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Conforto e resfriamento: custo-benefício do investimento em fazendas leiteiras no Brasil

POR ISRAEL FLAMENBAUM

E ADRIANO SEDDON

COWCOOLING - FLAMENBAUM & SEDDON

EM 03/06/2020

5 MIN DE LEITURA

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Os produtores de leite de todo o mundo, principalmente em regiões quentes, estão familiarizados com o impacto negativo do estresse térmico no desempenho de suas vacas, mas apenas alguns deles têm os meios para quantificar as perdas econômicas causadas pelas altas temperaturas, bem como os recursos para resfriar intensamente suas vacas neste período.

Em um artigo publicado recentemente, apresentei o efeito do resfriamento intensivo de vacas por meio de uma combinação de umedecimento e ventilação forçada, desenvolvida em Israel e testada nas condições de verão. O estudo comparou lactações completas de vacas em fazendas leiteiras de alto rendimento, resfriadas intensamente no verão (seis horas de resfriamento acumuladas por dia), com fazendas que investiram em equipamentos, mas não os operaram adequadamente. De acordo com os resultados deste estudo e de outros, realizados em diferentes partes do mundo, resfriar intensamente as vacas secas e lactantes no verão aumentou a produção anual de leite por vaca em quase 10% em relação à produção do outro grupo não resfriado.

No presente artigo, apresentamos o cálculo da relação custo-efetividade da implementação do sistema de resfriamento intensivo nos dias de hoje nas fazendas leiteiras brasileiras.

Para o cálculo, utilizamos uma planilha especial do Excel que desenvolvi há quase 10 anos e atualizamos os preços do setor de laticínios no Brasil (maio de 2020). Dentre esses, foram utilizados os preços do leite ao produtor, das vacas leiteiras, da ração total misturada (TMR) e da eletricidade. Incluímos em nosso cálculo o investimento necessário para construir um novo Compost barn e o custo de instalação e operação de um sistema de resfriamento, de acordo com nossas recomendações.

Com base em práticas eficientes, recomendamos o resfriamento das vacas por uma combinação de umedecimento e ventilação forçada por 6 horas cumulativas/vaca/dia e 150 dias de verão por ano. Com nosso programa, calculamos o aumento esperado no lucro líquido anual por vaca e fazenda, levando em consideração de um lado o aumento esperado na produção de leite, maior eficiência alimentar e fertilidade da vaca e, por outro lado, as despesas adicionais, aumentando dos investimentos em construção, instalação e operação intensiva do sistema de resfriamento. Também levamos em consideração um aumento esperado no consumo de ração, para suportar o aumento na produção de leite (0,5 kg de MS por cada kg adicional de leite produzido).

Os seguintes preços estão em uso neste estudo:

  • Preço do leite no portão da fazenda – R$ 1,55/litro.
  • Custo de alimentação – R$ 1,00 R/kg MS (ração para vacas leiteiras).

Para o cálculo, utilizamos uma fazenda leiteira brasileira típica com 200 vacas e analisamos dois cenários.

Cenário 1 – A fazenda não possui instalações de alojamento e não faz nenhum tratamento de resfriamento nas estações mais quentes. A produção média anual de leite é de 6.000 litros/vaca. Os investimentos realizados na fazenda incluem a construção de um Compost barn, incluindo ventiladores, com um custo de R$ 4.200 por vaca e, além disso, a instalação de um sistema de resfriamento que combina ventiladores e aspersores no pátio de espera e na pista de alimentação, com um custo de R$ 1.250 por vaca. O custo de operação do sistema de resfriamento é estimado em R$ 150 por vaca/ano (principalmente para uso de eletricidade na operação dos ventiladores). As vacas recebem o tratamento de resfriamento por um período de 150 dias por ano, no pátio de espera, antes e entre as sessões de ordenha, e na pista de alimentação, por seis horas acumuladas/vaca/dia. No cálculo para este cenário, assumimos aumentos esperados de 25, 30 e 35% na produção anual de leite por vaca, um aumento de 10% na eficiência alimentar durante os dias de verão e uma redução de 15 "dias em aberto" por vaca/lactação, com um valor de R$ 25 por cada dia em aberto adicional. Os resultados deste cálculo estão apresentados na tabela 1.

