E se o queijo não precisasse estar necessariamente à mesa?
Foi a partir dessa pergunta — ainda que não formulada dessa maneira — que Scala e +Mu aproximaram duas marcas com trajetórias e posicionamentos diferentes para desenvolver um novo formato de consumo para um produto tradicional. A parceria transformou o parmesão em um snack salgado com 13 g de proteína e 134 kcal por porção, levando o queijo para momentos como o trabalho, o pós-treino e os lanches entre refeições.
Para Maria Cerchi, diretora administrativa da Scala e palestrante do Dairy Vision 2026, a aproximação entre as marcas nasceu menos da diferença entre elas e mais da complementaridade. De um lado, a Scala reúne mais de seis décadas de história na produção de queijos e uma forte associação com qualidade e naturalidade. Do outro, a +Mu está próxima de consumidores que buscam proteína, praticidade e saudabilidade.
A oportunidade apareceu ao observar um mercado de snacks proteicos ainda bastante concentrado em alternativas doces. O parmesão, naturalmente rico em proteína, oferecia uma possibilidade de ocupar esse espaço a partir de um alimento que o consumidor já conhece. “A inovação, nesse caso, não está em descaracterizar o queijo, mas em reinterpretar um alimento tradicional para uma nova necessidade de consumo”, explica Maria.
Do queijo à bolsa
A mudança parece simples, mas representa uma alteração importante na ocasião de consumo. Tradicionalmente associado à mesa, à culinária e a momentos de refeição, o parmesão passa a ser pensado também como um produto para acompanhar a rotina.
Na prática, o consumidor pode levar o snack na bolsa, consumir durante o trabalho, no pós-treino ou entre refeições. É uma forma de colocar o queijo em territórios que, até pouco tempo atrás, eram mais associados a outras categorias de alimentos. “Talvez a maior oportunidade não esteja em criar mais uma forma de consumir lácteos dentro das ocasiões que já conhecemos, mas em disputar ocasiões que hoje nem sequer consideramos como lácteas”, afirma Maria.
É justamente nesse ponto que a executiva identifica uma oportunidade mais ampla para a indústria. Proteína, conveniência, bem-estar, alimentação funcional e snacks são territórios nos quais os lácteos já possuem atributos competitivos, sem necessariamente depender da inclusão de novos ingredientes para construí-los.
O parmesão é um exemplo disso. Em vez de adicionar componentes para transformar o produto em uma opção funcional, a parceria parte de uma característica que já está presente no alimento: seu conteúdo proteico. “Conseguimos entregar 13 g de proteína em 134 kcal com um único ingrediente: queijo parmesão Scala”, destaca.
A inovação que nasce do próprio lácteo
A estratégia também representa uma mudança de olhar sobre inovação. Para Maria, existe uma oportunidade de explorar melhor atributos nutricionais que os próprios lácteos já carregam, em vez de pensar sempre em funcionalidade como algo que precisa ser incorporado ao produto. Nesse sentido, o desenvolvimento do snack não busca transformar o parmesão em outra coisa. A proposta é preservar sua essência e, ao mesmo tempo, adaptá-lo a uma necessidade contemporânea.
Essa lógica ganha relevância em um mercado no qual consumidores transitam por diferentes necessidades ao longo do dia: querem praticidade, mas também qualidade nutricional; buscam produtos convenientes, mas não necessariamente querem abrir mão de sabor e identidade.
A parceria entre Scala e +Mu mostra, assim, como uma categoria tradicional pode encontrar novos espaços sem precisar abandonar aquilo que a torna reconhecível.
O que uma collab pode ensinar às marcas
A aproximação também trouxe aprendizados para as duas empresas. Segundo Maria, a +Mu tem uma capacidade importante de identificar tendências e transformá-las rapidamente em produtos e linguagens próximas do consumidor. Para uma empresa com mais de 60 anos de trajetória, essa troca representa uma oportunidade de incorporar novas perspectivas e ganhar agilidade na leitura de tendências e ocasiões de consumo.
