Essa é a trajetória de Ed Henderson e Dave Temple, criadores da Thunder CoffeeMilk, empresa que nasceu da tentativa de transformar uma combinação familiar aos consumidores em um produto com maior valor agregado: o café gelado com leite, pronto para beber e com conservação em temperatura ambiente.
Henderson é um dos responsáveis pela Shenandoah Dairy, fazenda leiteira localizada no norte da Flórida, nos Estados Unidos. Fundada por sua família em 1987, com um rebanho de 100 vacas, a propriedade conta atualmente com cerca de 3 mil vacas leiteiras e quase 3 mil acres de terras cultiváveis.
Apesar da experiência na produção de leite, desenvolver uma bebida industrializada representou uma mudança significativa em sua atuação no setor. O desafio não estava apenas em encontrar uma receita agradável ao paladar, mas em viabilizar um produto que pudesse ser processado, armazenado, transportado e comercializado em escala.
Da ideia à fórmula: o desafio de industrializar o café com leite
A proposta surgiu durante uma viagem a Florida Keys, quando Henderson e Temple discutiam alternativas para desenvolver um produto de valor agregado a partir do leite. Entre as possibilidades consideradas, o café gelado com leite foi a ideia que mais despertou o interesse da dupla. A inspiração veio, em parte, da experiência australiana com bebidas que combinam café e leite. “Dave me contou que na Austrália eles bebem café com leite, e nós não tínhamos nada parecido aqui nos Estados Unidos”, recordou Henderson.
Inicialmente, o plano era simples: utilizar o leite das próprias fazendas, engarrafar a bebida e comercializá-la na região. Entretanto, transformar o conceito em um produto com vida útil prolongada exigiu uma série de testes e mudanças no projeto original.
O principal obstáculo estava no processamento térmico. Para que a bebida pudesse ser armazenada em temperatura ambiente, sem necessidade de refrigeração, era preciso submetê-la a um tratamento capaz de garantir sua estabilidade comercial e microbiológica.
A solução envolveu o processo conhecido como retortagem, no qual o produto é submetido ao calor e à pressão em um sistema apropriado, geralmente após o envase em embalagem hermeticamente fechada. O desafio era que a combinação entre a acidez do café e o aquecimento provocava a coagulação das proteínas do leite, comprometendo a textura e a qualidade da bebida. “Quando passamos nosso produto pela primeira vez na autoclave, ele saiu com a consistência de um pudim”, contou Henderson.
Sem formação em química de alimentos, os produtores buscaram apoio especializado. A dupla alugou espaço no Centro de Processamento e Inovação de Alimentos da Universidade Estadual de Michigan, onde utilizou equipamentos em escala piloto para testar diferentes formulações.
Foram dezenas de tentativas até encontrar uma composição capaz de suportar o tratamento térmico sem comprometer as características desejadas. Segundo Henderson, a bebida desenvolvida contém aproximadamente 90% de leite e café de qualidade. “Eu e o Dave não somos químicos de alimentos. Somos produtores de leite. Costumamos dizer que nosso trunfo é a perseverança”, afirmou. A embalagem também passou por mudanças. A bebida foi testada inicialmente em garrafas de vidro, depois em latas de alumínio com tampa de rosca, até chegar ao formato utilizado comercialmente.
A logística também faz parte da inovação
A criação da fórmula, porém, não resolveu todos os desafios. Para viabilizar a produção em escala, Henderson e Temple precisaram encontrar uma indústria com estrutura para processar a mistura de café e leite. Segundo Henderson, não havia instalações adequadas no Sudeste dos Estados Unidos. A fabricação foi direcionada a uma unidade em Chicago, o que inviabilizou o envio do leite produzido na Flórida.
A empresa passou, então, a adquirir leite de Michigan, mais próximo da unidade industrial, incluindo versões sem lactose. A decisão evidencia um aspecto importante da agregação de valor: a matéria-prima utilizada no desenvolvimento de um produto nem sempre será proveniente da fazenda dos empreendedores. Embora a intenção inicial fosse transformar o próprio leite em uma bebida comercial, a viabilidade econômica da operação exigiu uma reorganização da cadeia de suprimentos.
Outro aprendizado veio da distribuição em regiões de clima frio. Um lote enviado para Wisconsin congelou durante o armazenamento no inverno, provocando a separação dos componentes da bebida. O episódio mostrou que, além de desenvolver uma formulação estável em temperatura ambiente, era necessário compreender como o produto reagiria às condições enfrentadas durante o transporte e a distribuição.
