Do "patinho feio" ao "ouro branco": o que falta para o leite brasileiro dar o próximo salto?

No Dairy Vision 2026, CEOs destacaram oportunidades de crescimento, mas apontaram desafios em competitividade, logística, rentabilidade e gestão para levar o setor a outro patamar.

Publicado em: - 6 minutos de leitura

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O painel "Estratégia e liderança" do Dairy Vision 2026 destacou que o leite pode se tornar uma atividade relevante no agronegócio brasileiro, mas precisa melhorar em competitividade, eficiência e inovação. Executivos do setor apontaram oportunidades no crescimento do consumo e na valorização das proteínas. Contudo, desafios como a concentração de clientes e margens apertadas foram mencionados. A importância da profissionalização e da adaptação às mudanças do mercado, incluindo o uso de inteligência artificial, foi enfatizada para transformar o potencial do setor.
O leite, antes visto como o “patinho feio” do agronegócio brasileiro, tem potencial para se tornar uma das atividades mais relevantes do setor. Mas, para transformar essa perspectiva em resultados, a cadeia precisa avançar em competitividade, eficiência operacional, inovação e capacidade de adaptação às mudanças do mercado. 

Essa foi uma das principais mensagens do painel “Estratégia e liderança”, que abriu o Dairy Vision 2026, realizado nos dias 27 e 28 de outubro, no Bourbon Resort, em Atibaia (SP). Conduzido por Marcelo Pereira de Carvalho, CEO da MilkPoint Ventures, o debate reuniu Bruno Girão, CEO da Alvoar Lácteos; Fernando Menocci, CEO da Ipanema Lácteos; Marcelino Bellardt, CEO da Nater Coop; Carlos Mafia, CEO e diretor-presidente do Laticínios Porto Alegre; e Marcel Barros, CEO da Tirolez.

Na abertura do evento, Carvalho destacou as novidades desta edição, que inclui o prêmio Dairy Vision Awards e a integração com o Fórum MilkPoint Mercado, dedicado a análises de preços, riscos e cenários. Sob o tema “O futuro em movimento – a hora de agregar valor aos lácteos”, a proposta é ampliar as articulações para que o Brasil avance rumo à elite da produção leiteira mundial. “Acreditamos que temos tudo para chegar lá”, afirmou.

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Da esquerda para a direita: Fernando, Marcelino, Bruno, Marcelo, Marcel e Carlos.  Fonte: MilkPoint Ventures. 

Consumo, inovação e competitividade

O otimismo predominou entre os executivos. Para Bruno Girão, o setor está mais amadurecido e encontra oportunidades na valorização das proteínas, no envelhecimento da população e no desenvolvimento de produtos competitivos. Se, há alguns anos, as bebidas vegetais preocupavam a indústria, hoje a diversificação das aplicações das proteínas lácteas abre novas e inúmeras possibilidades. “O leite, que era o patinho feio do agro brasileiro, está mostrando total capacidade de ser uma das atividades mais relevantes do cenário agro brasileiro”, avaliou Girão, destacando a evolução da inovação nas gôndolas.

Fernando Menocci também vê espaço para crescer. Segundo ele, o tamanho da população brasileira e as carências de consumo favorecem a expansão dos lácteos, especialmente à medida que a renda aumenta e os produtos ganham espaço no carrinho das famílias. O executivo acrescentou que uma eventual redução dos gastos com apostas esportivas (bets) poderia liberar recursos para o consumo doméstico. Marcelino Bellardt destacou, por sua vez, as oportunidades para laticínios regionais, desde que mantenham um mix de produtos capaz de assegurar margens rentáveis.

Para aproveitar esse potencial, porém, o setor precisa avançar em diferentes frentes. Carlos Mafia defendeu a profissionalização da produção e da indústria, além de resiliência, informações de qualidade e eficiência da porteira para dentro até as operações comerciais. Marcel Barros enfatizou a necessidade de inovar também na comunicação, educando os consumidores sobre os benefícios dos lácteos e as possibilidades de consumo dos queijos. Para ele, a cadeia precisa compreender melhor com quais outras fontes de proteína compete e como ampliar sua competitividade.

Girão apontou a logística e a prestação de serviços como oportunidades importantes, com espaço para reduzir perdas de leite e melhorar a qualidade da matéria-prima.

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Carvalho acrescentou um alerta sobre os Estados Unidos. Segundo ele, o país ganhou competitividade nos últimos cinco anos, impulsionado, entre outros fatores, pelo avanço genético e pelo maior teor de sólidos do leite. Para o CEO da MilkPoint Ventures, o Brasil precisa analisar estruturalmente essa evolução e identificar o que deixou de fazer para acompanhar o movimento.

Outro ponto discutido foi o desenvolvimento do mercado futuro do leite. Girão defendeu a evolução desse instrumento, enquanto Barros destacou a dificuldade de encontrar agentes dispostos a assumir riscos e a necessidade de maior liquidez. Carvalho ponderou que o setor também precisa superar uma visão limitada ao oportunismo e amadurecer sua atuação nesse mercado.

