"Como encurtar o tempo da inovação?": setor lácteo debate desafios regulatórios

A inovação na cadeia de lácteos depende não apenas do desenvolvimento de novos produtos e tecnologias, mas também de um ambiente regulatório claro, previsível e capaz de acompanhar a evolução do mercado.

Publicado em: - 5 minutos de leitura

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O painel do Dairy Vision 2026 abordou a inovação na cadeia de lácteos, destacando a necessidade de um ambiente regulatório claro e previsível. Participantes enfatizaram a importância de diálogo entre indústrias e reguladores, além de comprovações científicas para alegações nos rótulos. Desafios como a sanidade dos rebanhos e logística foram mencionados, assim como a relevância de cooperar entre os elos da cadeia. O consenso é que a inovação requer uma atuação coordenada entre setores, visando agilidade e segurança.
A inovação na cadeia de lácteos depende não apenas do desenvolvimento de novos produtos e tecnologias, mas também de um ambiente regulatório claro, previsível e capaz de acompanhar a evolução do mercado. Esse foi um dos principais pontos discutidos durante painel do Dairy Vision 2026, que reuniu representantes da indústria e do setor público para debater os desafios regulatórios e os caminhos para ampliar a competitividade do setor.

Participaram da discussão Fábio Ferreira, CEO e diretor-presidente da Verde Campo; Juliana Satie Becker de Carvalho Chino, diretora do Departamento de Inspeção de Produtos de Origem Animal; Guilherme Portella, diretor de Comunicação, ESG, Assuntos Regulatórios e Corporativos da Lactalis do Brasil; Marcelo Pereira de Carvalho, CEO da MilkPoint Ventures; Marcelo Costa Martins, diretor de Relações Institucionais e Governamentais da Piracanjuba; e Gustavo Beduschi, diretor de Relações Institucionais da Italac.

Figura 1

Ao abordar as características de um bom ambiente regulatório, os participantes destacaram a importância de regras claras, previsibilidade e diálogo antecipado entre empresas e órgãos reguladores. Para Marcelo Costa Martins, um dos desafios está na velocidade das transformações tecnológicas, que exige discussões cada vez mais embasadas em ciência e capacidade de antecipar as demandas futuras. Ele também apontou dificuldades decorrentes da existência de três instâncias de inspeção e registro, que nem sempre atuam de forma alinhada, reforçando a importância de uma agenda regulatória bem estruturada.

Gustavo Beduschi ressaltou que cabe às empresas apresentar suas demandas de maneira tecnicamente consistente, com referências bibliográficas e estudos nacionais e internacionais bem fundamentados. O objetivo, segundo ele, é oferecer segurança ao regulador quanto à ausência de riscos sanitários para o consumidor.

Na avaliação de Juliana, o debate regulatório também precisa considerar como garantir a segurança dos produtos sem criar barreiras desnecessárias à incorporação de novas tecnologias. Ela mencionou a ampliação das consultas públicas e a possibilidade de aproveitar evidências e experiências de outros países, inclusive para avaliar situações em que estudos adicionais possam ser dispensados, contribuindo para dar mais agilidade aos processos.

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Guilherme Portella observou que até mesmo inovações relativamente simples podem enfrentar entraves burocráticos no Brasil quando comparadas a outros mercados. Para ele, é necessário avaliar como os procedimentos regulatórios podem acompanhar o desenvolvimento de produtos e tecnologias sem comprometer os objetivos de segurança.

Alegações nos rótulos exigem comprovação científica

A comunicação dos benefícios dos produtos foi outro tema central do painel. Juliana destacou a rotulagem como uma das questões mais discutidas pelo setor, especialmente diante das dúvidas sobre o que pode ou não ser comunicado ao consumidor. Ela citou os processos relacionados ao leite A2 e à melatonina para ilustrar a complexidade da avaliação regulatória e a necessidade de comprovar tecnicamente os benefícios atribuídos aos produtos.

Gustavo reforçou que as informações não podem induzir o consumidor ao erro, sobretudo quando envolvem alegações sobre efeitos na saúde, como melhora do sono ou do desempenho cognitivo. Fábio Ferreira, por sua vez, defendeu que as mensagens destacadas nas embalagens sejam fundamentadas em ciência e, quando pertinente, submetidas à validação de uma terceira parte independente.

