A mochação de bezerros é uma prática comum na pecuária leiteira, adotada para facilitar o manejo e reduzir o risco de acidentes entre animais e trabalhadores. No entanto, os métodos tradicionalmente utilizados, como o ferro quente, causam dor significativa e desconforto prolongado aos animais, o que tem ampliado o debate sobre bem-estar animal nos sistemas de produção.
A busca constante por métodos menos invasivos e menos dolorosos está fundamentada na necessidade de melhorar o bem-estar animal nos sistemas de produção leiteira, principalmente devido à crescente preocupação pública com o bem-estar dos animais. Essa preocupação pode ter impacto direto no consumo e nas intenções de compra de produtos provenientes de fazendas que adotam práticas voltadas à melhoria da saúde e do bem-estar animal.
Recentemente, o policresuleno tem despertado interesse como um método alternativo potencial para a mochação de bezerros. Na medicina veterinária, esse produto é utilizado em cauterização e cicatrização de feridas. O policresuleno é um composto de ácidos que promovem a necrose seletiva de tecidos desvitalizados, podendo facilitar a degradação dos botões córneos dos chifres de bezerros, pois seus tecidos são de queratina ainda imatura. A mochação ocorreria com a aplicação destes ácidos nos cornos dos bezerros, com a proposta de um método menos invasivo e doloroso.
Em estudo publicado na revista Animals, foram comparadas duas técnicas de mochação em bezerros de 21 dias: a mochação com ferro quente e a utilização de policresuleno. Foram utilizados 24 bezerros, sendo 12 mochados com o método tradicional com ferro quente e 12 mochados com a aplicação de 0,2 mL de policresuleno (360 mg/g) diretamente no centro do botão corneano. Todos os animais receberam bloqueio anestésico dos nervos cornuais e três dias consecutivos de meloxicam para controle da dor.
Os animais mochados com ferro quente apresentaram comportamento de dor mais expressivo, como sacudir a cabeça e coçar a região com o membro ou contra objetos. Além disso, as feridas provocadas pela mochação com ferro quente apresentaram maior diâmetro enquanto ferida ativa e maior tempo de redução na circunferência do botão corneano em até 10 semanas. Em ambos tratamentos, o consumo de alimento e água não foi afetado.
Apesar do policresuleno ter se demonstrado um método de descorna menos invasivo e doloroso, aos 12 meses de idade, 9 dos 12 bezerros mochados com o medicamento tiveram rebrota dos botões e crescimento corneano, necessitando de cirurgia de descorna. Por ser um estudo pioneiro no uso do policresuleno como método de descorna, ainda há dúvidas sobre a idade e as doses ideais para este tipo de prática.
Ainda no mesmo estudo, foi realizada uma pesquisa de percepção do consumidor de lácteos sobre a técnica menos invasiva adotada por fazendas de leite e o que a adoção dessas práticas de bem-estar influenciariam na compra do produto final.
Foram entrevistadas 236 pessoas, das quais 69% relataram ter conhecimento técnico prévio sobre descorna e tinham experiência ou treinamento no setor agrícola. Esta questão foi fundamental e influenciou em todos os resultados obtidos na pesquisa.
Pessoas com formação ou experiência no agronegócio compreendem melhor as práticas de manejo como a mochação de bezerros e, por isso, costumam aceitá-las quando são justificadas por segurança, manejo e produtividade. Entre produtores, o uso do ferro quente ainda é o mais comum, por ser uma técnica conhecida e considerada confiável, o que também explica a cautela na adoção de novas alternativas sem evidências claras de custo-benefício.
Já os consumidores que não têm ligação com o campo costumam enxergar a produção de leite de forma diferente. A distância da realidade das fazendas, somada à influência da mídia e das redes sociais, faz com que esse público, principalmente jovens, se preocupe mais com o bem-estar animal e esteja mais disposto a pagar por produtos vindos de sistemas considerados mais “humanizados”. Muitas vezes, essa percepção é baseada mais na imagem e na emoção do que em informações técnicas.
A disposição dos consumidores urbanos em pagar mais por produtos oriundos de fazendas que adotem práticas de bem-estar representa tanto um desafio quanto uma oportunidade. Atualmente, a avaliação dos indicadores de bem-estar animal nas fazendas de leite apresenta desafios, por ser um conceito complexo e multidimensional. Porém, há avanços nos sistemas de certificações de propriedades, agregando maior valor aos seus produtos finais.
Essa pressão constante de consumidores, organizações e até mesmo da legislação sobre bem-estar animal que a cadeira leiteira vem sofrendo pode ser considerada não apenas uma questão ética, mas também um fator econômico e de mercado que impacta diretamente na produtividade do setor.
Esse interesse crescente representa uma grande oportunidade para o setor leiteiro aumentar a produtividade e a competitividade e, ao mesmo tempo, desenvolver produtos com maior valor agregado.
Para produtores e empresas que buscam se alinhar a essa nova demanda, a adoção de práticas de bem-estar pode se tornar um diferencial competitivo importante. Atender às expectativas do consumidor atual aumenta as chances de destaque no mercado e pode influenciar positivamente a intenção de compra de produtos lácteos, especialmente entre públicos mais atentos à forma como os animais são manejados.
*Texto adaptado do artigo “Evaluating Policresulen for Disbudding Dairy Calves: ATwo-Part Study on Calf Welfare and Consumer Perceptions.”, publicado na revista Animals/2025.
Referências bibliográficas
Referência:
SILVA, Tássia Barrera de Paula e et al. Evaluating Policresulen for Disbudding Dairy Calves: A Two-Part Study on Calf Welfare and Consumer Perceptions. Animals 15, 2977, 2025.