Tabela 1 - Custo-efetividade do investimento no compost barn com ventiladores e sistema de resfriamento para uma fazenda de 200 vacas leiteiras no Brasil.

estresse termico vacas de leite resfriamento

Cenário 2 – A fazenda já possui um Compost barn com ventiladores no interior e sua produção média anual de leite é de 8.000 litros/vaca. A fazenda investe na instalação de um sistema de resfriamento que combina ventiladores e aspersores no pátio de espera e na linha de alimentação, com um custo de R$ 1.250 por vaca, e o custo da operação é estimado em R$ 150 por vaca/ano. As vacas foram resfriadas por 150 dias de verão por ano, no pátio de espera antes e entre as sessões de ordenha e na pista de alimentação, por seis horas cumulativas/vaca/dia. Nos cálculos para esse cenário, assumimos os aumentos de 15, 20 e 25% na produção anual de leite por vaca (acima da produção esperada de vacas que ficam no Compost barn sem resfriamento), um aumento de 10% na eficiência alimentar do verão e uma redução de 10 "dias em aberto" com um valor de R$ 25 por cada dia em aberto. Os resultados deste cálculo estão apresentados na tabela 2. 

Tabela 2 - Relação custo-benefício do investimento no sistema de resfriamento de vaca em uma fazenda de gado leiteiro de 200 vacas no Brasil, onde as vacas já possuem compost barn

estresse termico vacas de leite resfriamento

De acordo com o apresentado nestas duas tabelas, podemos ver o seguinte:

Quando a fazenda precisa investir na construção do compost barn, instalar um sistema de resfriamento e operá-lo por 150 dias por ano, de acordo com nossas recomendações, o retorno do investimento varia entre 4 anos, no pior cenário, e 2,5 anos, no mais realista.

Quando a fazenda já possui instalações de Compost barn e precisa investir apenas no sistema de resfriamento e operá-lo durante 150 dias por ano, o retorno do investimento variará entre 1,1 ano, no pior cenário e 0,6 ano, no mais realista.

O que acontecerá se for feito o investimento da fazenda no resfriamento, mas por qualquer motivo (falha na instalação ou operação adequada), ele não estiver obtendo os resultados esperados? Na nossa opinião, isso é o pior cenário, pois, neste caso, o produtor não apenas perderá o aumento potencial de sua renda, mas terá que tirar cerca de R$ 300 por vaca todos os anos, para pagar o investimento. Infelizmente, essa é a situação observada em grande parte das fazendas leiteiras brasileiras hoje em dia, e a principal razão pela qual decidimos estabelecer nossa empresa, com o objetivo de garantir que o produtor invista adequadamente e que seu investimento dê os frutos esperados.

Podemos concluir dizendo que investir no conforto das vacas, proporcionar às vacas melhores condições para descansar (sombra e superfície macia ao deitar), bem como resfriá-las intensamente no verão, pode ser considerado um dos investimentos mais econômicos que os produtores brasileiros podem fazer. Nestes dias de crise, melhorar a eficiência da produção de leite e a lucratividade da fazenda pode ser fundamental para a sobrevivência de muitas fazendas neste grande país.

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ISRAEL FLAMENBAUM

Especialista no estudo do estresse térmico em vacas leiteiras, professor na Hebrew University of Jerusalém, tem ministrado cursos e treinamentos sobre o assunto em diversos países.

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MURILO ROMULO CARVALHO

CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 21/09/2020

Muito interessante o artigo. Tenho dúvida a respeito de dois pontos:
1) Em que é baseado o custo de R$25 por dia extra em aberto?
2) O custo de depreciação e manutenção do sistema foi incluído?

