Na atividade leiteira sempre estamos em busca de um capim milagroso, uma raça ou grau de sangue superior, uma instalação que traga conforto para as vacas elevando a produtividade das mesmas e de custo baixo. E muitas vezes esses temas são carregados de paixão, os apaixonados por holandês x girolando, silagem de milho x capiaçu x pasto, ou ainda, o sistema de Compost Barn como sendo a solução para ganhar dinheiro na atividade.
Mas na verdade, um país de dimensões continentais como o nosso, de características de relevo, clima, culturais tão distintas não nos permite a criação de um modelo único de produção de leite. Porém, através da coleta e análise de dados dos projetos de assistência técnica e gerenciais existentes nos permite fazer algumas análises interessantes e apontar um “norte”, assim como uma bússola, para os produtores de leite e consultores.
Sendo assim, uma análise realizada pelo projeto Educampo do SEBRAE- MG, analisando diversos indicadores da pecuária leiteira (no período de 2018 a 2022, dados de centenas de fazendas) elencou aqueles com maior peso na Margem líquida por vaca em lactação de uma propriedade leiteira. Sendo os cinco principais citados abaixo e em ordem de importância:
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Produção por vaca em lactação por dia
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Gastos com concentrados e minerais em relação à renda bruta da atividade leiteira
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Gastos com mão de obra em relação à renda bruta da atividade leiteira
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Gastos com volumoso em relação à renda bruta da atividade leiteira
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Preço do leite
Ao analisar esses indicadores chama a atenção o fato do preço de leite aparecer apenas na quinta colocação, contrariando a expectativa de muitos produtores, que sempre o consideram como o grande vilão. E o ponto principal para o produtor ganhar dinheiro na atividade é ter vaca boa parida no curral, ou seja, alta produtividade por vaca em lactação. Nesse sentido avançamos muito nos últimos anos com projetos de FIV patrocinados pelos laticínios através do programa mais leite saudável ou de iniciativas como o SEBRAETEC na ficha técnica de FIV e IATF, difundindo mais essas tecnologias e melhorando a produtividade das fazendas.
Analisando o banco de dados do projeto PDPL, de 30 fazendas assistidas em 2024 (corrigidos pelo IGP-DI de Dezembro de 2024), percebe-se o mesmo comportamento dessa análise apresentada pelo projeto Educampo.
Uma observação importante antes de avaliar esses números, é que representam dados médios de um grupo de produtores (de uma dada região) com sistema intensivo ou semi-intensivo, e não devem ser extrapolados de maneira absoluta para outras regiões e sistemas. O importante é a avaliação da tendência desses indicadores, conforme o aumento da eficiência, essa sim pode ser analisada. Para realizar essa avaliação, essas fazendas foram subdivididas em três grupos, quanto à rentabilidade da atividade leiteira:
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25% inferiores
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50% intermediários
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25% superiores
Produção por vaca em lactação por dia
A primeira orientação ao produtor é buscar vacas de alta produtividade e ter boa escala de produção, pois assim, ele terá maior rentabilidade no seu negócio, como se pode observar na tabela 1.
Tabela 1. Produção e produtividade influenciando na rentabilidade da pecuária leiteira.
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25% inferior |
50% intermediário |
25% superior |
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Produção por vaca em lactação |
L/VL/dia |
16,98 |
20,64 |
26,97 |
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Produção diária |
L/dia |
930 |
1564 |
3260 |
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Taxa de retorno do Capital com terra |
% |
0 |
5,88 |
17,21 |
Há uma evolução linear entre os grupos, sendo que o grupo de rentabilidade inferior apresentou a menor média de produção por vaca em lactação por dia, sendo de 16,98, já o grupo superior apresentou a maior média, sendo igual a 26,97 L/VL/dia, cerca de 10 litros a mais por vaca. Esse aumento de produtividade, gera uma diluição do custo de mantença, aumenta a produção e por consequência a renda bruta da atividade leiteira, trazendo maior rentabilidade.
