Os Sistemas de Ordenha Automática (SOA), também conhecidos como sistemas de ordenha robótica, registraram grande expansão nas últimas décadas em países da Europa, no Canadá, nos EUA e, mais recentemente, no Brasil. As novas instalações de SOA geralmente resultam da conversão de sistemas de ordenha convencional em sistemas robóticos, o que permite comparações e aprendizado dos resultados e indicadores antes e após a instalação.
Os primeiros SOA foram instalados na Holanda a partir de 1992. Desde então, a principal motivação para o desenvolvimento desse tipo de solução foi a necessidade de melhorar a eficiência da mão-de-obra, em razão dos crescentes custos e da dificuldade de obtenção de mão-de-obra na maioria dos países. Dentro de uma fazenda leiteira, a ordenha é responsável por cerca de 25% a 35% da demanda de mão-de-obra, além de envolver operações manuais e tarefas repetitivas. Com o uso de SOA, o trabalho manual é parcialmente substituído por tarefas de gestão e controle, além de permitir maior flexibilidade de horários para o produtor. Em conjunto, isso pode trazer benefícios como:
- redução da necessidade de mão-de-obra,
- maior qualidade de vida para as famílias dos produtores
- aumento da produção de leite em razão de maior frequência de ordenhas.
Como regra geral, cada unidade de ordenha atende a um grupo de 50 a 70 vacas em lactação, sendo que a eficiência ótima do sistema ocorre quando a unidade de ordenha está ocupada cerca de 80% do tempo.
No entanto, a transição para a ordenha automática altera muitos aspectos da gestão da fazenda, incluindo o tipo e a organização das novas tarefas. Por exemplo, todas as avaliações visuais que eram feitas manualmente durante a ordenha convencional (p. ex., detecção de mastite clínica) são substituídas, pelo menos em parte, por sistemas automáticos. Além disso, outras tarefas que dependem de alguma avaliação por parte do ordenhador, como as etapas de limpeza dos tetos e a separação do leite de vacas com mastite clínica, são integradas ao sistema automático, exigindo adaptações na rotina de ordenha.
Vale destacar que grande parte do sucesso da implantação dos SOA depende de um balanço entre as expectativas e a atitude do produtor ou responsável. Estima-se que cerca de 10% dos rebanhos retornem ao sistema de ordenha convencional após a instalação de um SOA, principalmente em razão de:
- expectativas não realistas,
- dificuldade de adaptação ao novo modelo de gestão,
- falta de suporte e de pessoas capacitadas para a solução de problemas,
- dificuldade em adaptar instalações antigas,
- características das vacas do rebanho e baixas respostas de produção.
Além disso, nem todas as vacas se adaptam ao SOA, principalmente por causa do formato do úbere e da posição dos tetos, o que dificulta a colocação das teteiras, ou pelo temperamento e pelo tamanho das vacas, que podem não se adaptar ao sistema voluntário de ordenha, uma vez que as vacas têm de aprender a locomover-se voluntariamente, necessitando de ajuda durante a etapa de transição.
Em relação à saúde do úbere, é comum observar uma piora dos indicadores após a transição para o SOA. Essa piora depende da situação da fazenda antes da conversão para o SOA. Por exemplo, recomenda-se que, antes da transição, a fazenda apresente excelente controle da mastite, com histórico de baixa contagem de células somáticas (CCS) no tanque e controle de mastite contagiosa. Mesmo nessa situação de bom controle da mastite, estudos indicam que rebanhos com SOA tendem a apresentar indicadores de saúde do úbere piores do que rebanhos com ordenha convencional. Portanto, ao optar por ordenhar vacas em SOA, os produtores devem estar cientes de algumas limitações de desempenho para evitar expectativas não realistas e controlar os riscos específicos à saúde do úbere associados ao SOA.