O custo de apenas R$150/vaca/ano parece muito atrativo, mas creio que seja importante incluir manutenção e depreciação. Se o investimento durar 15 anos, o custo por vaca/ano ja triplica.
Além disso, acredito que vacas produzindo 8000kg de leite por lactação precisariam de resfriamento por bem mais tempo do que menos que a metade dos meses do ano. Grande parte do país tem temperaturas bem acima de 25ºC por mais de 6 meses por ano, sendo que nos meses mais quentes fica praticamente o dia todo acima disso. Para conseguir manter vacas nesse nível de produção em conforto térmico seria necessário gastar bem mais com resfriamento do que apenas por 6 horas por dia por 5 meses.
EQUIPE MILKPOINT

PIRACICABA - SÃO PAULO

HÁ UM DIA

Olá, Murilo, tudo bem? O Israel, autor do artigo, enviou uma resposta e nós traduzimos. Segue:

"1. Os 25 R$ por dia aberto são traduzidos de 5 dólares, a média de informações de alguns estudos neste tópico.

2. Sim, o cálculo leva em conta a depreciação e manutenção

Acho que a manutenção do sistema de refrigeração é mínima e desprezível, do ponto de vista econômico.
Sabemos que em muitas partes do Brasil, o tempo de refrigeração é maior do que em nossa publicação. Nesse caso, o custo do resfriamento aumentará, mas também o benefício do resfriamento (aumento da produção de leite), será maior. A recomendação de 6 horas cumulativas de resfriamento por dia é baseada em pesquisas científicas feitas em vacas com média de mais de 40 litros/vaca/dia. Acreditamos que esta recomendação seja válida também para vacas brasileiras de 8.000 litros/ano.

Lembre-se, a questão não é a intensidade do resfriamento ao longo do dia, mas os dias do ano que as vacas devem ser resfriadas. Nós, em nossa nova empresa "Cowcooling Flamenbaum & Seddon Ltd", assumimos a responsabilidade de aconselhar cada produtor de leite no Brasil como resfriar adequadamente suas vacas (dias ao longo do ano, de acordo com sua localização específica)".
MAICON JOSÉ GALUPPO

SARANDI - RIO GRANDE DO SUL - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 01/07/2020

Boa noite, primeiramente parabéns pela matéria, gostaria de saber qual a possibilidade do acesso desta planilha do calculo?
Desde já muito obrigado.
MILTON CESTARI

TOLEDO - PARANÁ - INDÚSTRIA DE INSUMOS PARA A PRODUÇÃO

EM 04/06/2020

Não parece provável que o aumento de produção anual, exclusivamente pela adição de um bom sistema de resfriamento passe dos 10 %. Pode ser tendencioso criar uma expectativa de aumento de até 35% considerando somento as melhorias decorrentes da instalação de um Compost Barn e do Resfriamento adequado.
ADRIANO SEDDON

ITAPEVA - SÃO PAULO - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 05/06/2020

Milton, nossa experiência demonstrou que esses números são extremamente factíveis. É comum observar fazendas que ao introduzir o sistema de composto aumentaram 6 a 8 ltrs na média, o mesmo pode ser observado com o resfriamento. Incrementos de 2000 kg tem sido observados com frequência após a introdução do resfriamento em todas vacas e incrementos de mais de 1000 kg são corriqueiros após se resfriar vacas secas e o período de transição.
EQUIPE MILKPOINT

PIRACICABA - SÃO PAULO

EM 08/06/2020

Olá, Milton, como vai?

Segue a resposta do Israel, também autor do artigo, traduzida do inglês:

"As suposições que colocamos nos dois cenários são, em nossa opinião, muito realistas. Em situações de climas quentes, vacas com alto mérito genético e práticas de manejo, a adição de um sistema de resfriamento intensivo, adequadamente operado (ponto muito importante!), pode aumentar a produção anual por vaca em cerca de 2.000 litros, o que representa cerca de 20% e até mais alto. O mesmo acontece quando colocamos as vacas, que anteriormente estavam sem abrigo, em um barracão de compost barn: sua produção aumentará em pelo menos 15%. Se você ler meus outros artigos publicados, encontrará resultados de projetos realizados no México, Itália, Turquia e Rússia. Não há razão para que as vacas brasileiras respondam de maneira diferente!"

Obrigada por nos acompanhar, abraço!
MilkPoint AgriPoint