Mas existe outro detalhe que torna a raça especialmente interessante para a pecuária leiteira: ela não precisa ser encarada apenas como uma raça de leite. O Guzerá tem importância tanto para a produção de leite quanto para a produção de carne.
Uma raça feita para ambientes difíceis
A Embrapa descreve a origem do Guzerá na região de Gujarat, na Índia, caracterizada por ambiente seco e hostil. Os primeiros exemplares chegaram ao Brasil por volta de 1870. Desde então, a raça passou a ser utilizada em diferentes sistemas produtivos.
Entre as características destacadas pela literatura estão a rusticidade, a tolerância a altas temperaturas, a resistência a parasitas e a capacidade de aproveitar forrageiras de menor qualidade. Essas características têm valor especial em sistemas baseados em pastagens, nos quais o ambiente pode impor limitações importantes ao desempenho de raças europeias altamente especializadas.
Mas e o leite?
O Guzerá também passou por seleção específica para produção leiteira. O Programa Nacional de Melhoramento do Guzerá para Leite começou em 1994. A partir daí, avaliações genéticas passaram a ser utilizadas para direcionar a seleção dos animais com melhor desempenho.
Um estudo da Embrapa que avaliou a produção e a composição do leite de vacas Guzerá observou evolução das médias históricas de produção entre diferentes períodos e também aumento da duração da lactação. A pesquisa analisou características como produção de leite, gordura, proteína e sólidos totais. Isso é importante porque mostra que o Guzerá leiteiro não depende apenas da rusticidade herdada de sua origem. Existe um processo deliberado de melhoramento voltado para aumentar sua capacidade produtiva.
A grande vantagem pode estar no cruzamento
Talvez seja nos cruzamentos que o Guzerá revele uma de suas características mais interessantes. O principal cruzamento do Guzerá para produção de leite é com a Holandesa, dando origem ao chamado Guzolando.
A lógica é semelhante àquela que ajudou a consolidar o Girolando: aproveitar a produção de uma raça europeia especializada e combinar essa característica com a rusticidade e a adaptação de uma raça zebuína, o Gir. A diferença é que o Guzerá acrescenta uma característica particularmente interessante: a aptidão para carne.
A Embrapa destaca que animais provenientes do cruzamento Holandês × Guzerá podem apresentar boa capacidade leiteira, rusticidade, fertilidade e longevidade. Os machos resultantes do cruzamento também podem ser aproveitados para produção de carne devido à capacidade de ganho de peso.
Isso abre uma possibilidade importante para sistemas nos quais a produção não está baseada exclusivamente na venda de leite.
Uma genética para sistemas mais flexíveis
A discussão sobre eficiência na pecuária leiteira costuma ficar concentrada em litros por vaca. Mas sistemas de produção podem ter objetivos diferentes. Em uma propriedade que trabalha com animais mestiços, por exemplo, pode ser interessante produzir leite e, ao mesmo tempo, gerar bezerros com valor comercial. É nesse contexto que o Guzerá ganha espaço.
Um animal capaz de utilizar pastagens, suportar condições tropicais e participar de um sistema de dupla aptidão pode oferecer uma alternativa para propriedades que não necessariamente buscam o máximo volume individual de leite. A própria Embrapa destaca que as raças zebuínas leiteiras, como Guzerá e Gir, tiveram papel importante na busca por animais adaptados aos sistemas tropicais brasileiros.
Uma história que ainda está sendo escrita
O Guzerá chegou ao Brasil há mais de 150 anos. Desde então, deixou de ser apenas um zebu adaptado ao calor para se tornar também objeto de programas específicos de melhoramento leiteiro. Hoje, sua importância está justamente na combinação de características. Não é apenas uma vaca resistente. Não é apenas uma raça de dupla aptidão. E não é apenas uma alternativa à Holandesa.
É uma genética que pode fazer sentido quando o produtor precisa equilibrar produção de leite, adaptação, fertilidade, longevidade e valor dos animais para carne. Em tempos em que eficiência passou a significar muito mais do que produzir o maior volume possível, essa combinação ajuda a explicar por que o Guzerá continua despertando interesse na pecuária leiteira brasileira.
Referências para a nota:
Embrapa, Avaliação da produção e composição do leite em vacas de primeira lactação da raça Guzerá; Embrapa, Genética animal – Bovino de Leite; Embrapa, Anuário Leite; Embrapa, Zebu Dairy Breeding Programmes in Brazil.