Vale a pena conhecer os principais fatores que aumentam o risco de mastite na implantação de SOA, entre os quais destacam-se:
Frequência e intervalo de ordenha
Nos SOA são as vacas que definem a frequência de ordenha, sendo que os intervalos variam significativamente entre os animais, dependendo da produção e do estágio de lactação; a tendência geral é de ordenhas mais frequentes com intervalos mais curtos. Os resultados dos estudos não são conclusivos quanto ao efeito do aumento da frequência de ordenha, pois podem ocorrer benefícios e problemas.
Entre os benefícios da maior frequência, destacam-se a melhoria da higiene dos tetos, menor pressão intramamária e menor probabilidade de colonização bacteriana; as potenciais consequências negativas incluem períodos mais longos de abertura do canal do teto e maior risco de lesões nas extremidades dos tetos.
Infraestrutura
O design das instalações e os possíveis impactos sobre o manejo do fluxo dos animais, manejo de dejetos, limpeza das camas, manejo e local de alimentação e de ordenha influenciam diretamente a saúde do úbere nos SOA.
Existem vários tipos de instalações para rebanhos com ordenha em SOA (tráfego livre, tráfego forçado, tráfego guiado), os quais exigem layouts distintos de cochos, camas e portões, o que pode apresentar dificuldades e limitações para o fluxo das vacas, para as interações entre elas, para o manejo de dejetos e para o uso de pedilúvios. Nas novas construções, o desenho pode ser escolhido para otimizar o desempenho da instalação por meio de um layout personalizado. No entanto, ao converter instalações existentes para a implantação de SOA, pode ser difícil otimizar o fluxo de vacas, reduzir interações sociais negativas e manejar dejetos de modo a minimizar a exposição das vacas aos riscos de novos casos de mastite.
Higiene dos tetos
Os resultados de estudos indicam que a eficácia da limpeza dos tetos antes da ordenha é um dos pontos críticos para garantir uma ótima rotina de ordenha nos SOA. Existem variações do sistemas de limpeza e desinfecção dos tetos, de acordo com o modelo/marca dos SOA. Os dois principais sistemas de limpeza dos tetos na pré-ordenha utilizam escovas rotativas ou "limpeza simultânea com o mesmo copo da ordenha" Há pouca pesquisa que demonstre benefícios de um tipo de limpeza sobre o outro. Falhas na limpeza podem ocorrer devido ao formato irregular do úbere e localização dos tetos (no caso das escovas), especialmente em rebanhos com grande variação na altura do úbere, pois a escova pode não atingir toda a área de contato dos tetos com as teteiras.
A limpeza por copo, por sua vez, tem riscos de chutes de vacas mais inquietas. Mesmo quando a limpeza pré-ordenha é realizada corretamente, as condições de limpeza das instalações e dos tetos antes das ordenhas podem causar maior dificuldade de redução da carga bacteriana dos tetos. Isso ocorre porque os atuais métodos disponíveis são padronizados, sem a capacidade de variar o protocolo de limpeza de acordo com as condicoes de limpeza dos tetos.
A desinfecção pós-ordenha pode ser realizada por imersão ou aplicação por spray. A eficácia do spray é frequentemente baixa, exigindo monitoramento e ajuste fino do posicionamento do braço do spray, volume e duração para garantir uma cobertura adequada da pele. A imersão ainda é o método mais confiável de desinfecção pós-ordenha dos tetos, mas há uma escassez de dados científicos sobre esse tema.
Condições de Ordenha
A interação entre a máquina e a vaca em SOA tende a ser altamente padronizado em cada ordenha, pois se as etapas forem executadas corretamente, o processo de ordenha é confortável e gentil para vacas. Isso significa que as configurações de vácuo, fases de pulsação, controle de extrator automático e opções de teteiras são bem definidas e podem ser ajustadas paras as condições do rebanho. Além disso, a ordenha por quarto permite a extração das teteiras por quarto individual, de acordo com o fluxo de leite por quarto, ajudando a reduzir a ocorrência da sobre-ordenha e de contaminação cruzada entre os quartos.
