De acordo com a Organização Mundial da Saúde, a prevalência da doença de Parkinson dobrou nos últimos 25 anos, tornando-se a segunda enfermidade neurodegenerativa mais comum. Embora fatores como envelhecimento, predisposição genética, exposição a toxinas ambientais e traumas cranianos estejam associados ao risco, evidências recentes sugerem que o eixo intestino-cérebro desempenha um papel relevante na compreensão da doença.
A doença de Parkinson afeta principalmente idosos e é caracterizada por sintomas motores, como bradicinesia, tremores de repouso e rigidez. No entanto, manifestações não motoras — incluindo alterações neuropsiquiátricas, distúrbios do sono e sintomas gastrointestinais — têm ganhado destaque. Entre essas, a constipação é uma das mais frequentes, com prevalência estimada entre 70% e 80%, podendo impactar significativamente a qualidade de vida.
Estudos indicam que sintomas gastrointestinais, especialmente a constipação, podem surgir anos antes das manifestações motoras. Essa observação impulsionou o interesse científico pelo eixo intestino-cérebro, um sistema de comunicação bidirecional entre o trato gastrointestinal e o sistema nervoso central.
Evidências e mecanismos
No artigo científico Parkinson’s disease and the gut-brain connection: unveiling pathways, mechanisms and promising therapies, pesquisadores descrevem que o eixo intestino-cérebro envolve interações entre microbiota intestinal, sistema nervoso entérico e sistema nervoso central, mediadas por vias neurais, imunológicas e endócrinas. O nervo vago exerce papel central nessa comunicação, conectando o intestino ao cérebro — razão pela qual o sistema nervoso entérico é frequentemente chamado de “segundo cérebro”.
Segundo esses estudos, alterações na microbiota intestinal em indivíduos com Parkinson podem aumentar a permeabilidade intestinal. Esse processo permite a entrada de endotoxinas bacterianas, como lipopolissacarídeos, na corrente sanguínea, favorecendo inflamação sistêmica. Esse quadro pode ativar células do sistema nervoso central, como micróglia e astrócitos, contribuindo para a neuroinflamação e a degeneração neuronal.
Além disso, evidências sugerem que agregados da proteína α-sinucleína — associados à doença de Parkinson — podem se originar no intestino e alcançar o cérebro por meio do nervo vago. O acúmulo dessa proteína também está relacionado a outras condições neurodegenerativas, como a demência com corpos de Lewy e a atrofia de múltiplos sistemas.
Microbiota e intervenções
Diante desses achados, cresce o interesse em estratégias que modulam a microbiota intestinal. Estudos sugerem que intervenções como probióticos, compostos bioativos e terapias farmacológicas podem contribuir para restaurar o equilíbrio microbiano, melhorar a integridade da barreira intestinal e modular respostas inflamatórias.
Nesse contexto, lactobacilos têm sido investigados por seu potencial papel na saúde intestinal e neurológica. Evidências indicam que essas bactérias podem estar associadas à melhora da motilidade intestinal e à redução de marcadores inflamatórios, embora os mecanismos ainda não estejam completamente esclarecidos.
Um estudo clínico randomizado, duplo-cego e controlado por placebo avaliou os efeitos da suplementação com a cepa Lacticaseibacillus paracasei Shirota (LcS) em pacientes com doença de Parkinson e constipação. Os resultados mostraram associação com melhora dos sintomas gastrointestinais, redução da carga de sintomas gerais e impacto positivo na qualidade de vida.
Além disso, foram observados efeitos favoráveis em aspectos psicológicos, como sintomas de ansiedade e humor — condições frequentemente presentes em pacientes com Parkinson e que podem agravar a incapacidade funcional.
Apesar desses achados, os pesquisadores destacam que a suplementação não promoveu alterações expressivas no microbioma intestinal global, sugerindo que seus efeitos podem ocorrer por mecanismos específicos e ainda não totalmente compreendidos.
Perspectivas
Embora os resultados sejam promissores, a literatura científica aponta que os efeitos dos probióticos — incluindo lactobacilos vivos — ainda são heterogêneos e dependem de fatores como cepa utilizada, dose, duração da intervenção e características individuais dos pacientes.
Assim, apesar do potencial terapêutico, essas abordagens devem ser vistas como complementares, e não substitutas, aos tratamentos convencionais. Novos estudos são necessários para consolidar o papel da microbiota intestinal na fisiopatologia e no manejo da doença de Parkinson.
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As informações são da Assessoria de Imprensa da Yakult, adaptadas pela Equipe MilkPoint.