A produção animal é muitas vezes vista como grande vilã e uma das principais contribuidoras para a liberação de gases de efeito estufa (GEE) para a atmosfera, agravando a questão do aquecimento global e mudanças climáticas em todo o mundo. Os principais gases envolvidos nesse processo são o óxido nitroso (N2O), dióxido de carbono (CO2) e o gás metano (CH4). Nesse sentido, há uma crescente preocupação sobre a sustentabilidade em fazendas leiteiras e a produção de gás metano entérico, ou seja, aquele gás produzido durante a digestão e fermentação ruminal, e eliminado principalmente pela eructação dos animais.
Desse modo, as agroindústrias leiteiras têm adotado a sustentabilidade como ponto crucial dentro dos sistemas de produção de leite, o que consequentemente estimula os produtores a adotarem estratégias para mitigação da produção de metano entérico e expande a necessidade de pesquisas sobre o tema. Existem algumas formas para a mitigação da produção de metano por bovinos leiteiros, como:
- investir em animais geneticamente mais eficientes,
- melhorar a estrutura de rebanho,
- investir em tratamento de dejetos,
- o uso de aditivos mitigadores de metano via alimentação.
Assim, o Journal of Dairy Science publicou uma edição especial, intitulada: “Feed additives for methane mitigation: Special issue on technical guidelines to develop feed additives to reduce enteric methane” (tradução: “Aditivos alimentares para mitigação de metano: Edição especial sobre diretrizes técnicas para desenvolvimento de aditivos alimentares para redução de metano entérico”).
Essa edição especial é composta por 6 artigos completos, e que possuem uma extensa recomendação prática visando suprir as lacunas em pesquisas que estudem o uso de aditivos antimetanogênicos na alimentação de bovinos leiteiros. Esta publicação é resultado do projeto coordenado pela Global Research Alliance on Agricultural Greenhouse Gases, destacando a importância de estratégias nutricionais como as mais imediatas e efetivas para aplicação em fazendas. Abaixo, abordaremos brevemente o que cada artigo trás de contribuição.
Identificação de compostos
Durmic et al. (2025) abordam estratégias úteis para identificação e seleção de compostos bioativos eficazes na redução de metano entérico. Os autores fornecerem diretrizes sobre como conduzir estudos (abordagem mecanicista) e analisar dados (abordagem empírica) para identificar compostos promissores. Tais diretrizes focam em testes laboratoriais, determinação de efeitos a nível subcelular, descrição das técnicas in vitro, e vantagens na identificação e triagem dos compostos promissores.
Testagem dos aditivos
Hristov et al. (2025) apontam diretrizes para auxiliar nas testagens dos aditivos candidatos a mitigadores de metano entérico em estudos envolvendo ruminantes. Os autores destacam a importância de estudos sólidos que certifiquem e quantifiquem os efeitos mitigadores de metano, e destacam sobre a importância no esclarecimento acerca da segurança do uso de tais aditivos, bem como fatores antinutricionais ou tóxicos, que podem ser passados para os alimentos, além de possíveis efeitos adversos nas propriedades sensoriais do leite e da carne.
Efeitos dos aditivos
Dijkstra et al. (2025) destacam a importância sobre o uso de modelagem dos efeitos dos aditivos antimetanogênicos de acordo com propósitos distintos. Os autores abordam sobre modelos empíricos, mecanicistas, aprendizado de máquina, e sua utilidade nos cálculos dos inventários de GEE a níveis de fazenda, região, país e mundial. A estrutura dos dados obtidos deve ser avaliada para uma melhor adequação ao modelo mais apropriado. Ainda, os modelos devem ser aplicados separadamente de modo a contabilizarem efeitos transitórios e que quantifiquem os riscos de transitoriedade dos efeitos de mitigação dos aditivos alimentares, além de construção de modelos in vitro.
Modo de ação dos aditivos
Belanche et al. (2025) apontam diretrizes que maximizem as descobertas do modo de ação microbiológico e bioquímico dos aditivos de modo a explicarem os efeitos na mitigação do metano entérico. Os autores sugerem a classificação dos aditivos de acordo com seu modo de ação presumido, e levantam um importante ponto sobre os custos na condução de estudos dessa natureza. Além disso, nos estudos com aditivos antimetanogênicos, qualquer degradação de compostos bioativos a compostos que afetem a segurança alimentar humana, animal, e ambiental, devem ser relatados cuidadosamente.
Técnicas para aprovação e registro
Tricarico et al. (2025) abordam sobre os principais itens que autoridades regulatórias exigem para a aprovação e registro de aditivos antimetanogênicos. Os autores trazem abordagens sobre quais itens ou evidências científicas são relevantes para a aprovação e registro dos aditivos. Tais itens obviamente diferem de acordo com as normas de cada país, mas que devem incluir: nível mínimo para a segurança alimentar, eficácia dos efeitos mitigadores de metano entérico, e qualidade dos produtos a serem aprovados. Ainda, este trabalho aborda sobre as regulamentações adotadas pela maioria dos países industrializados.
Quantificação dos aditivos
Del Prado et al. (2025) abordam formas de quantificação dos aditivos antimetanogênicos a níveis de escala animal, agrícola, regional e nacional. Os autores sugerem esquemas de negociação, avaliação do ciclo de vida e ferramentas para a pegada de carbono, além de evidenciarem a especificação de sinergias e compensações sobre a utilização de aditivos alimentares antimetanogênicos.
Assim, essa edição especial sobre o uso de aditivos alimentares com ação na redução de metano entérico oferece uma visão abrangente sobre o estado atual e os desafios futuros na aplicação prática dos aditivos antimetanogênicos, contribuindo significativamente para a implementação de estratégias eficazes e sustentáveis de mitigação do metano em sistemas de produção pecuária.
Referências bibliográficas
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