Poucas raças contam uma história tão brasileira quanto o Girolando. Sua origem está justamente em uma necessidade bastante conhecida pelos produtores: como aproveitar o potencial produtivo da Holandesa sem abrir mão da rusticidade e da adaptação dos zebuínos?
A resposta começou a aparecer nos rebanhos brasileiros há décadas, quando criadores passaram a cruzar animais Holandeses e Gir. O que começou como uma prática de campo acabou se transformando em um programa organizado de formação racial.
Uma história que começou quase por acaso
A Associação Brasileira dos Criadores de Girolando conta que, por volta da década de 1940, no Vale do Paraíba, em São Paulo, um touro Gir teria invadido uma pastagem vizinha e coberto vacas Holandesas. Os produtos desse cruzamento chamaram a atenção dos criadores por reunirem características das duas raças.
Independentemente do caráter quase folclórico dessa história de origem, o que veio depois foi bastante concreto: produtores de diferentes regiões passaram a utilizar o cruzamento entre Gir e Holandês e perceberam que os animais resultantes poderiam combinar boa produção de leite e adaptação às condições tropicais. Na década de 1970, esse movimento ganhou organização. Em 1978, foi fundada em Uberaba a entidade que posteriormente se tornaria a Associação Brasileira dos Criadores de Girolando.
Por que exatamente 5/8 Holandês + 3/8 Gir?
Essa é uma das curiosidades mais interessantes da raça. O Girolando não foi simplesmente definido como “qualquer cruzamento de Holandês com Gir”. O programa de formação estabeleceu uma composição racial específica como padrão: 5/8 de sangue Holandês e 3/8 de sangue Gir.
As normas para formação da raça foram definidas em 1989, e o Girolando foi oficialmente reconhecido como raça pelo Ministério da Agricultura em 1º de fevereiro de 1996. Segundo a Associação Brasileira dos Criadores de Girolando, a escolha do 5/8 buscou reduzir a segregação genética, equilibrar a proporção das raças parentais e aumentar a padronização dos animais.
A Embrapa também descreve estratégias de cruzamento para chegar à composição 5/8 Holandês + 3/8 Gir. Ou seja, aquela fração aparentemente específica não surgiu por acaso. Ela é resultado de uma estratégia de melhoramento.
A força está justamente na combinação
Da Holandesa vem principalmente o potencial produtivo desenvolvido após décadas de seleção para leite. Do Gir, entram características associadas à rusticidade e à adaptação a condições tropicais. É a lógica clássica do cruzamento: tentar reunir em um mesmo animal características desejáveis que estão presentes em diferentes populações.
A Embrapa destaca que aproximadamente 70% da produção de leite brasileira provém de vacas mestiças Holandês-Zebu. Entre esses cruzamentos, o Holandês × Gir é o mais comum. Esse dado ajuda a dimensionar a importância dessa genética para o Brasil.
A produção também mudou
O Girolando não ficou parado enquanto o programa de formação avançava. A Associação Brasileira dos Criadores de Girolando informa que a produção média das vacas em lactações de até 305 dias passou de 3.695 kg em 2000 para 5.671 kg em 2019 — aumento de 53%.
Isso é resultado de décadas de seleção e melhoramento, e não apenas do cruzamento inicial. A raça também passou a incorporar ferramentas mais modernas de seleção genética, incluindo avaliações genômicas. Outro dado interessante apresentado pela associação é a longevidade produtiva: segundo a entidade, o pico de produção ocorre por volta dos oito anos, e as vacas podem produzir satisfatoriamente até aproximadamente 15 anos.
Uma raça brasileira com um objetivo muito claro
O Girolando nasceu de uma pergunta prática: como produzir leite em condições tropicais sem abrir mão da produtividade? Sua história mostra que a resposta não precisou ser escolher entre “raça europeia” ou “raça zebuína”. Foi possível construir uma genética a partir das duas.
É justamente por isso que o Girolando representa algo maior do que uma simples combinação de porcentagens. Ele é resultado de uma estratégia de melhoramento construída no Brasil para uma realidade brasileira.
E talvez essa seja sua característica mais interessante: o Girolando não foi simplesmente importado. Foi desenvolvido aqui, a partir de duas genéticas diferentes, para resolver um problema específico da produção de leite tropical.
Referências para a nota:
Associação Brasileira dos Criadores de Girolando, Sobre a Raça e Raça Nacional; Embrapa, Vacas Mestiças; Embrapa, A raça Girolando.