Após anos de testes e ajustes, a Thunder CoffeeMilk chegou ao varejo, com presença em mercados como Texas, sul da Flórida e Minnesota, além das vendas pela internet.
Produzir leite é diferente de vender uma marca
Se a experiência na fazenda ajudou Henderson e Temple a compreender a produção leiteira, o novo negócio exigiu conhecimentos que não faziam parte de sua rotina. A comercialização de uma bebida diretamente ao consumidor trouxe desafios relacionados ao posicionamento do produto, à exposição nas lojas, à distribuição e à comunicação com o mercado.
Henderson relata que uma das primeiras experiências da marca no Walmart evidenciou essa diferença. As latas foram colocadas nas prateleiras inferiores, próximas a outros produtos de café, reduzindo sua visibilidade e dificultando o aproveitamento das ações de divulgação no ponto de venda.
A situação mostrou que desenvolver um produto competitivo não garante, por si só, que ele será percebido pelo consumidor. A localização nas gôndolas, a apresentação da embalagem e a associação com determinadas categorias podem influenciar a forma como uma novidade é encontrada e compreendida pelo público.
Para os produtores, essa foi uma mudança de perspectiva. Além de dominar a produção de leite, era preciso entender como posicionar uma marca e competir por espaço em um mercado com diversas opções de bebidas. “Somos orientados para a produção, não para as vendas”, explicou Henderson, ao destacar a necessidade de buscar profissionais e parceiros especializados em áreas como ciência de alimentos, fabricação e comercialização.
A experiência também reforçou sua percepção sobre a maneira como o leite disputa espaço com outras bebidas nos supermercados. Para ele, desenvolver produtos com identidade própria representa uma oportunidade de apresentar o leite ao consumidor para além da embalagem tradicional de leite fluido.
Próximo passo: uma versão com 26 gramas de proteína
A inovação na Thunder CoffeeMilk continua. A empresa já comercializa três bebidas de café à base de leite com longa vida útil e trabalha no desenvolvimento de uma quarta versão, com maior teor proteico. A nova formulação deverá fornecer 26 gramas de proteína por porção, acompanhando o interesse dos consumidores por alimentos e bebidas com maior concentração desse nutriente.
O desenvolvimento, no entanto, exige novos ajustes técnicos. Henderson afirma que ele e Temple voltaram ao laboratório para trabalhar na formulação e estão próximos de solucionar os desafios encontrados. “Estamos muito perto de resolver o problema, e a proteína é o que está impulsionando o mercado agora”, disse.
A iniciativa mostra como a agregação de valor pode abrir espaço para novas aplicações do leite em categorias que dialogam com tendências de consumo. Nesse caminho, porém, o potencial comercial precisa caminhar junto com a viabilidade tecnológica, a consistência do produto e a capacidade de produção.
Uma nova forma de permanecer no setor leiteiro
A história de Henderson e Temple ilustra uma possibilidade para produtores que buscam ampliar sua participação na cadeia de valor: deixar de atuar exclusivamente na produção da matéria-prima e avançar, também, para o desenvolvimento de produtos destinados diretamente ao consumidor. Isso não significa que o caminho seja simples. A trajetória da Thunder CoffeeMilk envolveu dificuldades de formulação, busca por parceiros industriais, decisões logísticas e aprendizados sobre distribuição e vendas. Em diferentes momentos, a solução exigiu recorrer a conhecimentos externos e rever os planos iniciais.
Para Henderson, entretanto, a persistência que caracteriza o trabalho no campo também se aplica ao empreendedorismo. “Só porque alguém diz não, não significa que vamos parar. Significa que encontraremos uma maneira diferente”, afirmou.
O negócio representa um novo capítulo em sua trajetória no setor leiteiro, combinando a experiência acumulada na fazenda com a criação e a comercialização de um produto final. Mais do que transformar leite em uma bebida de café, Henderson e Temple precisaram construir uma operação capaz de conectar formulação, processamento industrial, logística e mercado consumidor.
É justamente nessa integração que está o principal aprendizado da experiência: agregar valor ao leite não depende apenas da ideia de um novo produto, mas da capacidade de transformar essa ideia em um negócio viável, com tecnologia, parceiros e estratégia comercial.
As informações são do Dairy Herd, traduzidas e resumidas pela Equipe MilkPoint.
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