Para os participantes, o desafio é encontrar equilíbrio entre a possibilidade de comunicar diferenciais dos produtos e a garantia de que as informações sejam corretas, transparentes e sustentadas por evidências. Nesse contexto, a formação de profissionais capacitados e a aproximação entre indústria, universidades e órgãos reguladores foram apontadas como caminhos para qualificar as discussões e dar mais eficiência aos processos.

Fábio também chamou atenção para a qualidade do leite como um ponto que precisa avançar no país, destacando a importância de ampliar a pesquisa e compreender melhor o consumidor. Segundo ele, é necessário avaliar, ainda, se os parques fabris estão preparados para processar alimentos capazes de acompanhar as transformações nas preferências e nos hábitos de consumo.

Competitividade depende de avanços em toda a cadeia

Ao discutir os gargalos que vão além da regulação, os painelistas apontaram desafios relacionados à sanidade dos rebanhos, à qualidade da matéria-prima, à logística e à heterogeneidade da cadeia produtiva.

Juliana destacou a necessidade de avançar no status sanitário dos rebanhos brasileiros. Gustavo acrescentou que a composição dos sólidos do leite e as condições logísticas também interferem na competitividade e na capacidade de inovação. Segundo ele, as longas rotas de coleta podem afetar a qualidade da matéria-prima até sua chegada à indústria, tornando necessário olhar para o processo de forma integrada, do campo à plataforma de recepção.

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Guilherme apontou a heterogeneidade da cadeia como um dos principais desafios para o setor. Já Marcelo Costa Martins chamou atenção para o papel da renda da população na expansão do consumo de produtos de maior valor agregado. Em sua avaliação, o aumento da renda poderia ampliar o número de consumidores com condições de acessar alimentos diferenciados, criando oportunidades para a inovação.

A discussão também evidenciou a importância de identificar problemas comuns e fortalecer a cooperação entre os diferentes elos. Para Fábio, o setor lácteo precisa investir mais em pesquisa e aprofundar o conhecimento sobre o consumidor, enquanto Marcelo Pereira de Carvalho defendeu a necessidade de transformar os desafios compartilhados em provocações capazes de estimular avanços para toda a cadeia.

Figura 2

Diálogo antecipado pode reduzir entraves à inovação

Ao ser questionada sobre como a indústria láctea pode contribuir para aprimorar o ambiente regulatório, Juliana destacou a importância de apresentar estudos robustos e iniciar as conversas com os órgãos sanitários antes de concluir o desenvolvimento de um produto.

Segundo ela, quando as discussões começam apenas ao final do processo, questionamentos técnicos podem exigir revisões e atrasar a aprovação. A recomendação é antecipar o diálogo entre as equipes de pesquisa e desenvolvimento (P&D) e os reguladores, considerando desde o início os padrões internacionais e as exigências da regulamentação brasileira.

A proposta, conforme ressaltou Juliana, é contribuir para o desenvolvimento do país, dar mais agilidade aos processos, reduzir burocracias e fomentar melhorias no setor, sem abrir mão da segurança dos alimentos.

Na rodada final, os participantes apontaram prioridades para os próximos cinco anos. Fábio defendeu a redução do tempo entre o desenvolvimento, os testes e a comprovação científica de uma inovação e sua chegada ao consumidor, mantendo a responsabilidade na comunicação dos benefícios.

Gustavo destacou a necessidade de melhorar o diálogo com os reguladores, desenvolver embalagens que não induzam o consumidor ao erro e ampliar a renda para favorecer o consumo. Marcelo Costa Martins defendeu que o setor seja reconhecido não apenas pelo volume produzido, mas também pela capacidade de avançar em inovação tecnológica, ciência, clareza e transparência.

Guilherme, por sua vez, ressaltou a importância de uma fiscalização mais uniforme entre as esferas federal, estadual e municipal. Ele também defendeu uma visão mais abrangente da inovação, que contemple não apenas os produtos, mas as relações ao longo da cadeia, incluindo iniciativas que contribuam para a evolução dos produtores de leite.

O debate convergiu para um ponto: acelerar a inovação no setor lácteo exige atuação coordenada entre indústria, pesquisa e poder público. A combinação de evidências científicas, diálogo antecipado, maior alinhamento regulatório e avanços estruturais na cadeia pode contribuir para reduzir entraves e ampliar a competitividade, preservando a segurança e a confiança do consumidor.

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Material escrito por:

Raquel Maria Cury Rodrigues

Raquel Maria Cury Rodrigues

Head do MilkPoint e Zootecnista pela UNESP de Botucatu

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