Que problemas o colostro não consegue resolver?

O fornecimento de colostro além do primeiro dia fortalece a saúde intestinal, reduz doenças e melhora o desempenho dos bezerros, segundo pesquisas recentes. Confira!

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O interesse de pesquisadores em compreender os efeitos do fornecimento de colostro é antigo, e a cada nova publicação, sua importância é ainda mais reforçada, com impactos evidentes tanto em curto quanto em longo prazo.

O registro mais antigo que, com base racional, destaca a relevância do colostro para o desenvolvimento saudável dos bezerros data de 1799. Esse estudo foi conduzido pelo médico alemão Christoph Wilhelm Hufeland, que observou relação direta entre o crescimento rápido e saudável dos bezerros e o consumo de colostro bovino.

 

Desafios e avanços no manejo de colostro

Apesar de diversas pesquisas terem sido realizadas desde então, os princípios básicos da alimentação com colostro visando à transferência bem-sucedida de imunidade passiva só foram estabelecidos entre o final dos anos 1970 e meados da década de 1980. Inicialmente, os estudos se concentraram na primeira alimentação com colostro. Posteriormente, especialmente após a atualização das recomendações publicada em 2020 por Lombard e colaboradores, passou-se a discutir com mais intensidade a importância de uma segunda refeição com colostro.

Diante disso, o fornecimento de colostro no primeiro dia de vida tornou-se consenso, mesmo que ainda seja um grande gargalo em inúmeros sistemas de produção de leite. Você com certeza conhece alguma fazenda que ainda tem problemas com este manejo, mas isso é tema para outro texto ou conversa. 

Nos últimos anos, porém, tem aumentado o interesse pelos benefícios do fornecimento prolongado de colostro ou leite de transição, seja além do primeiro dia ou em momentos estratégicos, como em episódios de doenças ou próximo ao desaleitamento. Protocolos que garantem a oferta de leite de transição por mais dias se aproximam do que ocorreria naturalmente, uma vez que as vacas, após a produção do colostro, continuam a secretar leite com composição significativamente distinta do leite comercializável (Figura 1).

Figura 1. Dinâmica da concentração de IgG, nutrientes (gordura, proteína, lactose) e compostos bioativos (lactoferrina e IGF-1). Adaptado de Renaud e Steele, 2025, com dados gerados por Fischer-Tlustos et al., 2020 e 2024.

Figura 1

 

Bioativos do colostro na saúde dos bezerros

Embora a absorção de anticorpos do colostro deixe de ocorrer após o primeiro dia de vida, as imunoglobulinas ingeridas podem influenciar positivamente o desenvolvimento intestinal e a imunidade local no intestino.

Além disso, outros compostos bioativos — como lactoferrina, fator de crescimento semelhante à insulina, insulina e peptídeo semelhante ao glucagon — presentes tanto no colostro quanto no leite de transição, possivelmente desempenham papéis cruciais na promoção do crescimento, imunidade e desenvolvimento gastrointestinal dos bezerros (Fischer-Tlustos et al., 2021).

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O perfil nutricional único do colostro e do leite de transição, com níveis mais elevados de gordura e proteína e menor concentração de lactose, é essencial para a adaptação metabólica e a termorregulação dos recém-nascidos. Certos ácidos graxos, por sua vez, contribuem para a modulação da resposta imunológica nas primeiras semanas de vida. Além disso, o colostro e o leite de transição podem auxiliar no estabelecimento de microbioma saudável, capacidade essa que vem sendo bastante estudada nos últimos anos.

 

Colostro além das primeiras refeições: o que dizem os estudos

Considerando esses potenciais benefícios, o fornecimento estendido de colostro ou leite de transição, assim como sua suplementação em momentos de maior demanda imunológica, como o desaleitamento, passou a ser objeto de interesse. Com foco nesta demanda, Renaud e Steele (2025) realizaram uma revisão abrangente sobre o uso não convencional do colostro além das duas primeiras refeições.

Ao compilar estudos sobre a oferta de colostro ou leite de transição nos primeiros 2 a 4 dias de vida, observaram-se benefícios associados à saúde intestinal, ao crescimento e ao desempenho dos bezerros. Foram registrados aumentos no comprimento, altura e largura das vilosidades intestinais, maior proliferação celular em alguns segmentos do intestino e aumento da área absortiva (Van Soest et al., 2022; Pyo et al., 2020; Hammon e Blum, 1997). Adicionalmente, observou-se maior peso corporal, melhores condições de saúde e menor incidência de patógenos específicos, no estudo em questão Cryptosporidium parvum (Conneely et al., 2014; Van Soest et al., 2020; Berge et al., 2024).

