Do Nordeste para Braga, queijo coalho de Pernambuco vira estrela em Portugal

Com produtos fabricados de forma artesanal nos arredores de Braga, em Portugal, a Queijo Coalho Portugal tem conquistado não apenas brasileiros que vivem fora do país, mas também consumidores europeus interessados em novas experiências gastronômicas

Publicado por: MilkPoint

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A Queijo Coalho Portugal, fundada por Maria Maia, pernambucana que se mudou para Portugal, tem ganhado destaque na Europa com produtos artesanais brasileiros. Após uma mudança de vida em busca de qualidade, Maria iniciou a produção de queijo coalho em casa, que rapidamente se tornou um negócio. A empresa, que também oferece outros laticínios, enfrenta desafios na obtenção de matéria-prima devido à concentração do mercado. A marca se destaca pela qualidade e autenticidade, mantendo preços acessíveis e participando de eventos gastronômicos.

Um produto típico do nordeste brasileiro vem ganhando espaço em prateleiras, restaurantes e eventos gastronômicos na Europa. Com produtos fabricados de forma artesanal nos arredores de Braga, em Portugal, a Queijo Coalho Portugal tem conquistado não apenas brasileiros que vivem fora do país, mas também consumidores europeus interessados em novas experiências gastronômicas.

Por trás desse movimento está a pernambucana Maria Maia, que deixou o Recife após uma longa trajetória na área de recursos humanos para empreender no exterior. O que começou como uma tentativa de adaptação em um novo país acabou se transformando em um negócio estruturado, que hoje distribui laticínios típicos brasileiros para diferentes mercados europeus, mantendo como principal diferencial a originalidade do produto.

Antes de empreender no setor de alimentos, Maria Maia construiu uma trajetória sólida no Recife. Psicóloga formada pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), atuou por 25 anos na área de recursos humanos e comandou, por 17 anos, a própria empresa, que chegou a reunir 1.500 colaboradores. Com atuação junto a grandes grupos empresariais e redes de varejo, a empresária vivia uma rotina intensa e de alta responsabilidade.

A decisão de mudar veio após um período marcante em sua vida pessoal. “Em 11 meses, eu perdi pai, mãe, irmão e avó. Foi um choque muito grande. Aí eu virei para o meu esposo e disse: ‘Eu queria trabalhar menos e viver mais’”, relembra.

A mudança, segundo ela, não foi motivada por dificuldades financeiras, mas pela busca por qualidade de vida. Em 2016, o casal decidiu deixar o Brasil e tentar um recomeço fora do país, avaliando inicialmente opções como Estados Unidos e Portugal.

Já com perfil empreendedor, Maria chegou à Europa com a intenção de abrir um novo negócio. A primeira aposta foi uma fábrica de paletas mexicanas, com proposta de produtos naturais e sem adição de açúcar. No entanto, fatores culturais e climáticos interferiram diretamente no desempenho do negócio. “Faltou entender melhor o clima e a cultura. O português não consome gelado como a gente consome. Se esfria um pouco, já não é tempo de tomar nada gelado”, explica.

Figura 1

O surgimento da Queijo de Coalho Portugal

A virada veio de forma inesperada. Em uma das viagens ao Brasil durante o período de encerramento das atividades da sua empresa, Maria esqueceu de encomendar queijo coalho. Decidiu produzir o alimento de forma artesanal em casa. O resultado rapidamente despertou interesse entre amigos e conhecidos.

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“Eu fiz o queijo e comecei a dividir. Um vizinho dizia ‘eu quero’, o outro dizia ‘eu quero comprar’. Aí eu pensei: ‘Vamos fazer uma empresa?’”, conta. Em menos de um ano após a chegada a Portugal, nascia a Queijo de Coalho Portugal, ainda de forma modesta, mas já com potencial de crescimento.

