Vacas também buscam privacidade na hora do parto

Uma vaca prestes a parir não fica simplesmente parada esperando o bezerro nascer. Ela caminha, muda de posição e procura um local para dar à luz.

Publicado por: MilkPoint

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A pesquisa da Dra. Kate Creutzinger destaca a importância do ambiente de parto para o bem-estar das vacas leiteiras. Durante o parto, elas buscam espaço e privacidade, e o comportamento delas pode influenciar a duração do trabalho de parto. Baias coletivas e superlotação podem aumentar o estresse e dificultar o uso de barreiras visuais. Mover vacas para um ambiente desconhecido após o início das contrações pode atrasar o parto. Um manejo que considere esses fatores pode resultar em partos mais curtos e melhor recuperação pós-parto.
Uma vaca prestes a parir não fica simplesmente parada esperando o bezerro nascer. Ela caminha, muda de posição e procura um local para dar à luz. Esses comportamentos oferecem uma nova perspectiva sobre o manejo das baias de maternidade.

Em vez de perguntar apenas se o local está limpo, funcional e facilita o monitoramento pela equipe, talvez seja preciso ir além: esse ambiente permite que a vaca faça aquilo que naturalmente busca durante o trabalho de parto?

Dra. Kate Creutzinger, professora assistente de Ciências Animais e Veterinárias da Universidade de Vermont, estuda o comportamento e o bem-estar de bovinos leiteiros. Em um webinar recente promovido pelo Badger Dairy Insight, ela apresentou pesquisas sobre como o ambiente de parto pode influenciar o comportamento das vacas e a progressão do trabalho de parto.

“Dependendo de como ela é manejada — em uma baia coletiva, individual ou em um sistema de contenção — estamos dando a essa vaca a oportunidade de expressar esses comportamentos quando está desconfortável, tendo contrações e parindo?”, questiona Creutzinger. “Ela consegue caminhar, ser mais ativa, levantar e deitar confortavelmente, alternando entre essas posições durante o parto?”

O que as vacas buscam durante o parto?

A resposta pode ser mais simples do que parece: espaço e um pouco de privacidade. À medida que o parto se aproxima, as vacas se tornam mais ativas. Pesquisas conduzidas por Creutzinger mostraram aumento no comportamento de caminhada nas 24 horas anteriores ao parto, enquanto as mudanças entre ficar em pé e deitar se intensificaram nas últimas horas antes do nascimento.

Esse comportamento sugere que as vacas podem estar fazendo mais do que apenas reagindo ao desconforto. Elas podem estar procurando ativamente um local adequado para parir. “Sabemos que, quando têm oportunidade, as vacas gostam de se esconder atrás de uma barreira visual na área de parto e de se afastar das outras vacas durante esse momento”, afirma Creutzinger.

Essa preferência apareceu em diferentes estudos. Em pesquisas discutidas pela especialista, as vacas escolheram com mais frequência áreas localizadas atrás ou ao lado de barreiras visuais quando tinham essa possibilidade. O trabalho também mostrou que elas utilizavam mais esses espaços quando havia área suficiente e acesso facilitado. Pode parecer apenas uma pequena preferência comportamental. Mas isso ganha importância quando as vacas precisam competir por esse espaço.

Por que apenas instalar uma barreira visual não basta

Uma barreira só ajuda se a vaca realmente conseguir utilizá-la. Nos estudos de Creutzinger, vacas alojadas em dupla utilizaram a barreira visual com muito menos frequência do que aquelas mantidas individualmente. Em ambientes coletivos, com várias barreiras, a proporção de animais que fazia uso desses espaços era ainda menor.

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“Se estivermos trabalhando com superlotação ou não oferecermos acesso adequado aos recursos, isso provavelmente pode gerar mais estresse, especialmente se houver competição pelo uso desses espaços ou se as vacas estiverem procurando algo que não conseguem acessar durante o parto”, explica.

Isso traz uma distinção importante para o planejamento das baias de maternidade. A pergunta não deve ser apenas: a baia tem uma barreira visual? Mas também: a vaca consegue realmente acessar o espaço que procura quando precisa dele? Em uma baia de maternidade coletiva, isso significa considerar a lotação, o número e a localização das áreas mais reservadas e se até mesmo as vacas subordinadas conseguem utilizá-las.

