A Índia, que já lidera o setor global com uma estrutura baseada em pequenas propriedades e cooperativas, responderá por mais da metade de todo o crescimento mundial projetado até 2035. Contudo, tanto a Índia quanto o Paquistão utilizarão esse incremento quase integralmente para suprir o forte consumo interno de produtos frescos gerado pela urbanização e pela elevação da renda, sem provocar grandes impactos no comércio internacional.
O comportamento dos grandes exportadores mundiais apresentará dinâmicas bastante distintas no mesmo período. A União Europeia enfrentará uma produção praticamente estagnada em virtude da redução de seu rebanho e do avanço de sistemas orgânicos, que possuem menor produtividade e custos mais elevados. Em contrapartida, os Estados Unidos liderarão o crescimento do setor impulsionados por altos índices de produtividade por animal, direcionando seus excedentes para a produção e exportação de leite em pó desnatado. Já a Nova Zelândia, altamente dependente da eficiência do manejo de suas pastagens, terá um crescimento moderado de 1% ao ano devido à limitação territorial, mas manterá seu foco estratégico no volume produzido por hectare e no atendimento do mercado externo.
No consumo, a maior parte do leite mundial continuará sendo destinada aos produtos frescos, especialmente nas nações de renda média e baixa. Nos países de renda alta, a demanda por frescos deve cair, dando espaço a derivados com alto teor de proteína, como iogurtes e queijo cottage, além da preferência por gordura láctea em detrimento de outros sólidos. Essa mudança de padrão sustenta uma valorização internacional superior para a manteiga em relação ao leite em pó desnatado. Paralelamente, o mercado global de produtos industrializados continuará dependente dos leites em pó para uso na indústria de confecção, panificação e fórmulas infantis, além do soro em pó, que ganha espaço em nutrição especializada e na reconstituição de lácteos em países com produção limitada.
O comércio internacional permanecerá altamente concentrado, respondendo por menos de 7% de todo o leite produzido globalmente devido à alta deteriorabilidade e ao custo de transporte do produto líquido. União Europeia, Estados Unidos e Nova Zelândia continuarão dominando as exportações globais, sendo responsáveis por cerca de 70% das vendas de queijo, manteiga e leites em pó. Do lado dos compradores, a China seguirá como a maior importadora mundial de lácteos, embora com um ritmo de compras de leite em pó integral desacelerado pelo aumento de sua produção interna. A África, por sua vez, deve ampliar significativamente suas importações de leite em pó para suprir uma demanda que crescerá muito mais rápido do que a capacidade de seus rebanhos locais.
Por fim, o setor permanecerá exposto a incertezas relevantes que podem alterar as projeções até 2035. A volatilidade dos preços continua sendo um risco estrutural, intensificada por políticas comerciais protecionistas e metas ambientais cada vez mais severas, especialmente em países com grandes emissões como Irlanda e Nova Zelândia. Além disso, eventos climáticos extremos, a expansão de alternativas vegetais como bebidas de amêndoa e aveia, surtos de doenças animais e gargalos de mão de obra representam desafios constantes. No entanto, a adoção de tecnologias emergentes, como ordenha automatizada e monitoramento em tempo real, pode elevar os índices de produtividade global para patamares ainda maiores do que os previstos.
As informações são do relatório OECD-FAO Agricultural Outlook 2026–2035, capítulo 6, “Dairy and dairy products”, traduzidas e adaptadas pela equipe MilkPoint.
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