Esse vínculo com a produção artesanal não surgiu por acaso. Maria Maia traz na bagagem uma relação familiar com o universo dos laticínios no interior de Pernambuco, especialmente na região de Bezerros e cidades vizinhas. Foi a partir desse conhecimento empírico, aprendido com parentes que já produziam queijo e outros derivados do leite, que ela conseguiu dar os primeiros passos em Portugal. “Eu tenho familiares que têm laticínios no interior, visitei fábricas. Foi dali que veio a base”, conta.

Figura 2

Estrutura produtiva e desafios do mercado europeu

A implantação da fábrica trouxe desafios específicos, especialmente no acesso à matéria-prima. Em Portugal, a produção de leite é fortemente concentrada em grandes empresas, o que limita o acesso de pequenos produtores. “Aqui existe um monopólio das grandes empresas. Os pequenos produtores não podem vender livremente”, afirma.

A solução encontrada foi estabelecer parceria com uma vacaria local, onde a produção foi instalada. O modelo garante acesso direto ao leite fresco. “O leite sai da ordenha e vai direto para a produção. Isso garante qualidade e frescor”, explica. O processo permanece artesanal, sem adição de insumos industriais. “Nosso produto é 100% puro. Não leva massa de batata nem mistura. É leite e técnica”, reforça.

Com o aumento da demanda, a empresa ampliou o portfólio. Hoje, além do queijo coalho, são produzidos itens como queijo minas frescal, requeijão, massa de pastel, pão de queijo e pão de alho. A produção semanal varia conforme a estação. No inverno, gira entre 300 e 500 quilos. Já no verão, pode chegar a 900 quilos por semana. O crescimento foi sustentado exclusivamente com recursos próprios, sem acesso a financiamentos externo.

Estratégia comercial e presença internacional

A atuação da empresa vai além de Portugal. A Queijo de Coalho Portugal atende também países como França, Suíça, Dinamarca, Alemanha e Itália, por meio de distribuidores e clientes diretos. O modelo de vendas combina diferentes frentes como fornecimento para mercados especializados, restaurantes e envio direto ao consumidor final por meio de e-commerce.

Além disso, a marca é presença garantida em eventos gastronômicos com food trucks, participando de feiras e festivais em cidades como Braga, Lisboa, Porto e Aveiro. “De maio a setembro, praticamente todos os finais de semana estamos em eventos nas ruas”, destaca.

Inicialmente voltado para brasileiros, o negócio passou a conquistar também consumidores europeus. Muitos conhecem o produto por meio da cultura brasileira. “Tem gente que chama de ‘queijo das novelas brasileiras’. Outros são portugueses que visitaram ou viveram no Brasil e sentem saudade”, conta. Em eventos, o produto também desperta curiosidade. Maria relembra o caso de um turista francês que, ao experimentar pela primeira vez em um evento na rua, consumiu oito espetinhos de queijo coalho.

Preço, posicionamento e filosofia de negócio

Desde o início, a empresária optou por manter preços estáveis. O quilo do queijo coalho é vendido por 15 euros, valor que, segundo ela, busca equilibrar acessibilidade e sustentabilidade do negócio. “Eu não tenho intenção de ganhar muito em cada produto. Prefiro ganhar em volume e fidelizar o cliente”, explica.

A estratégia reforça o posicionamento da marca, focado na qualidade, na autenticidade e na construção de relacionamento com o consumidor. Ela relata que chegou a ser procurada por uma indústria interessada em conhecer seu processo produtivo, mas recusou a proposta. “Eu não quero estar em grandes redes. Eu gosto de ser pequena, de ter controle sobre o que eu faço”, diz.

Aos 51 anos, Maria Maia avalia que a mudança de vida trouxe novos aprendizados e um equilíbrio diferente entre trabalho e vida pessoal, ainda que o ritmo continue intenso. “Eu não consegui trabalhar menos, porque gosto de trabalhar. Mas consegui viver mais”, resume.

As informações são do Movimento Econômico, adaptadas pela equipe MilkPoint.

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