Pesquisas adicionais exploraram os efeitos da suplementação de longo prazo com colostro ou leite de transição durante 14 e 21 dias. Mais uma vez os resultados foram bastante positivos, com melhoras no ganho médio diário e na eficiência alimentar, além de menor incidência de diarreia e redução da duração dos quadros de doenças respiratórias e diarreia (Kargar et al., 2020; Kargar et al., 2021).

Apesar desses resultados positivos, o volume de colostro ou leite de transição materno necessário para essas alimentações pode ser um limitante. Por isso, investigações recentes têm explorado o uso de substitutos do colostro, seja como dieta líquida total nas duas primeiras refeições (colostragem) ou enriquecendo o leite ou sucedâneo lácteo nas primeiras duas semanas, de maneira a mimetizar o leite de transição.

Os estudos indicaram efeitos benéficos, principalmente na saúde dos bezerros:

  • Menor risco de diarreia,
  • Melhora nos escores umbilical,
  • Melhora na saúde respiratória,
  • Redução da necessidade de uso de antimicrobianos,
  • Menor mortalidade.

Como reflexo disso, o consumo de dieta sólida e o crescimento também foram favorecidos (Berge et al., 2009; Chamorro et al., 2017; McCarthy et al., 2024).

De maneira geral, as evidências apontam para os efeitos positivos do fornecimento prolongado de colostro materno ou seus substitutos, seja nos primeiros dias após o nascimento ou durante as primeiras semanas de vida.

Entretanto, ainda existem muitas lacunas no conhecimento a respeito deste manejo, tendo sido pouco esclarecidos os mecanismos envolvidos com as melhorias observadas. Pesquisas futuras devem aprofundar o estudo das alterações imunológicas, intestinais e na microbiota que possam explicar os benefícios observados. Além disso, é fundamental estabelecer protocolos mais eficientes, que conciliem desempenho zootécnico com viabilidade econômica.

 

Colostro como suporte terapêutico em bezerros

Uma estratégia promissora é o fornecimento de colostro em momentos-chave, aproveitando seus efeitos positivos sem elevar excessivamente os custos. Na medicina humana, o uso de colostro bovino em episódios de doença já foi amplamente recomendado, e continua sendo objeto de pesquisa. Na Índia, por exemplo, a medicina ayurvédica prescreve colostro há milênios, sendo até hoje o primeiro medicamento utilizado por muitas famílias.

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Após um período de estagnação, causado pela introdução de drogas sulfidrilas e antimicrobianos como a penicilina, o interesse científico ao seu potencial terapêutico voltou a crescer. Se você fizer uma busca rápida no Google vai encontrar inúmeros suplementos a base de colostro bovino para consumo humano. Mas, por favor, não vá consumir colostro ordenhado em fazendas e sem a devida avaliação de qualidade sanitária/microbiológica. Lembre-se que nem todo colostro tem adequada qualidade imunológica e microbiológica, podendo também ser uma via de transmissão de uma importante doença silenciosa nos rebanhos nacionais, a Tuberculose. 

Na medicina humana, há registros do uso do colostro bovino para tratar diarreia infantil, com evidência de relação entre essa suplementação e redução no risco de infecções do trato respiratório superior (Li et al., 2019; Halasa et al., 2022). Apesar disso, são escassos os estudos sobre sua aplicação terapêutica em bezerros. Carter et al. (2022), por exemplo, suplementaram bezerros com colostro por oito refeições a partir do início de um quadro de diarreia e os resultados foram resolução mais rápida da diarreia e maior ganho de peso (98g/d a mais) nos 56 dias que sucederam a suplementação.

De forma semelhante, Gamsjäger et al. (2023) desafiaram bezerros com Cryptosporidium parvum e forneceram colostro durante os seis dias subsequentes. Os animais suplementados apresentaram menos sinais clínicos de diarreia, menor necessidade de reidratação oral e melhor resposta imunológica intestinal. Além disso, bezerros que receberam a suplementação com colostro mostraram perfil de microbioma mais semelhante ao de animais não desafiados, sugerindo efeito modulador positivo na saúde intestinal.

