Aditivos antimetanogênicos: novas estratégias para a mitigação de metano na pecuária leiteira

A adoção de compostos antimetanogênicos oferece solução prática para reduzir metano, aumentar sustentabilidade e valorizar produtos lácteos no Brasil. Entenda!

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As mudanças climáticas e a busca por uma pecuária mais sustentável colocam em evidência a emissão de metano entérico (CH4), potente gás de efeito estufa gerado no rúmen dos ruminantes. Responsável por perdas de até 12% da energia bruta ingerida, o CH4 contribui significativamente para a pegada de carbono da cadeia leiteira. Nesse contexto, os aditivos alimentares antimetanogênicos despontam como estratégia promissora para reduzir essas emissões sem prejudicar a digestão ou o desempenho animal.

 

Como encontrar compostos antimicrobianos: abordagens empíricas e mecanicistas

A identificação de compostos bioativos com ação antimetanogênica pode seguir duas direções principais: a abordagem empírica e a abordagem mecanicista.

A primeira fundamenta-se na triagem de compostos já existentes, como extratos vegetais, microrganismos, algas, fungos e resíduos da agroindústria. É uma metodologia exploratória que permite avaliar uma grande diversidade de materiais com potencial de inibir a metanogênese.

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Já a abordagem mecanicista foca no entendimento profundo das vias bioquímicas das arqueias metanogênicas, permitindo o desenvolvimento de inibidores direcionados a enzimas específicas envolvidas na produção de CH4, como a metil-coenzima M redutase (Mcr) e a RFAP sintase. Essa abordagem utiliza ferramentas computacionais avançadas (in silico), como o docking molecular, para prever as interações entre moléculas candidatas e os alvos enzimáticos, acelerando o processo de descoberta.

 

Do laboratório à realidade: métodos para avaliação in vitro dos compostos

Antes de serem testados em animais, os compostos passam por rigorosa triagem in vitro. Essa etapa é fundamental para avaliar a eficácia, a toxicidade e os mecanismos de ação dos potenciais aditivos. Os principais métodos laboratoriais incluem (Figura 1):

  • Ensaios subcelulares: avaliam diretamente a capacidade do composto de inibir enzimas específicas das arqueias metanogênicas. Requerem isolamento e purificação de enzimas como a Mcr, o que demanda infraestrutura especializada e ambiente livre de oxigênio.
     
  • Culturas puras de metanogênicos: permitem identificar se o composto atua de forma estática (inibindo) ou cida (eliminando) as arqueias. Esses testes são feitos com espécies como Methanobrevibacter ruminantium e Methanobrevibacter smithii, com incubação anaeróbica em tubos ou placas de microtitulação.
     
  • Culturas mistas de fluido ruminal: simulam o ambiente real do rúmen e permitem avaliar a produção de CH4 associada à digestão. Além do metano, monitora-se a produção de ácidos graxos voláteis (AGV) como indicador da fermentação.
     
  • Sistemas contínuos como o RUSITEC: simulam a fermentação ruminal por longos períodos, permitindo observar a adaptação da microbiota ao aditivo e mensurar parâmetros como digestibilidade e síntese de proteína microbiana.

Figura 1. Métodos in vitro para avaliação dos compostos bioativos. Adaptado de Zoey Durmic et al. (2025).

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Desafios e limitações no uso de aditivos antimetanogênicos

Apesar do avanço técnico, poucos compostos chegam ao uso comercial. Entre os principais desafios estão a baixa estabilidade dos compostos no rúmen, dificuldades de síntese em larga escala, custo elevado e possíveis impactos na microbiota ruminal benéfica. Além disso, é necessário garantir que os aditivos não deixem resíduos nos produtos de origem animal, o que exige rigorosa avaliação toxicológica e aprovação regulatória. Também é importante ressaltar que a eficácia pode variar conforme o tipo de dieta, categoria animal e condições ambientais, exigindo formulações adaptadas a diferentes sistemas de produção.

 

Perspectivas e integração com a pecuária leiteira brasileira

A pecuária leiteira no Brasil tem uma grande oportunidade de integrar os aditivos antimetanogênicos como parte das boas práticas de manejo sustentável. Com o avanço das políticas ambientais e a valorização de produtos com menor impacto climático, os produtores que adotarem aditivos eficazes poderão se destacar no mercado a médio prazo. Para isso, é essencial investir em pesquisas aplicadas, validação a campo, assistência técnica e parcerias com empresas de nutrição animal. A adoção de aditivos antimetanogênicos, quando combinada com manejo nutricional, genética e bem-estar, pode promover uma pecuária mais eficiente, rentável e ambientalmente responsável.

 

Considerações

Os aditivos antimetanogênicos representam uma inovação estratégica para o futuro da pecuária leiteira. Ao atuarem diretamente sobre os microrganismos responsáveis pela produção de metano, oferecem uma abordagem eficaz para reduzir as emissões sem prejudicar o desempenho animal. No entanto, seu sucesso dependerá da capacidade de superar desafios técnicos, regulamentares e econômicos. A ciência já oferece caminhos viáveis, e cabe ao setor produtivo transformar esse conhecimento em soluções práticas e acessíveis. Em um cenário de crescente exigência por sustentabilidade, a adoção dos aditivos antimetanogênicos pode ser o diferencial competitivo que alia produtividade e responsabilidade ambiental no campo.

Referências bibliográficas

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BANNINK, A. et al. Feed additives for methane mitigation: Introduction—Special issue on technical guidelines to develop feed additives to reduce enteric methane. Journal of Dairy Science, Champaign, IL, v. 108, n. 1, p. 298–301, 2025. DOI: https://doi.org/10.3168/jds.2024-25669.

HRISTOV, A. N. et al. Feed additives for methane mitigation: Recommendations for testing enteric methane-mitigating feed additives in ruminant studies. Journal of Dairy Science, Champaign, IL, v. 108, n. 1, p. 322–355, 2025. DOI: https://doi.org/10.3168/jds.2024-25050.

HRISTOV, A. N. et al. Feed additives for methane mitigation: Regulatory frameworks and scientific evidence requirements for the authorization of feed additives to mitigate ruminant methane emissions. Journal of Dairy Science, Champaign, IL, v. 108, n. 1, p. 395–410, 2025. DOI: https://doi.org/10.3168/jds.2024-25051.

MARTINS, C. M. M. R. et al. A meta-analysis of methane-mitigation potential of feed additives evaluated in vitro. Journal of Dairy Science, Champaign, IL, v. 106, n. 9, p. 7890–7910, 2023. DOI: https://doi.org/10.3168/jds.2023-24440.

 

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Material escrito por:

Carina Bittencourt

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Alex Lopes da Silva

Alex Lopes da Silva

Professor(a) do Departamento de Zootecnia, Universidade Federal de Viçosa

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Polyana Pizzi Rotta

Polyana Pizzi Rotta

Professora de Produção e Nutrição de Bovinos de Leite da UFV e coordenadora do Programa Família do Leite

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