Como escolher o híbrido mais adequado para silagem?

Produtividade no campo e eficiência no cocho andam lado a lado. A seleção do híbrido de milho é uma decisão estratégica, diferenças de desempenho entre materiais podem representar variações significativas na receita por hectare.

Publicado em: - 5 minutos de leitura

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A alimentação do rebanho tem papel central na viabilidade econômica da atividade leiteira, visto que representa em torno de 40 a 50% dos custos totais em relação à renda bruta da atividade. Portanto, investir em volumosos de alta qualidade é uma estratégia fundamental para quem busca estabilidade e rentabilidade na produção.

Entre as opções disponíveis, a silagem de milho destaca-se por apresentar vantagens significativas, como facilidade de mecanização, alto valor energético, boa qualidade de fibra e elevada produção de matéria seca por hectare. Esses atributos contribuem diretamente para a segurança alimentar do rebanho, especialmente nos períodos de escassez de forragens.

Atualmente, o mercado oferece uma ampla variedade de híbridos de milho, desenvolvido para atender diferentes condições de clima, solo, pressão de pragas e doenças, além de se adaptarem a distintos níveis tecnológicos das propriedades. Essa diversidade exige atenção no momento da escolha, considerando as particularidades de cada sistema de produção.

Diante dessa realidade, é natural que surja a seguinte dúvida: como identificar o híbrido de milho mais adequado?

Com o intuito de ajudar a responder essa pergunta, o Programa de Desenvolvimento da Pecuária Leiteira (PDPL), faz um evento conhecido como Vitrine do Milho, já realizado em diversas cidades do estado de Minas Gerais, como: Viçosa, Sete Lagoas, Pompéu, Carandaí, Coronel Xavier Chaves, Paula Cândido e Curvelo.

No último evento, por exemplo, foram plantados 29 híbridos, todos analisados sob as mesmas condições de manejo. Foram avaliados aspectos qualitativos (como teor de amido, energia, proteína e fibra), sanitários (resistência a pragas, como cigarrinha e lagarta-do-cartucho) e produtivos. A partir da análise desses dados, foi elaborado um gráfico que correlaciona o indicador “Toneladas de leite por tonelada de matéria seca” (que reflete a qualidade do híbrido) com “Toneladas de matéria seca por hectare” (que indica sua produtividade). Com base nessa correlação, os híbridos foram classificados em quatro quadrantes.

Os materiais analisados apresentaram ótimos potenciais produtivos. Como ponto de corte, foram considerados 19 toneladas de matéria seca por hectare (t MS/ha) e 1,62 toneladas de leite por tonelada de matéria seca (t leite/t MS).

O Quadrante 1 reúne os híbridos que alcançaram tanto alta produtividade de matéria seca por hectare quanto elevada produção de leite por tonelada de matéria seca — ou seja, híbridos muito produtivos e de excelente qualidade.

Os híbridos do Quadrante 2 também apresentaram produtividade acima de 19 t MS/ha, porém com produção de leite por tonelada de matéria seca inferior a 1,62 t leite/t MS, indicando materiais muito produtivos, mas com qualidade intermediária.

O Quadrante 3 inclui os híbridos com produtividade inferior ao grupo, mas com excelente qualidade bromatológica, pois apresentam produção de leite por tonelada de matéria seca superior a 1,62 t leite/t MS. Por fim, o Quadrante 4 agrupa os híbridos com baixa produtividade e menor eficiência na conversão de matéria seca em leite (Gráfico 1).

Gráfico 1. Separação dos híbridos quanto à produtividade (Ton MS/ha) e qualidade (Ton de Leite/Ton de MS).

Separação dos híbridos quanto à produtividade (Ton MS/ha) e qualidade (Ton de Leite/Ton de MS).

Portanto, deve-se escolher os híbridos do Quadrante 1 em relação aos demais, certo? Salvo algumas particularidades — como sanidade, pressão de pragas, fertilidade do solo, investimento que o produtor está disposto a fazer e clima — quem respondeu “sim” está correto.

Para deixar essa diferença ainda mais evidente, pode-se multiplicar um indicador pelo outro, obtendo assim a métrica “toneladas de leite por hectare”, que representa o quanto o híbrido é capaz de produzir de leite por unidade de área.

