A mastite bovina é uma das principais enfermidades que acometem rebanhos leiteiros em todo o mundo, impactando de forma negativa a produção, a qualidade do leite e o rendimento industrial de derivados lácteos. A detecção precoce da mastite é um ponto-chave para o controle da doença dentro do rebanho. Tradicionalmente, essa identificação é realizada por meio de métodos simples, como o California Mastitis Test (CMT) e o teste da caneca de fundo preto.
Entretanto, em sistemas mais sofisticados, como a ordenha robotizada (SOR), integram-se recursos tecnológicos adicionais que ampliam a eficiência no monitoramento da saúde do úbere. Entre esses recursos, destacam-se os sensores automáticos de detecção precoce da mastite. Esses sensores, que operam de forma autônoma, sem a necessidade de intervenção humana direta, representam um avanço significativo para a manutenção da qualidade do leite e para o fortalecimento das estratégias de manejo da mastite. A seguir, serão apresentados dois tipos de sensores que podem ser uma alternativa para a detecção precoce de mastite em rebanhos leiteiros.
Condutividade elétrica (CE)
A condutividade elétrica (CE) é um dos primeiros sensores ligados ao sistema automatizado, e os primeiros estudos sobre esse tipo de monitoramento começaram por volta da década de 1940 (Davis, 1947). A principal função da CE é mensurar, de forma indireta, alterações que podem ocorrer no leite e que, em algum momento, vão se apresentar em forma de inflamação no úbere do animal. Basicamente, a CE é uma forma de medir a capacidade de uma solução de conduzir uma corrente elétrica através de dois eletrodos e essa medida é feita por Milisiemens (mS).
Quando uma infecção bacteriana se instala, o sistema imunológico da vaca responde com um processo inflamatório que danifica os tecidos delicados do úbere. Essa "quebra" na barreira permite que íons de Na+, K+ e Cl (Norberg, 2005), abundantes no sangue e nos fluidos corporais, vazem para dentro do leite. O resultado é um leite com maior concentração de sais, o que aumenta sua capacidade de conduzir eletricidade, elevando o valor da CE.
- CE normal do leite varia de 4,0 a 5,0 (mS/cm),
- CE >5,0 (mS/cm) é um indicativo que o animal está com início de mastite subclínica,
- CE >7,0 (mS/cm) os sinais já se apresentam de forma clínica.
Diversos fatores que podem interferir na condutividade do leite devem ser levados em consideração, sendo eles: a concentração de cargas de íons, a interação entre esses íons, os tipos de eletrólitos presentes e os componentes que influenciam na viscosidade do leite. Existem os fatores fisiológicos e individuais, que definem a linha de base de cada animal. O estágio de lactação é um dos mais importantes: o leite do início (colostro) e do final da lactação é naturalmente mais rico em íons e, portanto, apresenta uma CE mais alta. O período de maior estabilidade para monitoramento é o terço médio da lactação. Da mesma forma, vacas mais velhas (com mais partos) e certas raças podem apresentar uma CE basal ligeiramente mais elevada.
Além disso, os fatores de manejo e ambientais também desempenham papel crucial. A consistência no intervalo entre as ordenhas é fundamental, pois períodos muito longos podem alterar a concentração dos componentes do leite. O manejo durante a ordenha, incluindo o estresse do animal e a correta regulagem dos equipamentos, pode influenciar a saúde do úbere e, por consequência, a CE. Qualquer lesão que provoque a presença de sangue no leite, mesmo em pequenas quantidades, também aumentará drasticamente a leitura, devido à alta concentração de sais no sangue. Na prática, o produtor deve usar a tecnologia de CE não para comparar uma vaca com a outra, mas para monitorar cada vaca contra ela mesma. A chave é identificar variações e desvios súbitos da sua própria média histórica.
Em sistemas de ordenha robotizada, esse tipo de sensor já é implementado dentro do sistema operacional da ordenha, o que permite um monitoramento automatizado, constante e diário da incidência de mastite no rebanho, uma vez que a medição ocorre em todo o momento em que o animal passa a ser ordenhado pelo sistema, gerando alertas para casos de animais com parâmetros elevados de CE no leite, o que concede ao produtor um melhor controle de animais doentes dentro do rebanho (Santos, 2005).
Sensor de lactato desidrogenase (LDH)
A lactato desidrogenase (LDH) é uma enzima presente no organismo dos animais e que tem como função principal a transformação da glicose em energia de mantença do organismo. Quando esse bioindicador apresenta algum tipo de alteração, pode ser indicativo de alguma infecção presente, pois ocorre uma alteração no metabolismo do animal, que gera uma resposta inflamatória (Friggens et al., 2007). No caso da produção de leite, a resposta inflamatória é o início da mastite subclínica. O motivo é que o leite tem um volume muito alto e contém gordura e caseína, que acabam diluindo e até bloqueando a ação das células e moléculas de defesa do organismo.
