Essas enfermidades compreendem desde a ocorrência de hérnia umbilical até infecções da região umbilical, podendo também ocorrer de forma conjunta. As hérnias umbilicais estão entre os defeitos congênitos mais frequentes em bovinos, com incidência relatada entre 0,65% e 1,8%, sendo observada maior ocorrência nas raças Holandesa e Holstein-Friesian. Sua ocorrência pode estar associada a diferentes fatores, incluindo predisposição genética e condições relacionadas ao período neonatal. Embora algumas hérnias sejam pequenas e possam ser acompanhadas clinicamente, outras podem persistir, aumentar de tamanho ou evoluir com complicações, tornando necessária a intervenção cirúrgica.
Principais aspectos relacionados à ocorrência das hérnias umbilicais
A ocorrência de hérnias umbilicais em bezerros é resultado da interação entre diferentes fatores, envolvendo características próprias do animal e condições às quais ele é submetido durante o período neonatal. Estudos demonstram que alguns animais apresentam maior susceptibilidade ao desenvolvimento de hérnias umbilicais devido à influência genética. Observaram que fatores relacionados ao touro e à linhagem paterna estavam associados à ocorrência de hérnias, indicando que determinadas linhagens apresentam maior predisposição para essa alteração. Na prática, isso significa que propriedades com ocorrência frequente de hérnias entre animais relacionados devem observar também o histórico dos reprodutores utilizados.
A seleção genética pode ser uma ferramenta complementar para reduzir a ocorrência do problema, principalmente quando há repetição de casos em filhos de um mesmo touro. Entretanto, a genética não é o único fator envolvido. As condições de manejo nas primeiras horas e dias de vida possuem grande influência na saúde do umbigo e podem favorecer ou reduzir o risco de complicações. Logo após o nascimento, a região umbilical representa uma importante porta de entrada para microrganismos, pois estruturas como vasos sanguíneos umbilicais e o úraco ainda estão em processo de involução.
Quando ocorre contaminação, podem surgir infecções umbilicais que prejudicam a cicatrização adequada da região. Além disso, processos infecciosos comprometem os tecidos próximos ao umbigo e favorecendo alterações que aumentam a ocorrência de hérnias. Por esse motivo, o manejo neonatal possui papel fundamental. Assim, a maternidade deve oferecer condições adequadas de higiene, evitando o contato do umbigo com fezes, lama e excesso de matéria orgânica.
A desinfecção do cordão umbilical logo após o nascimento, com solução apropriada à base de iodo, também é uma medida importante para reduzir a contaminação e o risco de infecções. Além disso, a transferência adequada de imunidade por meio do colostro é essencial para que o bezerro tenha capacidade de responder aos desafios dos primeiros dias de vida. Assim, a prevenção das hérnias umbilicais depende de uma abordagem integrada, que considera a predisposição genética do rebanho, a redução das ocorrências de infecções umbilicais e a adoção de boas práticas de manejo desde o nascimento.
O que é a hérnia umbilical?
A hérnia umbilical caracteriza-se pela protrusão de componentes da cavidade abdominal através do anel umbilical remanescente do coto umbilical, sendo essa estrutura revestida pelo saco herniário. Em bezerros, as hérnias umbilicais podem apresentar diferentes características e são classificadas de acordo com sua origem, possibilidade de redução e condição do conteúdo herniado. Quanto à redução, as hérnias podem ser classificadas como redutíveis, quando o conteúdo pode retornar à cavidade abdominal mediante manipulação, ou irredutíveis, quando este retorno não é possível. Por sua vez, está condição pode estar acompanhada pelo comprometimento das estruturas intestinais e da vascularização local, caracterizando uma hérnia estrangulante, situação de maior gravidade devido ao risco de isquemia e necrose dos tecidos.
Além dessas classificações, as hérnias umbilicais também podem ser diferenciadas de acordo com suas características clínicas e gravidade.
Hérnia não complicada
Essas hérnias geralmente são redutíveis, estão presentes desde os primeiros dias de vida e podem apresentar circunferência de até 14 cm, aumentando de tamanho de forma proporcional ao crescimento do bezerro. Em geral, não há sinais de infecção ou inflamação, nem comprometimento das estruturas internas da região umbilical. Por isso, os bezerros costumam manter bom estado geral e raramente apresentam alterações no funcionamento do trato gastrointestinal.
Quando há comprometimento dessas estruturas, entretanto, podem surgir sinais de dor abdominal, acompanhados por alterações nos níveis de cloro e potássio.
Hérnia de maior tamanho
São consideradas hérnias de maior dimensão aquelas que apresentam circunferência a partir 15 cm, caracterizadas por defeitos mais extensos na parede abdominal. Nesses casos, a correção cirúrgica é indicada, podendo estar associada à utilização de tela para reforço da parede abdominal, conforme a avaliação e a indicação do médico-veterinário.
Hérnia complicada
A ocorrência de complicações nas hérnias umbilicais pode estar associada a cuidados inadequados com o umbigo, maior exposição à contaminação ambiental e falha parcial ou completa na transferência de imunidade passiva. Esses fatores favorecem o desenvolvimento de infecções na região umbilical, como onfalite, infecção dos remanescentes umbilicais e formação de abscessos. Quando presente, a infecção também pode enfraquecer a parede abdominal, contribuindo para o desenvolvimento das hérnias.
