Essa foi uma das principais mensagens do painel “Estratégia e liderança”, que abriu o Dairy Vision 2026, realizado nos dias 27 e 28 de outubro, no Bourbon Resort, em Atibaia (SP). Conduzido por Marcelo Pereira de Carvalho, CEO da MilkPoint Ventures, o debate reuniu Bruno Girão, CEO da Alvoar Lácteos; Fernando Menocci, CEO da Ipanema Lácteos; Marcelino Bellardt, CEO da Nater Coop; Carlos Mafia, CEO e diretor-presidente do Laticínios Porto Alegre; e Marcel Barros, CEO da Tirolez.
Na abertura do evento, Carvalho destacou as novidades desta edição, que inclui o prêmio Dairy Vision Awards e a integração com o Fórum MilkPoint Mercado, dedicado a análises de preços, riscos e cenários. Sob o tema “O futuro em movimento – a hora de agregar valor aos lácteos”, a proposta é ampliar as articulações para que o Brasil avance rumo à elite da produção leiteira mundial. “Acreditamos que temos tudo para chegar lá”, afirmou.
Da esquerda para a direita: Fernando, Marcelino, Bruno, Marcelo, Marcel e Carlos. Fonte: MilkPoint Ventures.
Consumo, inovação e competitividade
O otimismo predominou entre os executivos. Para Bruno Girão, o setor está mais amadurecido e encontra oportunidades na valorização das proteínas, no envelhecimento da população e no desenvolvimento de produtos competitivos. Se, há alguns anos, as bebidas vegetais preocupavam a indústria, hoje a diversificação das aplicações das proteínas lácteas abre novas e inúmeras possibilidades. “O leite, que era o patinho feio do agro brasileiro, está mostrando total capacidade de ser uma das atividades mais relevantes do cenário agro brasileiro”, avaliou Girão, destacando a evolução da inovação nas gôndolas.
Fernando Menocci também vê espaço para crescer. Segundo ele, o tamanho da população brasileira e as carências de consumo favorecem a expansão dos lácteos, especialmente à medida que a renda aumenta e os produtos ganham espaço no carrinho das famílias. O executivo acrescentou que uma eventual redução dos gastos com apostas esportivas (bets) poderia liberar recursos para o consumo doméstico. Marcelino Bellardt destacou, por sua vez, as oportunidades para laticínios regionais, desde que mantenham um mix de produtos capaz de assegurar margens rentáveis.
Para aproveitar esse potencial, porém, o setor precisa avançar em diferentes frentes. Carlos Mafia defendeu a profissionalização da produção e da indústria, além de resiliência, informações de qualidade e eficiência da porteira para dentro até as operações comerciais. Marcel Barros enfatizou a necessidade de inovar também na comunicação, educando os consumidores sobre os benefícios dos lácteos e as possibilidades de consumo dos queijos. Para ele, a cadeia precisa compreender melhor com quais outras fontes de proteína compete e como ampliar sua competitividade.
Girão apontou a logística e a prestação de serviços como oportunidades importantes, com espaço para reduzir perdas de leite e melhorar a qualidade da matéria-prima.
Carvalho acrescentou um alerta sobre os Estados Unidos. Segundo ele, o país ganhou competitividade nos últimos cinco anos, impulsionado, entre outros fatores, pelo avanço genético e pelo maior teor de sólidos do leite. Para o CEO da MilkPoint Ventures, o Brasil precisa analisar estruturalmente essa evolução e identificar o que deixou de fazer para acompanhar o movimento.
Outro ponto discutido foi o desenvolvimento do mercado futuro do leite. Girão defendeu a evolução desse instrumento, enquanto Barros destacou a dificuldade de encontrar agentes dispostos a assumir riscos e a necessidade de maior liquidez. Carvalho ponderou que o setor também precisa superar uma visão limitada ao oportunismo e amadurecer sua atuação nesse mercado.
Os riscos que preocupam os CEOs
Apesar das perspectivas positivas, a concentração de clientes, as margens apertadas, o capital de giro e a disponibilidade de matéria-prima estão entre os principais pontos de atenção.
Girão demonstrou preocupação com a consolidação dos clientes, a concentração de marcas fortes e as limitações de capital de giro. Na sua avaliação, o avanço das marcas próprias deve representar um próximo movimento importante do mercado.
