O uso de leveduras na produção de alimentos e bebidas fermentadas é conhecido há séculos e amplamente difundido em diferentes culturas. Além do papel tradicional na fermentação, essas leveduras vêm despertando o interesse de pesquisadores e da indústria pelo seu potencial probiótico. Algumas espécies já se destacam por seus benefícios à saúde, como Saccharomyces boulardii, amplamente utilizada em produtos funcionais. No setor de laticínios, outras leveduras como Kluyveromyces lactis, Candida milleri, Debaryomyces hansenii e Yarrowia lipolytica também têm mostrado bons resultados em diferentes tipos de produtos lácteos (Kazemi et al., 2025).
Nos últimos anos, as leveduras probióticas têm ganhado espaço na indústria de laticínios como uma alternativa aos tradicionais Lactobacillus e Bifidobacterium na produção de alimentos funcionais. Elas apresentam vantagens importantes: são naturalmente resistentes a antibióticos, ajudam a manter o equilíbrio intestinal mesmo durante tratamentos com medicamentos e atuam de forma ativa durante sua passagem pelo trato digestivo (Kazemi et al., 2025; Moonsamy et al., 2024; Souza et al., 2022). Espécies como Saccharomyces boulardii e Pichia kudriavzevii resistem ao ambiente ácido do estômago, produzem compostos antimicrobianos, estimulam o sistema imunológico e competem com microrganismos indesejáveis, dificultando a fixação de patógenos e neutralizando toxinas bacterianas, como as produzidas por Clostridium difficile — um dos principais causadores de diarreia associada a antibióticos. Essas ações combinadas favorecem o equilíbrio da microbiota intestinal e contribuem para a prevenção de distúrbios digestivos, especialmente quadros de diarreia (Alkalbani et al., 2022; Kanak; Öztürk Yılmaz, 2025; Souza et al., 2022).
Produtos lácteos como queijos, iogurtes e leites fermentados oferecem um ambiente favorável para o crescimento de leveduras probióticas, que além de promover a saúde intestinal, podem enriquecer os alimentos com proteínas, vitaminas (como B12) e minerais, contribuindo para melhor digestão e absorção de nutrientes. Algumas espécies também modulam o sistema imunológico e produzem compostos anti-inflamatórios (Kanak; Öztürk Yılmaz, 2025; Kazemi et al., 2025). Estudos recentes, como o de Zhou et al. (2025), mostram que a combinação de Saccharomyces boulardii com inulina em iogurtes simbióticos não só melhora a sobrevivência da levedura durante o armazenamento, como também aumenta a produção de metabólitos bioativos, relacionados à maior capacidade antioxidante e à estabilidade do produto. Para garantir esses benefícios, é preciso considerar a viabilidade das leveduras durante processamento e armazenamento, sua segurança para consumo e resistência a condições digestivas como pH baixo e sais biliares. Para ser considerado probiótico, um produto fermentado precisa conter microrganismos cujos efeitos benéficos à saúde tenham sido validados cientificamente (Kazemi et al., 2025).
As leveduras probióticas surgem, assim, como uma nova fronteira para os laticínios funcionais, unindo tradição e inovação. Mais do que simples agentes de fermentação, elas oferecem oportunidades para diversificar o mercado e agregar valor nutricional aos produtos. A resistência natural a antibióticos, a modulação da microbiota e a produção de compostos bioativos tornam essas leveduras relevantes para o desenvolvimento de laticínios funcionais. O desafio agora é transformar esse potencial em prática: selecionar cepas seguras e estáveis, validar seus efeitos em escala industrial e comunicar de forma clara seus benefícios ao consumidor.
Autores:
Jerusa Bruxel: Doutoranda do Programa de Pós-graduação em Biotecnologia, Universidade do Vale do Taquari – Univates.
Larissal Heissler Thomas: Graduanda em Odontologia, Universidade do Vale do Taquari – Univates.
Daniel Neutzling Lehn: Doutor em Engenharia e Ciência de Alimentos, Docente do Programa de Pós-graduação em Biotecnologia, Universidade do Vale do Taquari – Univates.
Claucia Fernanda Volken de Souza: Doutora em Biologia Celular e Molecular, Docente do Programa de Pós-graduação em Biotecnologia, Universidade do Vale do Taquari – Univates.
Referências bibliográficas
ALKALBANI, Nadia S. et al. In Vitro Characterization and Identification of Potential Probiotic Yeasts Isolated from Fermented Dairy and Non-Dairy Food Products. Journal of Fungi, v. 8, n. 5, p. 544, 2022.
KANAK, Eda Kılıç; ÖZTÜRK YILMAZ, Suzan. Determination of the Probiotic and Functional Properties of Yeasts Isolated from Different Dairy Products. Fermentation, v. 11, n. 2, p. 104, 2025.
KAZEMI, Sanaz et al. Selection of appropriate probiotic yeasts for use in dairy products: a narrative review. Food Production, Processing and Nutrition, v. 7, n. 1, p. 13, 2025.
MOONSAMY, Ghaneshree et al. Advances in Yeast Probiotic Production and Formulation for Preventative Health. Biology and Life Sciences, 2024. Disponível em: <https://www.preprints.org/manuscript/202410.0039/v1>. Acesso em: 6 out. 2025
SOUZA, Handray Fernandes De et al. On probiotic yeasts in food development: Saccharomyces boulardii, a trend. Food Science and Technology, v. 42, p. e92321, 2022.
ZHOU, Zengjia et al. Identification of potential key metabolites in synbiotic yoghurt made with probiotic Saccharomyces cerevisiae var. boulardii CNCM I-745 and prebiotic inulin by non-targeted metabolomics analysis. Food Chemistry, v. 464, p. 141923, 2025.