Gasto com nutrição dos animais
No entanto, ter vacas boas paridas no curral, não é suficiente, é preciso ter equilíbrio nos gastos com alimentação (concentrados, minerais e volumosos). E as fazendas mais eficientes tiveram os gastos menores em relação à renda bruta (RB) da atividade leiteira, reforçando a relação direta entre gastos equilibrados com alimentação e rentabilidade da atividade leiteira, como demonstrada na tabela 2.
Tabela 2. Gasto com alimentação influenciando na rentabilidade da atividade leiteira.
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25% inferior |
50% intermediário |
25% superior |
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Gasto com concentrado/RB da atividade |
% |
38,03 |
32,46 |
30,49 |
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Gasto com volumoso/RB da atividade |
% |
17,15 |
13,04 |
11,18 |
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Gasto com alimentação/RB da atividade |
% |
55,18 |
45,5 |
41,67 |
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Taxa de retorno do Capital com terra |
% |
0 |
5,88 |
17,21 |
As fazendas classificadas como superiores gastaram 41,67% da renda bruta da atividade para alimentar o seu rebanho (vacas, bezerras e novilhas) versus as fazendas inferiores que gastaram mais de 50% da renda nesse item.
Gasto com mão de obra
Outro item relatado como muito importante é a mão de obra e abaixo, segue alguns dados de eficiência e gastos com mão de obra, na tabela 3.
Tabela 3. Eficiência da mão de obra influenciando na rentabilidade da atividade leiteira.
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25% inferior |
50% intermediário |
25% superior |
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Vacas em lactação por mão de obra total |
VL/dh |
15,76 |
18,68 |
21,77 |
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Produção por mão de obra total |
L/dh |
267,53 |
385,54 |
587,15 |
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Gasto com mão de obra/RB da atividade |
% |
11,68 |
7,74 |
6,31 |
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Taxa de retorno do Capital com terra |
% |
0 |
5,88 |
17,21 |
É interessante notar como está tudo relacionado, o grupo das 25% fazendas inferiores em rentabilidade, tem menor eficiência da mão de obra frente aos demais grupos. Nesse grupo de fazendas um funcionário é responsável por 15,76 vacas em lactação e 267,53 litros por dia, já o grupo superior o funcionário é responsável por 21,77 vacas e 587,15 litros.
Esses números são obtidos pela divisão da produção ou do número de vacas em lactação pela quantidade de funcionários permanentes (a mão de obra familiar também é incluída nessa conta), ou seja, diaristas não entram nessa conta, mas ordenhadores, tratadores, equipe de campo que for fixa e com responsabilidade na atividade leiteira são contabilizados. A eficiência da mão de obra se dá por processos bem definidos nas fazendas, uso da mecanização, vacas de melhor padrão genético que ajudam na diluição dos gastos com mão de obra e assim, aumenta a rentabilidade das fazendas.
Preço pago por litro de leite
E por último, mas não menos importante o preço recebido por essas fazendas mais eficientes também foi maior, mas esse preço mais alto é consequência de sua melhor qualidade e maior volume, como podemos observar na tabela 4. Do grupo inferior para o superior houve uma diferença de R$0,21.
Tabela 4. Influência da qualidade de leite e produção diária no preço do leite e deste na rentabilidade das fazendas.
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25% inferior |
50% intermediário |
25% superior |
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CCS |
(x1000) |
618,82 |
435,61 |
288,93 |
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Produção diária |
L/dia |
930 |
1564 |
3260 |
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Taxa de retorno do Capital com terra |
% |
0 |
5,88 |
17,21 |
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Preço médio de leite |
R$/L |
2,78 |
2,89 |
2,99 |
O produtor de leite é um tomador de preço, sua capacidade de influenciar o preço de leite é pequena, ele consegue atuar em poucos pontos, como: qualidade, quantidade, negociando com diferentes laticínios..., mas o mercado em si, raramente ele consegue influenciar, ficando a mercê da lei da oferta e demanda.
O esquema abaixo sintetiza como ter uma atividade lucrativa na pecuária de leite:
Fonte: Autor
Assim como a bússola nos aponta a direção a seguir, esses dados nos mostram o caminho a seguir para ter uma atividade mais lucrativa.