Bellardt também destacou o impacto da concentração de clientes sobre as margens, além da dificuldade de ampliar a oferta de leite no Espírito Santo. Segundo ele, a produção no estado vem enfrentando dificuldades e, em alguns casos, recuando, enquanto produtores migram para atividades como o café, consideradas alternativas na comparação de rentabilidade.
Mafia apontou os juros elevados e a necessidade de administrar o capital de giro como desafios para financiar novos investimentos. Já Menocci chamou atenção para a saúde financeira do varejo diante do custo do crédito.
As mudanças no comportamento do consumidor também estiveram no centro das preocupações. Para Barros, elas representam simultaneamente risco e oportunidade: as empresas precisam antecipar as expectativas em relação às marcas, inovar e adaptar-se continuamente. Mafia, por sua vez, vê nessas mudanças uma oportunidade para valorizar a riqueza nutricional do leite e ampliar seu consumo.
Os executivos também defenderam a continuidade da profissionalização e reconheceram espaço para os laticínios regionais. Menocci ressaltou a força de empresas médias e de nicho, enquanto Mafia destacou as vantagens logísticas e a menor complexidade de determinadas operações regionais. Para Carvalho, a profissionalização permite que essas empresas disputem o mercado em novas condições.
Aquisições, dados e inteligência artificial
As decisões recentes das empresas mostram como as estratégias para enfrentar esse cenário passam tanto pela expansão dos negócios quanto pelo aprimoramento da gestão.
Barros destacou as aquisições da Levitare e da Regina pela Tirolez, além da entrada no mercado de soro em pó, mantendo o foco no negócio principal. Mafia lembrou a compra da Verde Campo, há dois anos, como um movimento importante para ampliar a atuação do Laticínios Porto Alegre com uma marca premium de distribuição nacional. A empresa pretende continuar crescendo e ampliando seu mix.
Menocci mencionou a aquisição da queijaria Serra das Antas pela Ipanema Lácteos e reforçou a busca por margens melhores, concentrando esforços nos segmentos em que a companhia consegue competir.
Na Nater Coop, Bellardt relatou um ano dedicado ao aprimoramento da gestão, com novos rituais, uso de dados e incorporação da inteligência artificial. Entre os resultados buscados estão a redução de rupturas no varejo e nos processos internos, a melhor compreensão dos cortes de pedidos e a antecipação de problemas. Os investimentos envolvem tecnologia, gestão e pessoas.
Girão também destacou o avanço da equipe de pricing da Alvoar Lácteos, que passou a trabalhar com maior assertividade e apoio de dados para avaliar a rentabilidade das vendas. Segundo ele, reconhecer que nem toda venda gera lucro exige coragem para tomar decisões difíceis.
A inteligência artificial, aliás, deve ganhar ainda mais espaço nos próximos anos. Barros considera que o setor ainda está aprendendo a incorporar a tecnologia, mas acredita que ela transformará os negócios. Menocci também vê a IA mudando a maneira como as empresas trabalham e aponta como desafio preparar profissionais capazes de conduzir sua aplicação.
Bellardt defendeu investimentos em gestão apoiada por IA e a criação de uma governança que permita acelerar decisões e compreender melhor os clientes. Mafia concordou que as empresas precisarão estruturar equipes para transformar a tecnologia em ganhos efetivos de eficiência.
Mais colaboração para o futuro dos lácteos
Ao projetarem os próximos cinco anos, os executivos destacaram a importância das pessoas, da adaptação e de novas formas de colaboração entre empresas. Barros ressaltou a necessidade de formar equipes preparadas para responder às mudanças do mercado. Girão defendeu maior cooperação entre os agentes da cadeia, com possibilidades de compartilhamento de marcas, serviços e estruturas de distribuição logística. Para ele, há espaço para iniciativas conjuntas que reduzam custos e ampliem a eficiência. Mafia também vê oportunidades no compartilhamento de operações entre laticínios, além da valorização dos atributos nutricionais dos produtos e da incorporação da IA aos negócios.
A mensagem do painel foi a de que o setor lácteo brasileiro reúne oportunidades de crescimento, mas precisa transformar esse potencial em competitividade efetiva. Isso passa por melhorar a qualidade e a eficiência da produção, reduzir perdas, fortalecer a gestão, compreender o consumidor e preparar pessoas para novas tecnologias.
O desafio é fazer com que o leite deixe definitivamente a posição de “patinho feio” e conquiste o espaço que seus líderes acreditam que pode ocupar no agronegócio brasileiro.
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