A Scala, por sua vez, acrescenta à parceria o conhecimento acumulado sobre queijo, qualidade e desenvolvimento de produtos. É essa combinação de competências que, na avaliação da executiva, diferencia uma colaboração estratégica de uma ação pontual de marketing. “Cada empresa traz uma competência que seria difícil reproduzir sozinha”, afirma.
A lógica também ajuda a explicar por que as collabs podem ganhar espaço na indústria de alimentos. Quando duas marcas se aproximam para resolver uma necessidade específica do consumidor, a parceria deixa de ser apenas uma ferramenta de comunicação e passa a funcionar como instrumento de inovação e acesso a novos mercados.
Tirar o lácteo da “caixinha”
Para Maria, essa mudança de perspectiva pode ser especialmente relevante para a indústria láctea. Em vez de pensar apenas em como aumentar o consumo dentro das categorias já estabelecidas, o setor pode buscar ocasiões em que o lácteo ainda não é percebido como uma escolha natural.
O desafio, portanto, não seria apenas criar novos produtos, mas identificar quais necessidades do consumidor os lácteos podem resolver melhor do que outras alternativas. “É essa mudança de perspectiva que pode, de fato, ampliar o consumo da categoria”, avalia.
A estratégia encontra respaldo na própria estrutura do Grupo Scala, empresa que reúne um portfólio que vai muito além da tradicional mussarela, incluindo parmesão, provolone, gouda, mofo azul, minas padrão, colonial, meia cura, coalho, prato, requeijão, cream cheese, manteiga e fondue, além da linha de recheios doces forneáveis Dolci Creme.
O grupo também vem ampliando sua presença industrial. São quatro fábricas do Laticínio Scala — três em Sacramento (MG) e uma em Salitre de Minas — e, mais recentemente, a aquisição do Laticínio Deale, no Rio Grande do Sul, que acrescentou duas plantas, em Almirante Tamandaré do Sul e Aratiba, além de um posto de resfriamento em Catuípe. Somadas, as operações têm capacidade para processar mais de 1,1 milhão de litros de leite por dia: mais de 700 mil litros no Scala e outros 400 mil litros no Deale. A estrutura inclui ainda a SCL Agro, voltada à nutrição animal, uma unidade armazenadora de grãos e um centro de distribuição.
Nesse contexto, a collab com a +Mu representa mais do que a criação de um novo SKU. É um exemplo de como uma empresa tradicional pode explorar novos territórios a partir de competências que já possui — e de como o futuro dos lácteos pode estar menos relacionado à criação de novas categorias e mais à capacidade de ocupar novos momentos da vida do consumidor.
Uma provocação para a indústria
É justamente essa discussão que Maria gostaria de levar aos executivos que estarão no Dairy Vision 2026. A provocação é olhar para além dos limites tradicionais da categoria e perguntar onde mais os lácteos podem estar presentes. Se proteína, conveniência, bem-estar, alimentação funcional e snacks já fazem parte das demandas do consumidor, existe espaço para que os produtos lácteos disputem esses territórios a partir de seus próprios atributos.
Mais do que criar “mais um jeito” de consumir queijo, a experiência da collab entre a Scala e a +Mu coloca uma questão maior para a indústria: quais ocasiões de consumo ainda não são vistas como oportunidades para os lácteos? É sobre essa transformação — e sobre os caminhos para agregar valor à categoria — que o Dairy Vision 2026 vai colocar a indústria em movimento.
Com o tema “O futuro em movimento — A hora de agregar valor aos lácteos”, o evento será realizado nos dias 27 e 28 de outubro, no Bourbon Resort Atibaia (SP), reunindo executivos e profissionais para uma imersão estratégica sobre os movimentos que estão moldando o futuro da indústria láctea.
Quer estar entre quem está pensando os próximos caminhos do setor? Faça sua inscrição para o Dairy Vision 2026.