A Tabela 1, apresentada abaixo, mostra exatamente esse indicador. Por meio dela, é possível observar que os híbridos do Quadrante 1 têm potencial para produzir até 4,8 toneladas de leite a mais por hectare do que os híbridos do Quadrante 4. Em uma atividade na qual se ganha apenas centavos por litro, essa diferença é extremamente significativa — podendo determinar o sucesso ou o fracasso da produção leiteira.

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Traduzindo isso para a linguagem financeira: 4.800 litros de leite a mais por hectare/ano, considerando o valor do leite de R$ 2,70 por litro, representam R$ 12.960,00 a mais por hectare ao ano. Comparando dois produtores com o plantio de 10 hectares, essa diferença chega a R$ 129.600,00 ao ano.

Tabela 1. Relação entre a produtividade e o potencial de conversão em leite por hectare.

QUADRANTE

1

2

3

4

MV (Ton/ha)

66.06

66.50

57.17

61.41

MS (Ton/ha)

20.00

19.97

17.38

18.13

Ton de leite/Ton de MS

1.69

1.56

1.68

1.59

Ton de leite / ha

33.70

31.11

29.27

28.90

 

Os indicadores de qualidade nutricional da silagem, como FDN, FDA, lignina, digestibilidade da fibra e teor de amido, são fundamentais para avaliar a eficiência de um híbrido de milho na conversão de matéria seca em leite (t leite/t MS).

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Um bom híbrido deve apresentar em sua matéria seca FDN inferior a 45%, FDA abaixo de 25%, lignina menor que 3% e digestibilidade da FDN em 30 horas superior a 50%, o que favorece o consumo e  maior utilização dos nutrientes da silagem. Além disso, silagens com Nutrientes Digestíveis Totais (NDT) acima de 65% e teor de amido superior a 28% contribuem com maior aporte energético à dieta. Como a energia representa entre 70% e 75% das exigências nutricionais das vacas leiteiras, híbridos com alta densidade energética permitem reduzir a utilização de concentrados — item de maior custo na atividade leiteira —, aumentando a eficiência alimentar dos animais e a rentabilidade.

Sendo assim, a escolha do híbrido utilizado na produção de volumosos tem papel estratégico no sucesso da atividade leiteira, pois impacta diretamente na produtividade do rebanho e na rentabilidade da atividade.

Essa decisão não deve ser feita de forma aleatória, já que envolve múltiplos fatores agronômicos e zootécnicos. Por isso, é fundamental contar com o apoio de um profissional capacitado, que saiba interpretar corretamente análises bromatológicas, entenda as características edafoclimáticas da região (como tipo de solo, regime de chuvas e temperatura), avalie a fertilidade do solo e conheça o comportamento produtivo e adaptativo dos diferentes híbridos disponíveis no mercado. Essa abordagem técnica e integrada aumenta as chances de escolher um material que alie produtividade, qualidade nutricional e boa adaptação às condições locais.  

Para acessar os resultados completos da XVIII Vitrine do Milho Silagem, clique aqui.

Referências bibliográficas

PAZIANI, S. D. F., DUARTE, A. P., NUSSIO, L. G., GALLO, P. B., BITTAR, C. M. M., ZOPOLLATTO, M., & RECO, P.C. (2009). Características agronômicas e bromatológicas de híbridos de milho para produção de silagem. Revista Brasileira de Zootecnia, 38, 411-417.


CRUZ, J. C., PEREIRA FILHO, I. A., GONTIJO NETO, M. M. Milho para silagem. Agência Embrapa de Informação Tecnológica. EMBRAPA, 2013. Disponível em: https://www.embrapa.br/en/agencia-de-informacao-tecnologica/cultivos/milho/producao/sistemas-diferenciais-de-cultivo/milho-para-silagem. Acessado em 27 de maio de 2025.

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Material escrito por:

Paulo Henrique

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Zootecnista

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vinicius.hora@ufv.br
VINICIUS.HORA@UFV.BR

VIÇOSA - MINAS GERAIS - ESTUDANTE

EM 04/07/2025

Excelente!
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