Manteiga vira tendência nos EUA em um cenário de oferta elevada

De colaborações com marcas de moda a produtos virais nas redes sociais, a manteiga vive um novo momento. O fenômeno reflete tanto a dinâmica do mercado lácteo quanto a busca por pequenos luxos no cotidiano alimentar.

Publicado por: MilkPoint

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A marca Pop Secret apresentou a atriz Melissa Joan Hart como sua "Chef da Manteiga", promovendo uma campanha que incentiva confissões do público. A cooperativa Land O'Lakes lançou um tênis amarelo-manteiga, enquanto a Tillamook criou a "Butternaise", um híbrido de manteiga e maionese, que esgotou rapidamente. A popularidade da manteiga cresce, mesmo com a inflação, devido à sua percepção como um luxo acessível. A produção elevada e a nostalgia associada ao ingrediente reforçam seu valor cultural e emocional.

A marca americana de pipoca para micro-ondas Pop Secret apresentou sua Chef da Manteiga: Melissa Joan Hart, atriz, diretora e produtora conhecida por protagonizar séries icônicas dos anos 1990, como Clarissa Sabe Tudo e Sabrina, Aprendiz de Feiticeira. A campanha convida o público a ligar para uma linha direta e “confessar seus segredos”.

Já a Land O’Lakes, grande cooperativa agrícola de Minnesota, no meio-oeste dos Estados Unidos, conhecida por seus produtos lácteos como manteiga e queijo, lançou um tênis na cor amarelo-manteiga em parceria com a marca de calçados Clove.

No Oregon, a cooperativa de laticínios Tillamook, formada por agricultores familiares do condado de mesmo nome, firmou parceria com a fabricante japonesa de maionese Kewpie para criar a “Butternaise”, um híbrido de manteiga e maionese voltado aos fãs de queijo grelhado. O produto esgotou em menos de dez minutos.

Em meados de novembro, a padaria franco-asiática Papa d’Amour, criada pelo chef Dominique Ansel em Nova York, viralizou com sorvetes soft serve mergulhados em manteiga francesa quente e finalizados com sal. A ideia foi rapidamente adotada pela rede regional de supermercados Stew Leonard’s, em Connecticut, que levou o produto para várias de suas lojas.

As chamadas butter boards — versões de tábuas de manteiga inspiradas nas charcutarias “instagramáveis” — também retornaram, agora com menos foco em performance visual e mais em conforto e compartilhamento. Até mesmo velas comestíveis de manteiga, que tiveram seu momento no início da década, reforçam que o ingrediente segue despertando interesse não apenas como alimento, mas também como elemento estético.

Ao olhar além das ações de marketing, porém, emerge um movimento mais profundo. A atual presença da manteiga na cultura de consumo reflete a convergência de dois fatores: um excedente de produção ao longo da cadeia de suprimentos e um desejo crescente por alimentos percebidos como simples, autênticos e emocionalmente reconfortantes.
 

Por que a demanda por manteiga está aumentando apesar da inflação?

O ressurgimento da manteiga ocorre em um contexto de preços elevados dos alimentos, o que torna sua ascensão como ingrediente “em alta” aparentemente contraditória. Justamente aí reside a explicação.

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Mesmo com projeções indicando preços mais altos para 2025, os consumidores não deixaram de comprar manteiga, embora tenham ajustado o volume de consumo. Nesse cenário, a manteiga passa a representar uma indulgência acessível: um item capaz de transformar uma torrada simples ou um produto assado em casa em algo mais completo.

Dados de mercado confirmam esse estímulo do consumidor, enquanto as condições do próprio setor também favorecem o movimento. Com a carne bovina em patamares elevados e os ovos enfrentando sucessivas crises, os preços da manteiga permanecem relativamente mais estáveis, apesar das pressões inflacionárias em outras áreas do supermercado.

Entendendo o excedente de manteiga de 2025

O apelo emocional é apenas parte da explicação. A outra está na dinâmica da economia agrícola.

O consumo de leite fluido nos Estados Unidos vem caindo há décadas, o que levou a indústria a redirecionar sua estratégia. Produtores e processadores passaram a priorizar a produção de gordura láctea, principal matéria-prima de produtos com maior demanda, como queijo e manteiga.

Segundo dados recentes do USDA Dairy Market News (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos), esse movimento resultou em uma produção de leite relativamente estável, mas com níveis consistentemente elevados de gordura láctea, garantindo ampla disponibilidade de nata e creme em todo o país.

Os processadores operam próximos da capacidade máxima, com oferta abundante de creme na maioria das regiões. Esse cenário sustentou uma produção constante de manteiga ao longo do ano.

O resultado é um mercado marcado pela abundância. Com estoques elevados, a demanda sazonal da indústria de panificação não é suficiente para absorver todo o volume, o que leva as empresas a buscar novos estímulos ao consumo — explicando o aumento de parcerias criativas e ações de marca.

Nostalgia e o significado do amarelo-manteiga

Em fevereiro, a marca americana de eletrodomésticos KitchenAid, conhecida por sua icônica batedeira planetária, elegeu o amarelo-manteiga como sua Cor do Ano.

A tonalidade remete à domesticidade de meados do século passado: bancadas de fórmica, geladeiras vintage e a manteiga armazenada em um prato sobre o balcão. É uma cor associada a conforto, tradição e a uma ideia específica de lar.

O aspecto mais marcante desse movimento não é apenas a escolha da cor por uma grande marca, mas sua presença simultânea no design e na alimentação. Estética e ingrediente se reforçam, transformando a manteiga em um símbolo visual e culinário de abundância e familiaridade.

Como as marcas estão capitalizando a tendência

Quando oportunidade econômica e impulso cultural se encontram, as marcas respondem rapidamente. A Pop Secret recorreu à nostalgia dos anos 1990 ao nomear Melissa Joan Hart — a própria Sabrina — como sua primeira “Chief of Butter” (Chefe da Manteiga), acompanhada de uma linha direta de confissões que transforma a manteiga em entretenimento.

A Land O’Lakes apostou no estilo de vida ao lançar um tênis de edição limitada que transporta sua icônica embalagem de manteiga para o vestuário. Já a Tillamook capitalizou tendências virais da internet com a Butternaise, formalizando um hábito que muitos consumidores já praticavam em casa.

O sorvete mergulhado em manteiga de Dominique Ansel reuniu os principais atributos valorizados nas redes sociais: apelo visual, nostalgia e inovação na medida certa.

O “efeito batom” chega à despensa

A valorização da manteiga não ocorre de forma isolada. Ela segue um padrão comum às tendências alimentares contemporâneas, nas quais ingredientes deixam de ser apenas funcionais e passam a atuar como marcadores de identidade — trajetória semelhante à observada com o azeite de oliva e o café especial.

Nesse processo, as características físicas do alimento são muitas vezes superadas pelo que ele simboliza. Economistas descrevem esse comportamento como “efeito batom”, fenômeno identificado durante períodos de crise, quando consumidores buscam pequenos luxos acessíveis como forma de conforto e controle.

Na cozinha, a manteiga passou a ocupar esse espaço. Em meio a alimentos mais caros e instáveis, ela oferece uma sensação rara: indulgência possível, abundância sem culpa e um “sim” acessível em um cenário dominado por restrições.

As informações são da Forbes.

 

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