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Resfriamento de vacas secas: benefícios econômicos no Brasil

POR ISRAEL FLAMENBAUM

E ADRIANO SEDDON

COWCOOLING - FLAMENBAUM & SEDDON

EM 11/08/2020

7 MIN DE LEITURA

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As perdas na produção de leite durante o verão estão geralmente relacionadas ao impacto negativo do estresse térmico nas vacas em lactação. Contudo, nos últimos 40 anos, alguns estudos realizados em diferentes partes do mundo mostraram que as vacas secas também são afetadas negativamente, quando submetidas a condições de altas temperaturas. Essas perdas estão relacionadas principalmente ao menor volume de leite e produção de sólidos, além de problemas de fertilidade nos estágios iniciais da lactação subsequente. Vacas secas estressadas pelo calor também sofrem com maior incidência de doenças e distúrbios metabólicos após o parto (principalmente devido à redução da função imunológica da vaca). Todas essas mudanças ocorrem após o parto e nos estágios iniciais da subsequente lactação, embora ocorram no outono e no inverno, quando o estresse térmico já terminou.

Na tabela abaixo, é descrita uma lista de pesquisas que tratam da mitigação do estresse térmico em vacas secas. Na maioria dos estudos, compara-se o resultado positivo do resfriamento em relação a vacas que recebem apenas sombra. Como se pode observar, os estudos foram conduzidos em diferentes condições climáticas (regiões secas e úmidas) e utilizando diferentes métodos de resfriamento direto (combate à umidade e ventilação forçada) e resfriamento indireto (nebulização de alta e baixa pressão).

Tabela 1 - Produção média de leite (kg/d) na lactação subsequente de vacas secas de diferentes regiões climáticas, resfriadas por diferentes métodos de resfriamento, quando comparadas a vacas que receberam apenas sombra.

resfriamento vaca seca

Resumindo os estudos apresentados na tabela acima, podemos ver que, em média:

  • A temperatura corporal das vacas secas resfriadas foi 0,4oC menor, em comparação com as vacas não resfriadas (38,9oC e 39,2oC), respectivamente.
  • O consumo de matéria seca (MS) foi maior em 1,5 kg/dia em vacas secas resfriadas, em comparação com as vacas não resfriadas (11,4 kg/de 9,8 kg/d), respectivamente.
  • O peso ao nascer dos bezerros foi 4,4 kg maior nos bezerros nascidos de vacas secas resfriadas, em comparação aos bezerros nascidos de vacas não resfriadas (42,4 kg e 38,0 kg), respectivamente.
  • O peso ao desmame dos bezerros foi 7,7 kg maior nos bezerros nascidos de vacas secas resfriadas, em comparação aos bezerros nascidos de vacas não resfriadas (77,7 kg e 70,0 kg), respectivamente.
  • A produção de leite na lactação subsequente foi 3,5 kg/d maior em vacas secas resfriadas, em comparação com as vacas não resfriadas (35,8 kg/d e 32,3 kg/d), respectivamente.

Em uma pesquisa realizada nas diferentes partes dos EUA, as perdas de produção de leite na lactação subsequente foram relacionadas ao número de dias em um ano nos quais o índice temperatura-umidade (THI) médio diário foi superior a 72. As perdas na produção de leite na lactação subsequente foram em média 450 kg/ano na “vaca média” dos EUA, variando entre 230 kg/ano no estado com temperaturas mais baixas, no qual 12% das vacas secas sofrem estresse durante o ano e 1170 kg/ano no estado com temperaturas mais elevadas, no qual 70% das vacas secas no rebanho sofrem estresse térmico. Estima-se que as perdas econômicas causadas pelo estresse térmico nas vacas secas em todo o setor leiteiro dos EUA sejam de US$ 810 milhões anualmente (US$ 87/vaca/ano). Em média, a lactação subsequente cai em 4,7 kg/d, para cada dia estressante do ano (THI médio diário acima de 72). As perdas econômicas anuais por vaca seca variaram entre US$ 68 em Wisconsin e US$ 230 na Flórida.

Diferentemente das vacas em lactação, poucos estudos avaliaram o benefício econômico do resfriamento das vacas secas.

O primeiro estudo foi publicado por Urdaz et al. em 2006. Um experimento realizado em uma fazenda de 3.000 vacas, localizada no centro da Califórnia, onde o resfriamento diurno de vacas combinando umedecimento e ventilação forçada na linha de alimentação sombreada foi comparado a apenas umedecer as vacas. Os sistemas de resfriamento funcionavam entre 09:00h e 20:00h e foram fornecidos às vacas nas últimas 3 semanas de gestação. A adição de ventiladores ao sistema de aspersão na linha de alimentação aumentou o lucro anual por vaca em quase US$ 10.