As infecções podem atingir os diferentes remanescentes do cordão umbilical, incluindo o úraco, a veia e as artérias umbilicais, sendo que mais de um remanescente pode estar comprometido ao mesmo tempo, tornando o quadro mais complexo. Nos bezerros com hérnia associada à infecção dos remanescentes umbilicais, é comum haver histórico de secreção purulenta no umbigo, geralmente observada entre a primeira e a segunda semana de vida.
Algumas semanas depois, pode surgir uma massa na região umbilical que aumenta de tamanho. Esses animais podem apresentar desenvolvimento abaixo do esperado para a idade e, em alguns casos, serem acometidos por outras doenças infecciosas, como artrite séptica, pneumonia, peritonite ou bacteremia. De um modo geral, podemos dizer que esses casos apresentam maior complexidade e geralmente necessitam de tratamento específico, envolvendo controle da infecção e intervenção cirúrgica.
Quando é necessário intervir?
Nem toda hérnia umbilical precisa de intervenção imediata. Hérnias pequenas, indolores e facilmente redutíveis, especialmente em bezerros jovens, podem ser acompanhadas, pois alguns casos apresentam redução espontânea durante o crescimento. Nesses animais, é importante observar regularmente se o aumento de volume está diminuindo, estável ou aumentando. A intervenção deve ser considerada quando a hérnia persiste, aumenta de tamanho ou apresenta um anel herniário maior.
Na literatura, recomenda-se considerar a correção cirúrgica quando o anel apresenta diâmetro superior a 2 cm e permanece por mais de 3 a 4 semanas. Esse valor deve ser utilizado como referência, e a decisão deve considerar também a idade do animal, a evolução da hérnia e a possibilidade de redução. Deve-se ficar atento quando a hérnia deixa de ser facilmente redutível, com a consistência firme ou dolorida, aumenta rapidamente ou apresenta alterações na pele ou secreção.
Esses sinais podem indicar complicações, como encarceramento, e justificam avaliação imediata pelo médico veterinário. Em casos associados a dor abdominal, distensão abdominal progressiva, perda de apetite ou piora do estado geral, o atendimento veterinário deve ser imediato, independentemente do tamanho da hérnia. Esses sinais podem estar relacionados ao encarceramento ou estrangulamento de estruturas abdominais e exigem avaliação rápida.
Principais tratamentos
O tratamento das hérnias umbilicais deve ser definido de acordo com as características de cada animal. Nem todos os casos exigem cirurgia imediatamente, e a decisão deve ser considerada pela avaliação de um médico-veterinário, que irá observar aspectos como evolução da alteração, presença de complicações e condições gerais do bezerro. Algumas abordagens conservadoras, como bandagens de suporte abdominal e massagem diária, são descritas como alternativas para o manejo das hérnias, mas sua indicação depende das características da hérnia, sendo fundamental que a conduta seja estabelecida por um médico-veterinário.
As bandagens de suporte são recomendadas apenas para hérnias com menos de 5 cm de extensão, totalmente redutíveis e sem sinais ou histórico de infecção. Já a maioria das hérnias umbilicais com mais de 5 cm de extensão ou que apresentem qualquer sinal de patologia deve ser corrigida cirurgicamente, por meio da técnica denominada herniorrafia.
Por outro lado, quando há suspeita de infecção associada, o tratamento deve ser direcionado inicialmente para o controle desse processo. Alterações como aumento de volume doloroso, presença de secreção, mau cheiro ou sinais gerais de doença podem indicar comprometimento das estruturas umbilicais, tornando o caso mais complexo. Quando existe infecção associada ao umbigo, o tratamento pode envolver o uso de antibióticos e medicamentos anti-inflamatórios, buscando controlar a infecção, reduzir a inflamação e melhorar o conforto do bezerro.
É importante destacar que esses medicamentos atuam no tratamento de complicação, mas não corrigem a abertura existente na parede abdominal, que pode exigir avaliação para correção cirúrgica. Quando a correção cirúrgica é indicada, a técnica utilizada tem como objetivo fechar o defeito existente na parede abdominal e evitar a permanência da comunicação entre a cavidade abdominal e a região externa. Em alguns casos de hérnias maiores, nas quais o fechamento direto da parede abdominal pode gerar muita tensão nos tecidos, sobretudo aberturas a partir de 15 cm, podem ser utilizadas telas cirúrgicas como material de reforço.
Esses implantes auxiliam na sustentação da região corrigida e podem reduzir o risco de falhas na reparação. A cirurgia apresenta bons resultados quando realizada em animais adequadamente avaliados e em condições favoráveis. Entretanto, nos casos em que existem infecções mais profundas ou comprometimento de estruturas umbilicais internas, o tratamento pode exigir procedimentos adicionais, como a remoção dos tecidos afetados, além do controle da infecção.
Dessa forma, o tratamento da hérnia umbilical deve ser baseado em uma avaliação completa do animal. A identificação precoce e o acompanhamento veterinário permitem escolher a melhor estratégia, evitando que casos simples evoluam para situações mais graves.
Fontes consultadas
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Referência das imagens
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