O mesmo princípio vale para todo o ambiente de parto. As vacas precisam de espaço suficiente para caminhar, deitar, levantar, mudar de posição e escolher uma área limpa e seca para parir.

O ambiente pode influenciar o trabalho de parto?

É nesse ponto que o comportamento das vacas deixa de ser apenas uma discussão sobre bem-estar. As pesquisas de Creutzinger indicam que o ambiente oferecido durante o parto pode influenciar tanto a duração do trabalho de parto quanto a probabilidade de um nascimento sem assistência. Vacas alojadas em baias menos adensadas e com barreiras visuais apresentaram resultados mais favoráveis do que aquelas submetidas aos outros ambientes avaliados. "Pode ser que, se conseguirmos oferecer um ambiente melhor e mais adequado para o parto, ela consiga parir mais rapidamente”, sugere Creutzinger.

Isso não significa que simplesmente instalar uma barreira visual evitará casos de distocia. A pesquisa aponta, porém, que o ambiente de parto pode ser um dos fatores capazes de influenciar a forma como o trabalho de parto evolui.

Essa distinção é importante do ponto de vista clínico. A distocia tem múltiplas causas, e a baia de maternidade é apenas uma parte dessa equação. Ainda assim, se as condições ambientais podem ajudar a vaca a avançar no trabalho de parto, vale a pena levá-las em conta no manejo.

Mover a vaca na hora errada pode aumentar o estresse

O local onde a vaca pare é apenas parte da questão. O momento em que ela é levada até esse ambiente também pode fazer diferença.

Em uma pesquisa relacionada, vacas transferidas depois que as contrações já haviam começado apresentaram uma segunda fase do trabalho de parto mais longa. Uma possível explicação é que um ambiente desconhecido representa mais uma situação à qual a vaca precisa se adaptar justamente em um momento crítico. “Se for um ambiente desconhecido ou se ela estiver isolada, pode passar menos tempo deitada e mais tempo tentando se adaptar ao local, em vez de simplesmente se deitar e parir”, afirma Creutzinger.

Isso levanta uma questão prática sobre o momento ideal para transferir a vaca. Mover o animal quando o trabalho de parto já está evidente pode facilitar o monitoramento pela equipe. Para a vaca, no entanto, chegar a um ambiente desconhecido depois do início das contrações pode interromper comportamentos importantes para a progressão do parto.

Isso não significa que todas as vacas devam ser transferidas mais cedo. Significa apenas que a familiaridade com o ambiente de parto também merece entrar na discussão sobre o manejo.

Um parto mais curto pode trazer benefícios após o nascimento

Os efeitos do ambiente de parto podem não terminar quando o bezerro nasce. Pesquisas anteriores mostraram que vacas submetidas a trabalhos de parto mais longos apresentaram maior inflamação durante a primeira semana após o parto. Segundo Creutzinger, esse processo inflamatório pode potencialmente afetar a função imunológica, a reprodução e a produção de leite.

Forma-se, assim, um panorama mais amplo: o ambiente influencia o comportamento; o comportamento pode influenciar o trabalho de parto; e a duração e a evolução do parto podem repercutir na recuperação da vaca no pós-parto.

“Dar às vacas a oportunidade de se esconder ou oferecer um ambiente confortável para o parto permite que elas expressem alguns desses comportamentos naturalmente motivados”, afirma Creutzinger. “Isso também pode potencialmente encurtar o parto, reduzindo a ocorrência de distocia, a necessidade de assistência e até a inflamação após o parto.” Ao avaliar o manejo das baias de maternidade em uma fazenda leiteira, portanto, talvez seja preciso olhar além da lista básica de verificação.

A baia está limpa e seca? Sim.

É fácil monitorar a vaca? Sim.

Mas também é importante perguntar:

A vaca consegue se movimentar livremente? Pode deitar e levantar com conforto? Tem a possibilidade de se afastar das outras vacas? Consegue acessar o espaço que prefere para parir? Esse ambiente já lhe é familiar antes do início do trabalho de parto ativo?

Essas perguntas colocam o comportamento da vaca novamente no centro do manejo do parto. O objetivo não é tornar o processo completamente previsível, mas criar um ambiente que trabalhe a favor do comportamento natural da vaca — em vez de obrigá-la a se adaptar às limitações do sistema.

As informações são do Dairy Herd Management, traduzidas pela Equipe MilkPoint. 

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