Estudos recentes mostram que problemas de saúde não apenas influenciam a produção de leite, mas também a eficiência reprodutiva das vacas. Práticas preventivas são cruciais para manter a eficiência reprodutiva adequada.
Problemas de saúde são eventos indesejáveis em fazendas leiteiras e são um dos maiores desafios que as propriedades enfrentam. Embora a incidência de algumas doenças específicas - como a febre do leite ou a cetose clínica - tenha diminuído nos últimos 20 anos, a porcentagem geral de animais que apresentam uma ou mais doenças nos primeiros 60 dias após o parto não mudou.
Parte-se do princípio de que um animal doente tem seu bem-estar comprometido, uma vez que a saúde ideal é um componente chave do bem-estar animal. Além disso, doenças exigem intervenções caras para tratar os animais afetados, descarte do leite e representam uma importante perda econômica para a propriedade. No entanto, a maior perda econômica associada a doenças animais não é o custo do tratamento, mas a perda no desempenho animal e a maior chance de ser descartado.
As doenças podem ser definidas como um desvio das funções ou estruturas normais dos tecidos ou células de um animal que pode ser causado por um patógeno ou distúrbios metabólicos, entre outros, e que muitas vezes está associado a sinais clínicos ou achados subclínicos. Esta definição corresponde às doenças comuns da vaca leiteira, como mastite, claudicação e hipocalcemia.
No entanto, em gado leiteiro, existe um termo mais abrangente para referir a problemas de saúde, que são os eventos de saúde. Um evento de saúde é ligeiramente diferente de uma doença, uma vez que o termo inclui perdas de animais, como natimortos, eventos de curta duração, como distocia, e eventos indesejáveis associados ao baixo desempenho, como parto gemelar.
Independentemente da definição que se utiliza, esses eventos indesejáveis têm sido associados a um desempenho ruim dos animais e menor longevidade. Considerando que de 35% a 40% das vacas leiteiras desenvolvem um evento de saúde nos primeiros 60 dias de lactação, isso é muito relevante, e a prevenção de doenças deve ser o foco de qualquer programa de manejo animal.
A perda inicial de desempenho é geralmente observada na produção de leite, uma vez que um dos principais sinais de doença clínica em gado leiteiro é a queda na ingestão de matéria seca e na produção de leite. Além disso, a conta do tratamento veterinário contribui para a perda geral a curto prazo da doença. Estima-se que doenças comuns, como a cetose clínica e a claudicação, custem à fazenda entre $145 e $400 dólares por caso.
No entanto, a perda de lucratividade mais significativa resulta dos efeitos das doenças a longo prazo. Animais que sofrem de uma doença durante os primeiros 60 dias em lactação apresentam redução na produção de leite, diminuição da fertilidade e um aumento do risco de descarte. Um estudo recente relatou o custo total das doenças em gado leiteiro por categoria de perda (ou seja, perdas anuais de leite, aumento do intervalo de partos e taxa de descarte), estimando uma ampla gama de perdas dependendo da doença. Por exemplo, a perda de leite anual devido à cetose clínica foi estimada em 1,5%, enquanto a metrite clínica foi de 5,6%. Da mesma forma, para outras categorias de perda, como a taxa de descarte, eles relataram uma grande variação no impacto da doença, sugerindo um aumento de 1,1% na taxa de descarte para vacas com metrite clínica, enquanto vacas com hipocalcemia clínica apresentaram um aumento de 3%.
Comparação entre doenças uterinas e não uterinas na reprodução
No passado, havia a crença de que doenças que afetam o trato reprodutivo teriam efeitos mais severos no desempenho reprodutivo dos animais. Essa crença tem alguma evidência científica e, em casos de doenças reprodutivas severas que podem causar alterações permanentes do trato reprodutivo, isso ainda pode ser verdade.
