Estudos científicos demonstram que a digestão das proteínas do leite libera peptídeos bioativos com potencial para atuar em diferentes sistemas do organismo (Yuzbashian et al., 2024). Entre esses efeitos, destacam-se a modulação da microbiota intestinal e a possível redução de processos neuroinflamatórios (Dhar et al., 2024; Gallo et al., 2024; Parastouei et al., 2023).
O intestino abriga milhões de neurônios e trilhões de microrganismos. Essa comunidade microbiana comunica-se com os sistemas nervoso entérico e central por meio de sinais hormonais, metabólitos e mediadores inflamatórios (Santos et al., 2020).
Como ilustrado na Figura 1, quando a microbiota intestinal está em equilíbrio (eubiose), ocorre a produção de substâncias neuroativas, como serotonina, dopamina e ácido gama-aminobutírico (GABA), associadas ao humor, à qualidade do sono e ao comportamento. Entretanto, o desequilíbrio da microbiota intestinal (disbiose) pode levar ao aumento da inflamação sistêmica, processo também relacionado a doenças neurodegenerativas, como doença de Alzheimer e doença de Parkinson (Naufel et al., 2023).
Na doença de Parkinson, por exemplo, esse processo tem sido associado ao aumento de metabólitos bacterianos pró-inflamatórios, como trimetilamina (TMA), N-óxido de trimetilamina (TMAO) e lipopolissacarídeos (LPS), bem como à redução de metabólitos anti-inflamatórios, como o butirato (Voigt et al., 2022; Stroka et al., 2022).
Figura 1 - Metabólitos relacionados a eubiose e disbiose intestinal no eixo intestino-cérebro.
A proliferação de bactérias que auxiliam o intestino a manter a eubiose, como Bifidobacterium e Lactobacillus (Embrapa, 2026), é favorecida pelo consumo de peptídeos bioativos derivados da hidrólise das proteínas do soro do queijo (Wijesekara; Abeyrathne e Ahn, 2024). Esses microrganismos produzem ácidos graxos de cadeia curta (AGCCs), como butirato e propionato, que fortalecem a barreira epitelial, reduzem a inflamação e beneficiam funções cerebrais (Patloka, Komprda e Franke, 2024).
Tais evidências indicam que o soro do queijo é uma fonte natural de moléculas potencialmente nutracêuticas, com capacidade de atuar de forma preventiva em distúrbios metabólicos e neurológicos.
A compreensão da conexão entre o eixo intestino–cérebro justifica o desenvolvimento de suplementos bioativos e alimentos funcionais, uma vez que esses produtos podem associar a alimentação ao bem-estar físico e mental (Embrapa, 2026). Desse modo, estabelece-se uma relação entre neurociência, nutrição e microbiologia, evidenciando o papel dos peptídeos lácteos e reforçando a relevância da pesquisa biomédica na descoberta de novas perspectivas sobre os alimentos.
Portanto, além de fornecer nutrientes básicos, o leite e seus derivados tornam-se aliados na proteção da saúde cerebral, reforçando a ideia de que “uma mente saudável e funcional começa pelo que você come”.
Vale a pena ler também:
Doença de Parkinson: o papel dos lactobacilos vivos no eixo intestino-cérebro
Fontes consultadas
DHAR, H., VERMA, S., DOGRA, S., KATOCH, S., VIJ, R., SINGH, G., & SHARMA, M. (2024). Functional attributes of bioactive peptides of bovine milk origin and application of in silico approaches for peptide prediction and functional annotations. Critical Reviews in Food Science and Nutrition, 64(26), 9432-9454..
EMBRAPA, Gado de Leite. Manejo e Nutrição. Microrganismos que atuam no eixo intestino-cérebro ganham espaço na nutrição de bovinos. Conheça seu potencial! Publicado em: 19/01/2026. Disponível em: https://www.revistaleiteintegral.com.br/noticia/microrganismos-que-atuam-no-eixo-intestino-cerebro-ganham-espaco-na-nutricao-de-bovinos-conheca-seu-potencial
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