Adin et al. publicaram em 2009 um estudo que examinou os benefícios do resfriamento de vacas secas com uma combinação de umedecimento e ventilação forçada realizada em uma fazenda comercial de gado leiteiro no sul de Israel. Os pesquisadores descobriram que 80 kg de leite adicionais eram necessários na lactação subsequente para cobrir as despesas necessárias para o resfriamento das vacas (equipamento de resfriamento e operação). A produção subsequente de leite em lactação das vacas secas resfriadas aumentou 190 kg em relação às vacas controle que receberam apenas sombra, deixando no bolso do produtor um lucro de 110 kg adicionais de leite para cada vaca seca que recebe o tratamento de resfriamento.

A última e mais detalhada avaliação da relação custo-benefício do resfriamento de vacas secas foi realizada por pesquisas da Universidade da Flórida, publicadas no American Journal of Dairy Science em 2016. Os pesquisadores calcularam a relação custo-benefício do fornecimento de sistema de resfriamento direto para a vaca seca, para a "vaca média dos EUA" e para uma vaca seca na Flórida.

Nos EUA, existem em média 96 dias estressantes por ano (26% do ano). Assumindo o preço do leite e o preço da MS de US$ 0,54/kg e US$ 0,28/ kg, respectivamente e um aumento de 5 kg de produção de leite na lactação subsequente a cada dia estressante, o resfriamento direto aumentou em US$ 62 a receita líquida anual por vaca seca resfriada. Na Flórida, com 257 dias estressantes por ano e preço do leite de US$ 0,44 US, o resfriamento direto aumenta em US$ 140 a receita líquida anual por vaca seca. Supondo que 70% das vacas da Flórida sofram estresse por calor no período seco, isso significa US$ 100 anualmente, para cada vaca nos rebanhos da Flórida.

O investimento no resfriamento de vacas secas começa a ser rentável quando o número de dias estressantes é maior que 50, em condições climáticas moderadas, e maior que 10 dias, em regiões extremamente quentes como a Flórida e o sul dos EUA.

Vamos calcular agora a relação custo-benefício do resfriamento de vacas secas no Brasil:

Calculamos o custo-benefício do resfriamento das vacas secas em duas fazendas leiteiras de 200 vacas, com uma produção média de leite de 9.000 litros/vaca, que ainda não resfria as vacas secas. A primeira fazenda está localizada em região quente (250 dias estressantes por ano, onde o THI tem uma média de 72 ou mais). A segunda fazenda está localizada na região mais fria (150 dias estressantes por ano).

Na região quente, 70% das vacas adultas (140 vacas) passam todo o período seco sob condições de estresse térmico. Assumimos que o resfriamento dessas vacas durante todo o período seco aumentará em 15% a produção da lactação subsequente. Com preços do leite e MS da ração de R$ 1,6/kg e R$ 0,9/kg, investimento em equipamentos de refrigeração de R$ 1.150 por vaca seca (resfriamento adicional na linha de alimentação) e R$ 75 em custo de operação por vaca seca, o aumento esperado na receita líquida anual por vaca seca é de R$ 915  por ano e R$ 1280.000 por fazenda.

Na região mais fria, 40% das vacas adultas (80 vacas) passam todo o período seco sob condições de estresse térmico. Assumimos que o resfriamento dessas vacas durante todo o período seco aumentará em 10% a lactação subsequente. Com preços do leite e da MS da ração em R$ 1,6/kg e R$ 0,9/kg, investimento em equipamentos de R$ 1.150 por vaca seca e R$ 80 de custo operacional por vaca seca, o aumento esperado na receita líquida anual por vaca seca é de R$ 915 e R$ 73.000 por fazenda.

Deve-se esclarecer que, nos cálculos apresentados acima, incluímos apenas vacas que vão para a segunda lactação ou mais, não incluindo o efeito benéfico do resfriamento de novilhas prenhes tardias, embora a literatura recente mostre que elas também podem se beneficiar do resfriamento no final da gestação. O cálculo não inclui também as melhorias na saúde e fertilidade das vacas no início da lactação subsequente, esperadas quando as vacas secas são resfriadas na estação quente. Incluir todos esses benefícios no cálculo obviamente aumentará o ganho econômico do resfriamento das vacas secas.

Em conclusão:

O resfriamento de vacas secas e novilhas no final da gestação em fazendas leiteiras brasileiras tem o potencial de aumentar a produção anual de leite de vacas que nascem no final do verão e início do outono em 1.000 kg por vaca seca na lactação subsequente. Isso pode aumentar o lucro líquido entre R$ 70.000 por fazenda por ano, em fazendas localizadas em partes relativamente frias do Brasil e em R$ 130.000 por fazenda por ano, em fazendas localizadas em partes quentes. O investimento no resfriamento de vacas secas pode ser pago em menos de dois anos.

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ISRAEL FLAMENBAUM

Especialista no estudo do estresse térmico em vacas leiteiras, professor na Hebrew University of Jerusalém, tem ministrado cursos e treinamentos sobre o assunto em diversos países.

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