O uso de teteiras de silicone é mais comum nos SOA devido à maior vida útil em comparação com a borracha, o que geralmente contribui para menor risco de hiperqueratose na ponta dos tetos. Por outro lado, um dos riscos do uso de SOA é a maior chance de algumas vacas não serem ordenhadas de forma adequada, tanto no nível do úbere ou do quarto. Ordenhas perdidas causam aumento de desconforto e maior risco de vazamento de leite enquanto as vacas estão deitadas, o que aumento o risco de mastite clínica.
Detecção e Tratamento da Mastite de clínica
- Detecção de Mastite: A detecção de mastite clínica tem sido um dos principais desafios no desenvolvimento dos SOA. Os sistemas de detecção atuais utilizam de forma combinada algumas características como colorimetria, condutividade elétrica, temperatura e contagem de células somáticas (CCS) de várias frações de leite durante a ordenha. Esses dados dos sensores são analisados separadamente ou em combinação e processados por meio de vários algoritmos para gerar lista de alertas das vacas para avaliação manual pelo o responsável da fazenda e para desviar automaticamente o leite do quarto com mastite clínica, evitando o envio para o tanque.
Valores de sensibilidade de deteção de mastite clínica relativamente baixos são tolerados considerando que, com maiores frequências de ordenha, o quarto afetado tem repetidas chances de ser detectado na próximas ordenhas. Essas sensibilidades mais baixas permitem maior especificidade, que é uma característica importante do teste para evitar muitos resultados falso-positivos, que podem causar aumento de atividades e checagem para a equipe da fazenda.
Como resultado da detecção inadequada pelo SOA, a mastite clínica é frequentemente sub ou super detectada. Esses cenários podem levar ao insucesso do tratamento, uso inadequado de medicamentos e à geração de indicadores imprecisos de mastite, e assim, podem resultar em decisões equivocadas no rebanho. Além da detecção da mastite clínica, os SOA não foram projetados para facilidade de acesso das pessoas aos tetos, o que dificulta a coleta de amostras para cultura microbiológica.
- Protocolos de Tratamento: Os protocolos de tratamento estabelecidos para tratamento de mastite clínica nos sistemas convencionais predominantemente utilizam as protocolos de tratamento intramamário. A pesquisa e o desenvolvimento desses tratamentos intramamários foram baseados em vacas ordenhadas duas vezes ao dia em intervalos regulares.
Há comparativamente poucos dados sobre a farmacocinética desses produtos em vacas que são ordenhadas de três a cinco vezes por dia – um cenário não incomum em SOA. Essa escassez de dados, particularmente em relação aos períodos de carência do leite, é provavelmente um fator que contribuiu para maior uso protocolos antimicrobianos injetáveis no tratamento da mastite.
Conclusão
Os sistemas de ordenha automática trouxeram avanços significativos para a produção leiteira, especialmente em termos de redução da demanda de mão de obra e flexibilidade para o produtor. No entanto, a transição e a operação contínua do SOA apresentam desafios específicos para a saúde do úbere e a qualidade do leite.
O sucesso na adoção e operação do SOA depende em grande parte das capacidade de gestão do produtor, do layout adequado das instalações e das condições atuais de controle de mastite da fazenda. Os sistemas de ordenha automática apresentam alguns riscos específicos de mastite, o que pode levar a piora da saúde do úbere em comparação aos fatores de risco gerais encontrados nos sistemas convencionais.
Embora inerentes ao sistema, esses desafios não inviabilizam o controle da mastite em SOA. É de se esperar que um bom controle da saúde do úbere demande maior atenção nos SOA do que em CMS, mas isso não deve ser usado como justificativa para falta de controle de mastite em SOA. A identificação dos fatores de risco em cada fazenda com SOA permite intervenções específicas para atingir indicadores em níveis aceitáveis para a saúde e bem-estar das vacas e a lucratividade do negócio.
Referências bibliográficas
Penry, John F. "Mastitis control in automatic milking systems." Veterinary Clinics: Food Animal Practice 34.3 (2018): 439-456. Greenham, Tom. "Mastitis control in automatic milking systems." (2020): 33-40.