O mercado global de lácteos atravessa um período de forte pressão, marcado por uma alta oferta de leite nos principais países produtores, inclusive nos Estados Unidos e na Europa.
Dados recentes mostram que a produção alcançou níveis excepcionalmente altos em 2025, derrubando preços e intensificando a competição internacional por mercados.
Aumento de oferta nos Estados Unidos
Nos EUA, a produção de leite cresceu de forma constante ao longo do segundo semestre de 2025, registrando avanços expressivos em relação ao mesmo mês no ano anterior:
- +4,1% em julho,
- +3,4% em agosto,
- +3,8% em setembro,
- +3,7% em outubro.
Esse foi o maior crescimento médio trimestral desde 2012, evidenciando não apenas maior produtividade, mas também uma expansão da oferta em praticamente todos os principais estados produtores.
Com esse volume adicional, o país mantém alguns dos produtos lácteos mais competitivos do mundo, fator determinante para sustentar as exportações diante do cenário global desafiador.
Europa acelera e registra crescimentos históricos
Na outra ponta do Atlântico, a União Europeia teve um início de ano moderado, mas a curva mudou completamente a partir do outono europeu (a partir de setembro). De janeiro a agosto, a produção andou próxima aos números de 2024, porém setembro mostrou alta de 4,2% e outubro atingiu impressionantes 5,3%. Quando se inclui o Reino Unido, o avanço chega a 5,5% na comparação anual.
A expansão se reúne nas principais bacias leiteiras (Para outubro/2025):
- Alemanha: +6,8%,
- França: +5,3%,
- Reino Unido: +6,8%,
- Holanda: +7,8%,
- Polônia: +4,4%.
Enquanto os produtores entregam mais leite, a indústria europeia trabalha a todo vapor para absorver o excedente. De janeiro a setembro, a produção de manteiga cresceu 4,7% e a de queijos aumentou 1,6%. Já o leite em pó desnatado (SMP), estável na maior parte do ano, ganhou força com o aumento súbito da produção de leite, elevando a atividade das empresas que secam leite nos últimos meses.
O efeito imediato: preços derretem
A consequência direta desse excedente global foi um choque negativo nos preços internacionais. Na Europa, a retração é significativa:
- Manteiga: –44% em 12 meses,
- Queijos: –30% desde dezembro de 2024,
- SMP: –22% no mesmo período.
A forte competição, especialmente entre exportadores europeus e norte-americanos, intensifica a pressão para que os preços permaneçam baixos — e possivelmente caiam ainda mais — à medida que comerciantes europeus buscam reconquistar mercados perdidos em 2024 e 2025.
No mercado norte-americano, o quadro também revela impactos da oferta abundante. Em novembro de 2025, os preços de referência fecharam em:
- Classe III: US$17,18/cwt,
- Classe IV: US$ 13,89/cwt,
Ambos estão em patamares que refletem a dificuldade em sustentar margens diante da pressão internacional.
Competição intensa no mercado internacional
Com produtos mais baratos, os Estados Unidos seguem bem posicionados para abastecer mercados importadores. Porém, a estratégia americana depende da capacidade de manter preços baixos, já que a Europa demonstra clara intenção de recuperar espaço, especialmente em categorias como manteiga, SMP e queijos.
Essa disputa acirrada cria um ambiente altamente competitivo para exportadores globais, com impactos diretos sobre destinos como América Latina, África do Norte, Sudeste Asiático e Oriente Médio — regiões sensíveis a variações de preço e que costumam ajustar fornecedores conforme o momento.
O que esse cenário significa para o mercado brasileiro?
Embora o relatório não trate diretamente do Brasil, seus efeitos são inevitáveis. Entre os desdobramentos esperados estão:
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Risco de maior pressão competitiva externa, já que o avanço dos EUA e da Europa em outros mercados pode levar Argentina e Uruguai — também com oferta elevada e sem barreiras tarifárias — a voltar a mirar o Brasil. Isso ocorre mesmo com a nossa oferta interna já bastante alta, que até aqui vinha reduzindo o interesse desses países pelo mercado brasileiro.
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Pressão sobre os preços internos, especialmente de lácteos industrializados e derivados de leite em pó.
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Desafios para produtores brasileiros, cuja rentabilidade já é afetada por custos elevados.
O ano de 2025 se encaminha para ser marcado por uma das maiores expansões simultâneas de oferta láctea, seja no Brasil, na América do Sul, nos EUA e na Europa dos últimos anos. Com um verdadeiro “tsunami” de leite inundando o mercado, os preços internacionais desabam e a disputa pelo consumidor global se intensifica.
Para países como o Brasil, entender esse movimento é fundamental para tomar decisões estratégicas, seja na gestão da produção, na política de importações ou na competitividade da indústria local.