Estudos que avaliaram os efeitos das doenças uterinas no desempenho reprodutivo relataram associações fortes entre metrite e endometrite e uma taxa de concepção mais baixa. Uma revisão nessa área, sobre associações entre metrite, secreção vaginal purulenta e endometrite, e desempenho reprodutivo reduzido, foi demostrado uma ampla gama de efeitos negativos, como a diminuição da concentração de progesterona e da ciclicidade, nos animais acometidos por essas doenças. No estudo de perda econômica devido a doenças mencionado anteriormente, foi relatado que vacas que apresentaram metrite clínica tiveram o maior aumento no intervalo de partos em comparação com outras doenças comuns. Da mesma forma, uma pesquisa realizada na Universidade da Flórida que analisou 5.719 vacas relatou que doenças relacionadas ao parto tiveram um efeito negativo mais severo sobre a retomada da ciclicidade até 60 dias de lactação em comparação com outras.
No entanto, ao analisar outros parâmetros reprodutivos, como gestação na primeira inseminação e perda de gestação, parece que, não importando o evento de saúde que o animal teve, esses parâmetros seriam negativamente afetados na mesma magnitude. Isso foi corroborado por dados mais recentes, onde foram relatados desfechos reprodutivos de vacas categorizadas como tendo doenças uterinas (retenção de placenta e metrite clínica) ou doenças não uterinas (claudicação, mastite, problemas respiratórios e digestivos). Neste estudo, os autores relataram que ambas as categorias de doenças afetaram negativamente os resultados reprodutivos na mesma magnitude e sugeriram um efeito sinérgico entre as categorias de doenças, onde as vacas afetadas por ambos os tipos de doenças sofreriam um efeito negativo mais acentuado em seu desempenho reprodutivo.
Custos e benefícios do manejo preventivo versus corretivo
Deve-se refletir sobre o que é ensinado nas faculdades de veterinária, pois na maioria das vezes a ênfase está em curar animais doentes. Embora isso ainda seja necessário nos dias de hoje, já que sempre haverá animais doentes, as prioridades na área veterinária mudaram nos últimos 15 anos para prevenir doenças por meio da gestão proativa, em vez de curar animais doentes. Isto é ainda mais importante na medicina veterinária de animais de produção, onde o foco deve ser em manter uma população saudável de animais em vez do cuidado individual dos animais. Dito isso, a chave para um desempenho reprodutivo ideal em gado leiteiro é ter uma gestão excelente focada na otimização do bem-estar animal e da saúde.
As melhores práticas de manejo (por exemplo, nutrição excelente, adequada densidade animal, instalações limpas e confortáveis) durante períodos desafiadores, como o período de transição, devem estar no topo da lista de prioridades para prevenir doenças.
Embora prevenir doenças seja o cenário ideal no caminho para otimizar o desempenho reprodutivo, isso pode ser um processo de longo prazo em algumas fazendas que exigem altos custos iniciais (por exemplo, construir um novo alojamento para as vacas). Nesse cenário, é necessário um manejo reprodutivo direcionado para os animais que tiveram um evento de saúde nos primeiros 60 dias de lactação.
Como mencionado anteriormente, um animal que apresenta um evento de saúde no início da lactação terá fertilidade prejudicada. O manejo reprodutivo proativo, como a avaliação precoce da saúde uterina e da ciclicidade e a intervenção adequada (por exemplo, tratamento hormonal para reiniciar a ciclicidade), pode ser benéfico nesse grupo de animais. Da mesma forma, se a vaca não conceber no primeiro serviço, uma abordagem agressiva de re-inseminação deve ser implementada. Outro aspecto a considerar é que esses animais, quando possível, não devem ser escolhidos inseminação com sêmen de alto custo, sêmen sexado ou outras estratégias reprodutivas mais caras, como a produção de embriões ou coleta de ovócitos.
Deve-se ter em mente que a maioria dos problemas de saúde que a vaca apresenta nos primeiros 60 dias de lactação são tratáveis, e a vaca apresenta cura clínica, porém nas maiorias das vezes não ocorre a cura funcional, e a vaca vai ter baixo desempenho produtivo e reprodutivo na lactação. Baseado nisso a prevenção é a melhor escolha.
Este texto é parte da publicação do Prof. Dr. Adrian A Barragan, da Penn State University.