam promover práticas sustentáveis.

A crescente preocupação com as mudanças climáticas tem pressionado os setores produtivos a repensarem seus modelos de operação. A indústria de laticínios, especialmente a cadeia de produção de queijos, é responsável por um volume considerável de gases de efeito estufa (GEE), desde a produção animal até o consumo final. Segundo a FAO (2013), o setor lácteo é responsável por cerca de 4% das emissões globais de GEE.

No Brasil, país com grande vocação agropecuária, a cadeia do leite ocupa papel central na economia rural. A produção de queijos agrega valor ao leite e movimenta milhares de pequenos e médios produtores. Entretanto, o impacto ambiental desse processo precisa ser quantificado e mitigado para garantir a sustentabilidade do setor.

Este texto tem como objetivo analisar os principais pontos de emissão de carbono na cadeia de produção de queijos e apresentar estratégias para redução da pegada de carbono, com foco em dados nacionais e práticas sustentáveis adaptadas à realidade brasileira.

 

Mapeamento das Emissões de Carbono

A cadeia de produção de queijos pode ser dividida em quatro grandes etapas: produção primária, processamento, logística e pós-consumo. A Tabela 1 apresenta uma estimativa das contribuições relativas de cada etapa para a pegada de carbono total.

Tabela 1. Distribuição estimada da pegada de carbono na cadeia de produção de queijos

Etapa

Contribuição média nas emissões (%)

Produção primária (pecuária leiteira)

65-70%

Processamento industrial

15-20%

Transporte e embalagem

10%

Resíduos e pós-consumo

5%

Fonte: Dos autores, 2025.

A produção do leite, principal insumo do queijo, é a maior responsável pelas emissões, destacando-se a fermentação entérica dos bovinos e o manejo de dejetos. Dados da Embrapa (2022) indicam que a emissão média no Brasil varia entre 1,1 e 2,0 kg CO² por litro de leite. Quando convertido em queijo, esse valor pode chegar a 8 - 12 kg CO²/kg, conforme o tipo e o sistema de produção.

  • Processamento e Consumo Energético: No processamento, o uso de energia elétrica e térmica é relevante. Uma queijaria de médio porte pode consumir até 300 kWh por tonelada de queijo. Equipamentos como pasteurizadores, tênues, câmaras frias e centrífugas são pontos de alto consumo.
  • Transporte, Embalagem e Distribuição: A logística também contribui para a pegada de carbono, principalmente quando envolve transporte refrigerado por longas distâncias e uso de embalagens plásticas não recicláveis.
  • Geração e Destinação de Resíduos: O soro do leite, se não aproveitado, pode causar impacto ambiental considerável. Algumas queijarias têm investido na transformação do soro em bebidas, ricota ou bioenergia.

 

Alternativas para Redução das Emissões

Diante da crescente demanda por práticas mais sustentáveis, diversas estratégias vêm sendo implementadas com o objetivo de mitigar os impactos ambientais desse setor. Entre as principais alternativas estão:

A Figura 1 a seguir resume essas principais estratégias para a redução das emissões na cadeia produtiva de queijos, demonstrando como cada uma atua em diferentes pontos do processo produtivo.

Figura 1. Principais alternativas sustentáveis adotadas para reduzir as emissões de carbono na cadeia produtiva de queijos.

Fonte: Dos autores, 2025.

Entre as principais alternativas para a redução das emissões na cadeia produtiva de queijos, destaca-se a suplementação animal com aditivos que reduzem o metano entérico, como as algas vermelhas do gênero Asparagopsis, que contêm compostos como o bromoformo, capazes de inibir a atividade das arqueias metanogênicas no rúmen. Quando administradas em doses adequadas, essas algas podem reduzir em até 80% as emissões de metano.

Os nitratos, por sua vez, atuam como aceitadores alternativos de hidrogênio, desviando o metabolismo microbiano e diminuindo a formação de metano, desde que utilizados com controle para evitar toxicidade. Além disso, aditivos como leveduras e óleos essenciais vêm sendo explorados por sua capacidade de modular a microbiota ruminal, com efeitos cumulativos. Essas estratégias, além de reduzirem os gases de efeito estufa, tendem a melhorar a eficiência alimentar dos animais.

Outra frente importante é o uso de biodigestores e energia solar nas propriedades leiteiras e queijarias. Os biodigestores convertem dejetos orgânicos, como fezes, resíduos alimentares e soro de leite, em biogás, que pode ser utilizado no aquecimento de água, geração de energia elétrica, redução de odores e produção de biofertilizantes. Já os sistemas fotovoltaicos fornecem energia limpa para operações como resfriamento do leite e automação de processos, diminuindo a dependência de fontes fósseis. A combinação dessas tecnologias pode tornar a unidade produtiva quase autossuficiente em energia, promovendo um modelo mais sustentável e resiliente.