Por isso, quando ocorre uma infecção, a glândula mamária precisa recrutar uma quantidade muito maior de células de defesa do que seria necessária em outros tecidos. (Burton & Erskine, 2003). Esses anticorpos são muito interligados com enzimas, como a Lactato desidrogenase, que recebem uma função especial para a identificação precoce da mastite em vacas leiteiras.
Diferentemente da contagem de células somáticas (CCS), a LDH pode identificar a mastite no seu estágio inicial de inflamação, enquanto a CCS pode ser influenciada por outros fatores, como estresse e estágio de lactação (DEL). Em um estudo realizado por Mohammadian (2011), que avaliou a atividade do LDH em vacas com mastite subclínica, foi possível obter resultados de um limiar da ação da enzima em vacas sadias (485.94 UI/L) e vacas com mastite subclínica (1524.04 UI/L), o que foi possível concluir que a LDH pode ser um indicador de diagnóstico de mastite subclínica.
Em sistemas automatizados de ordenha, a lactato desidrogenase é o componente do leite que mensura a saúde do úbere, e isso é feito através de programas automatizados e integrados à ordenha como o DeLaval Herd Navigator™, que utiliza a Lactato desidrogenase, associada às células somáticas, para verificar novas infecções que ainda não se apresentaram de forma clínica. Esse método dentro do sistema automático de ordenha permite fazer o monitoramento individual de cada vaca para o controle de indícios da doença dentro do rebanho.
Além disso, a LDH também pode ser usada a campo em sistemas convencionais, como o UdderCheck™, que utiliza tiras colorimétricas para indicar a concentração da enzima no leite. Esses testes oferecem resultados em poucos minutos, posicionando-se como uma alternativa prática para fazendas sem acesso a laboratórios. No entanto, é fundamental compreender suas limitações para o uso correto. Um estudo de Iraguha et al. (2017) relatou que a precisão das tiras UdderCheck™ para detecção de mastite subclínica é moderada, apresentando sensibilidade de 64%. Este valor, quando comparado à sensibilidade do CMT, que foi de 88,46% no mesmo estudo, sugere que o teste de LDH a campo pode funcionar como uma ferramenta de triagem inicial, mas casos suspeitos devem ser confirmados por métodos mais sensíveis.
Apesar das vantagens, alguns desafios ainda limitam o uso generalizado da LDH. Entre eles estão:
- A variação individual entre vacas, que exige a análise de tendências ao longo do tempo,
- O custo de sensores integrados, que pode ser alto para pequenas propriedades.
No entanto, a crescente demanda por monitoramento preciso, associado à redução do uso de antibióticos, tende a impulsionar a adoção dessa tecnologia. Portanto, o uso da LDH deve ser visto menos como um custo e mais como um investimento na eficiência e na qualidade da produção. Ao permitir a identificação precoce de processos inflamatórios, a tecnologia se paga ao reduzir perdas subclínicas e otimizar o tratamento, alinhando a saúde animal com a viabilidade econômica da fazenda.
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Referências bibliográficas
BURTON, J. L.; ERSKINE, R. J. Immunity and mastitis: some new ideas for an old disease. Veterinary Clinics of North America: Food Animal Practice, v. 19, n. 1, p. 1–45, 2003. DOI: 10.1016/S0749-0720(02)00073-7.
DAVIS, J. G. The rapid abnormality indicator: a simple electrical apparatus for the rapid detection of abnormal (mastitis) milk. Dairy Industries, v. 12, n. 1, p. 35-40, 48, 1947.
FRIGGENS, N. C.; CHAGUNDA, M. G. G.; BJERRING, M.; RIDDER, C.; HØJSGAARD, S.; LARSEN, T. Estimating degree of mastitis from time-series measurements in milk: A test of a model based on lactate dehydrogenase measurements. Journal of Dairy Science, v. 90, n. 11, p. 5414–5427, 2007. DOI: 10.3168/jds.2007-0148.
IRAGUHA, B.; HAMUDIKUWANDA, H.; MUSHONGA, B.; KANDIWA, E.; MPATSWENUMUGABO, J. P. Comparison of cow-side diagnostic tests for subclinical mastitis of dairy cows in Musanze district, Rwanda. Journal of the South African Veterinary Association, v. 88, p. e1–e6, 2017. DOI: 10.4102/jsava.v88i0.1464.
NORBERG, E. Electrical conductivity of milk as a phenotypic and genetic indicator of bovine mastitis: a review. Livestock Production Science, v. 96, n. 2-3, p. 129–139, 2005.
MOHAMMADIAN, Baharak. The Effect of Subclinical Mastitis on Lactate Dehydrogenase in Dairy Cows. International Journal of Animal and Veterinary Advances, v. 3, n. 3, p. 161–163, 2011.
SANTOS, M. V. Uso da condutividade elétrica do leite para detecção de mastite. MilkPoint, 24 nov. 2005.