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Os riscos que preocupam os CEOs

Apesar das perspectivas positivas, a concentração de clientes, as margens apertadas, o capital de giro e a disponibilidade de matéria-prima estão entre os principais pontos de atenção.

Girão demonstrou preocupação com a consolidação dos clientes, a concentração de marcas fortes e as limitações de capital de giro. Na sua avaliação, o avanço das marcas próprias deve representar um próximo movimento importante do mercado.

Bellardt também destacou o impacto da concentração de clientes sobre as margens, além da dificuldade de ampliar a oferta de leite no Espírito Santo. Segundo ele, a produção no estado vem enfrentando dificuldades e, em alguns casos, recuando, enquanto produtores migram para atividades como o café, consideradas alternativas na comparação de rentabilidade.

Mafia apontou os juros elevados e a necessidade de administrar o capital de giro como desafios para financiar novos investimentos. Já Menocci chamou atenção para a saúde financeira do varejo diante do custo do crédito.

As mudanças no comportamento do consumidor também estiveram no centro das preocupações. Para Barros, elas representam simultaneamente risco e oportunidade: as empresas precisam antecipar as expectativas em relação às marcas, inovar e adaptar-se continuamente. Mafia, por sua vez, vê nessas mudanças uma oportunidade para valorizar a riqueza nutricional do leite e ampliar seu consumo.

Os executivos também defenderam a continuidade da profissionalização e reconheceram espaço para os laticínios regionais. Menocci ressaltou a força de empresas médias e de nicho, enquanto Mafia destacou as vantagens logísticas e a menor complexidade de determinadas operações regionais. Para Carvalho, a profissionalização permite que essas empresas disputem o mercado em novas condições.

Aquisições, dados e inteligência artificial

As decisões recentes das empresas mostram como as estratégias para enfrentar esse cenário passam tanto pela expansão dos negócios quanto pelo aprimoramento da gestão.

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Barros destacou as aquisições da Levitare e da Regina pela Tirolez, além da entrada no mercado de soro em pó, mantendo o foco no negócio principal. Mafia lembrou a compra da Verde Campo, há dois anos, como um movimento importante para ampliar a atuação do Laticínios Porto Alegre com uma marca premium de distribuição nacional. A empresa pretende continuar crescendo e ampliando seu mix.

Menocci mencionou a aquisição da queijaria Serra das Antas pela Ipanema Lácteos e reforçou a busca por margens melhores, concentrando esforços nos segmentos em que a companhia consegue competir.

Na Nater Coop, Bellardt relatou um ano dedicado ao aprimoramento da gestão, com novos rituais, uso de dados e incorporação da inteligência artificial. Entre os resultados buscados estão a redução de rupturas no varejo e nos processos internos, a melhor compreensão dos cortes de pedidos e a antecipação de problemas. Os investimentos envolvem tecnologia, gestão e pessoas.

Girão também destacou o avanço da equipe de pricing da Alvoar Lácteos, que passou a trabalhar com maior assertividade e apoio de dados para avaliar a rentabilidade das vendas. Segundo ele, reconhecer que nem toda venda gera lucro exige coragem para tomar decisões difíceis.

A inteligência artificial, aliás, deve ganhar ainda mais espaço nos próximos anos. Barros considera que o setor ainda está aprendendo a incorporar a tecnologia, mas acredita que ela transformará os negócios. Menocci também vê a IA mudando a maneira como as empresas trabalham e aponta como desafio preparar profissionais capazes de conduzir sua aplicação.

Bellardt defendeu investimentos em gestão apoiada por IA e a criação de uma governança que permita acelerar decisões e compreender melhor os clientes. Mafia concordou que as empresas precisarão estruturar equipes para transformar a tecnologia em ganhos efetivos de eficiência.

Mais colaboração para o futuro dos lácteos

Ao projetarem os próximos cinco anos, os executivos destacaram a importância das pessoas, da adaptação e de novas formas de colaboração entre empresas. Barros ressaltou a necessidade de formar equipes preparadas para responder às mudanças do mercado. Girão defendeu maior cooperação entre os agentes da cadeia, com possibilidades de compartilhamento de marcas, serviços e estruturas de distribuição logística. Para ele, há espaço para iniciativas conjuntas que reduzam custos e ampliem a eficiência. Mafia também vê oportunidades no compartilhamento de operações entre laticínios, além da valorização dos atributos nutricionais dos produtos e da incorporação da IA aos negócios. 

A mensagem do painel foi a de que o setor lácteo brasileiro reúne oportunidades de crescimento, mas precisa transformar esse potencial em competitividade efetiva. Isso passa por melhorar a qualidade e a eficiência da produção, reduzir perdas, fortalecer a gestão, compreender o consumidor e preparar pessoas para novas tecnologias. 

O desafio é fazer com que o leite deixe definitivamente a posição de “patinho feio” e conquiste o espaço que seus líderes acreditam que pode ocupar no agronegócio brasileiro.

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Material escrito por:

Raquel Maria Cury Rodrigues

Raquel Maria Cury Rodrigues

Head do MilkPoint e Zootecnista pela UNESP de Botucatu

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