No âmbito industrial, destaca-se a implementação de tecnologias voltadas ao reuso de água e à recuperação de calor. A água utilizada em etapas como resfriamento ou enxágue pode ser tratada e reaproveitada em lavagens externas, irrigação ou processos não potáveis, contribuindo para a conservação hídrica. Paralelamente, sistemas de trocadores de calor permitem recuperar a energia térmica de processos como a pasteurização e utilizá-la em etapas subsequentes, otimizando o consumo energético. Esses mecanismos elevam a eficiência hídrica e energética da produção, sendo passíveis de monitoramento por meio de indicadores específicos como litros de água ou kWh por quilo de queijo produzido.

Por fim, ações relacionadas à logística reversa e ao uso de embalagens biodegradáveis ganham relevância na etapa final da cadeia. A logística reversa permite que as embalagens usadas retornem à indústria para reciclagem, reutilização ou descarte ambientalmente adequado, promovendo também a educação do consumidor. Já as embalagens biodegradáveis e compostáveis, feitas com materiais como amido de milho, PLA (ácido polilático) ou fibras vegetais, representam alternativas aos plásticos convencionais, oferecendo menor impacto ambiental. Também é crescente o uso de materiais reciclados, refis e embalagens de menor gramatura, que mantêm a integridade do alimento e reduzem significativamente a pegada de carbono associada ao acondicionamento e transporte dos produtos lácteos.

 

Perspectivas Futuras

A busca por neutralidade climática no setor lácteo é uma tendência global. No Brasil, iniciativas como o Programa de Carbono Neutro da Embrapa, e projetos como o Sertão Sustentável, têm promovido boas práticas e tecnologias acessíveis. A rastreabilidade, certificação ambiental e o engajamento do consumidor são fatores críticos para essa transição.

O avanço de tecnologias como sensores em tempo real e modelos preditivos também poderá contribuir para monitorar e otimizar a pegada de carbono dos queijos em tempo real.

 

Conclusão

A cadeia de produção de queijos possui uma pegada de carbono considerável, especialmente em função da produção leiteira e dos processos industriais envolvidos. No entanto, é possível promover uma transformação sustentável por meio de inovações tecnológicas, boas práticas agropecuárias, gestão eficiente de energia e aproveitamento de resíduos.

Investir em sustentabilidade na produção de queijos não é apenas uma exigência ambiental, mas uma estratégia de valorização comercial e de permanência no mercado.

Agradecimentos

Os autores agradecem às instituições que contribuíram diretamente para a execução desse trabalho, como a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG) e a Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais - Instituto de Laticínios Cândido Tostes (EPAMIG-ILCT).

Referências bibliográficas

BRASIL. Ministério da Agricultura e Pecuária. Mapa do leite. 2022. 

CGEE. Centro de Gestão e Estudos Estratégicos. Sustentabilidade e sustentação da produção de alimentos no Brasil. Embrapa, Brasília, Vol 3, 2014.

Embrapa Gado de Leite. Indicadores de Sustentabilidade da Pecuária Leiteira. 2022. https://www.embrapa.br/gado-de-leite.

OLIVEIRA, H. D. S. et al. Sustentabilidade na produção de derivados lácteos. Acessado em 01/08/2025. https://portalefood.com.br/artigos/sustentabilidade-na-producao-de-derivados-lacteos/

ZANI, A. Oportunidades, responsabilidade e sustentabilidade. Consumidor contemporâneo demanda mais transparência e compromisso. Alimentation, 2017.

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Material escrito por:

Tatiane Teixeira Tavares

Tatiane Teixeira Tavares

Bolsista de pesquisa nível I do Instituto de Laticínios Cândido Tostes - EPAMIG-ILCT.

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Clarice Coimbra Pinto

Clarice Coimbra Pinto

Mestre em Ciência e Tecnologia do Leite e Derivados - Universidade Federal de Juiz de Fora.

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Lorena Evangelista Fernandes

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Claudety Barbosa Saraiva

Claudety Barbosa Saraiva

Claudety Barbosa Saraiva - Professora Dra. e Pesquisadora do Instituto de Laticínios Cândido Tostes/EPAMIG.

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José Antônio de Queiroz Lafetá Junior

José Antônio de Queiroz Lafetá Junior

Professor/pesquisador do Instituto de Laticínios Cândido Tostes - EPAMIG-MG.

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Rafaela Teixeira Rodrigues do Vale

Rafaela Teixeira Rodrigues do Vale

Eng. de Alimentos (UFCG), Mestre e Doutora em C&TA (UFV-DTA), Profª coordenadora do Núcleo de Estudos em Queijos (NEQue) do IF Sudeste MG Rio Pomba.

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