Gráfico 1. Evolução da captação de leite no Brasil no 4º trimestre.
Ao longo do trimestre, o ritmo de crescimento apresentou desaceleração gradual. Outubro registrou a maior variação anual, com alta de 12,5%, seguido por novembro (7,9%) e dezembro (5,4%). Esse movimento indica uma perda de fôlego da captação ao final do ano, em linha com o cenário já observado nos dados prévios.
Tabela 1. Volume e variação da captação em período equivalente no ano anterior
Fonte: IBGE - elaborado pelo MilkPoint Mercado.
O que influenciou o desempenho no quarto trimestre
Durante a maior parte de 2025, o setor operou com uma rentabilidade robusta, sustentada por preços em bons patamares e custos de alimentação baixos. Esse cenário é nitidamente visível no indicador de RMCA (Receita Menos Custo de Alimentação), que atingiu um pico de R$ 36,6/vaca/dia em julho/25. Esse estímulo financeiro impulsionou a oferta e a captação formal, porém, o aumento do volume não foi acompanhado pela demanda na mesma intensidade, gerando um excedente que o mercado não absorveu plenamente.
Gráfico 2. RMCA - receita menos custo da alimentação (R$/vaca/dia).
Como consequência desse desequilíbrio, os preços passaram a cair. O preço pago ao produtor recuou de R$ 2,29/litro em outubro para R$ 1,99/litro em dezembro. Essa queda impactou diretamente a rentabilidade: o RMCA, que sustentava patamares acima de R$ 34,0/vaca/dia até setembro, encerrou o ano em R$ 25,0/vaca/dia em dezembro — uma queda de aproximadamente 30% em relação ao pico do ano em julho. Com a margem sentindo o peso dos preços menores, é provável que o produtor tenha reduzido o estímulo produtivo, fator que ajuda a desaceleração da captação observada no fechamento do trimestre.
Gráfico 3. Preço pago ao produtor (R$/litro).
Evolução da captação na região do Nordeste
Regionalmente, o Nordeste voltou a se destacar, com crescimento de 14,4% na comparação com o mesmo trimestre do ano anterior e alta de 13,8% no acumulado de 2025. O desempenho da região reflete uma base comparativa mais baixa, aliada a condições climáticas mais favoráveis para a produção de volumoso e ao avanço tecnológico na bacia leiteira regional, contribuindo para um avanço mais expressivo frente à média nacional.
Esse movimento reforça uma tendência já observada nos últimos anos, com o Nordeste gradualmente conquistando maior relevância na expansão da produção nacional.
Gráfico 4. Captação formal de leite por trimestre no Nordeste.
Expectativas para 2026
Neste início de 2026, o mercado de leite apresenta um cenário distinto do encerramento do ano anterior. Embora ainda se observe um crescimento inercial da produção (reflexo de 2025), esse movimento já começa a ser revertido pela chegada da entressafra. Neste mês de março, relatos de escassez de leite no campo já são frequentes, o que contribuiu para impulsionar uma reação no preço pago ao produtor logo neste primeiro momento do ano.
Essa redução na oferta sazonal atua como um suporte para as cotações, de maneira que a indústria ajusta os preços para cima para garantir o suprimento de matéria-prima. No entanto, o cenário para o decorrer de 2026 ainda é de cautela. Fatores externos trazem instabilidade ao mercado, como a possível alta nos preços dos grãos e do frete em decorrência de conflitos geopolíticos e os efeitos remanescentes do El Niño no Sul do país, que podem pressionar os custos de produção.
A pressão sobre as margens fica evidente nas projeções do indicador de RMCA para este início de ano. O indicador, que chegou a patamares superiores a R$ 36,0/vaca/dia em 2025, inicia 2026 em níveis consideravelmente mais baixos, em R$ 22,3/vaca/dia para janeiro e R$ 23,6/vaca/dia para fevereiro.
Diante dessa dinâmica, as expectativas para a captação de leite ao longo de 2026 apontam para um cenário de estabilidade em comparação ao ano anterior. Segundo o MilkPoint Mercado, o volume produzido deve se manter em patamares elevados, porém sem apresentar crescimento real frente a 2025.
O ano de 2026 deve ser pautado, portanto, pelo ajuste fino entre a oferta disponível e a demanda, com as margens do produtor dependendo diretamente da velocidade de recuperação dos preços frente às incertezas nos custos de alimentação e do mercado.
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