As investigações sobre o uso do colostro no tratamento de doenças respiratórias são ainda mais limitadas. Em um único ensaio clínico, foi testada a eficácia de um substituto de colostro em comparação com placebo após um alerta de redução na ingestão de leite (Cantor et al., 2021). Os bezerros receberam 125 g de colostro ou placebo por três dias após este alerta, e os resultados indicaram 1,64 vezes menor probabilidade de desenvolver doença respiratória e 1,50 vez menor chance de apresentar consolidação pulmonar lobular na semana seguinte à intervenção.

Esses achados indicam que o uso do colostro como terapia de suporte em momentos em que o sistema imune dos bezerros está sendo desafiado pode acelerar a recuperação, reduzir a incidência de doenças respiratórias e mitigar impactos negativos no crescimento. No entanto, são necessários ensaios mais robustos, com maior número de animais e diferentes condições de manejo, para confirmar seu potencial terapêutico.

 

Colostro no desaleitamento: efeitos e oportunidades

Outro momento oportuno para suplementação com colostro é o desaleitamento, período estressante e associado a uma importante janela imunológica. Em suínos, a suplementação com colostro bovino por 12 a 14 dias consecutivos ao desmame resultou em:

  • Maior densidade de linfócitos intestinais,
  • Vilosidades mais altas,
  • Maior integridade intestinal,
  • Maior consumo de dieta sólida,
  • Melhor ganho de peso,
  • Maior eficiência alimentar

(King et al., 2008; Huguet et al., 2012).

Curiosamente, há apenas um estudo publicado sobre a suplementação de colostro bovino durante o desaleitamento de bezerros (Edwards et al., 2024). Neste trabalho, os animais suplementados apresentaram 2,79 kg e 2,76 kg a mais que os do grupo controle aos 77 e 84 dias, respectivamente, além de indicativos de maior ganho de peso durante o período experimental. No entanto, não foram observadas melhorias adicionais em parâmetros de saúde ou desempenho.

Os resultados dos estudos revisados aqui ampliam nossa compreensão sobre o papel do colostro, sugerindo que sua suplementação além das primeiras refeições pode trazer benefícios adicionais. Em geral, o uso não tradicional do colostro tem potencial para melhorar a saúde e o desempenho dos bezerros e, possivelmente, influenciar positivamente sua produtividade futura. Apesar dos resultados promissores, mais pesquisas são necessárias para elucidar os mecanismos envolvidos e estabelecer protocolos eficazes e economicamente viáveis para seu uso terapêutico.

Referências bibliográficas

BERGE, A. C. B. et al. Evaluation of the effects of oral colostrum supplementation during the first fourteen days on the health and performance of preweaned calves. Journal of Dairy Science, v. 92, n. 1, p. 286-295, 2009.

BERGE, A. C. et al. The Effect of Colostrum Supplementation during the First 5 Days of Life on Calf Health, Enteric Pathogen Shedding, and Immunological Response. Animals, v. 14, n. 8, p. 1251, 2024.

CANTOR, M. C.; RENAUD, D. L.; COSTA, J. H. C. Nutraceutical intervention with colostrum replacer: Can we reduce disease hazard, ameliorate disease severity, and improve performance in preweaned dairy calves?. Journal of Dairy Science, v. 104, n. 6, p. 7168-7176, 2021.

CARTER, H. S. M. et al. Evaluating the effectiveness of colostrum as a therapy for diarrhea in preweaned calves. Journal of Dairy Science, v. 105, n. 12, p. 9982-9994, 2022.

CHAMORRO, M. F.; CERNICCHIARO, N.; HAINES, D. M. Evaluation of the effects of colostrum replacer supplementation of the milk replacer ration on the occurrence of disease, antibiotic therapy, and performance of pre-weaned dairy calves. Journal of Dairy Science, v. 100, n. 2, p. 1378-1387, 2017.

CONNEELY, M. et al. Effect of feeding colostrum at different volumes and subsequent number of transition milk feeds on the serum immunoglobulin G concentration and health status of dairy calves. Journal of Dairy Science, v. 97, n. 11, p. 6991-7000, 2014.

EDWARDS, K. Y. et al. Evaluation of bovine colostrum replacer supplementation to improve weaning transition in Holstein dairy calves. Journal of Dairy Science, v. 107, n. 8, p. 6330-6339, 2024.

FISCHER-TLUSTOS, A. J. et al. Effects of colostrum management on transfer of passive immunity and the potential role of colostral bioactive components on neonatal calf development and metabolism. Canadian Journal of Animal Science, v. 101, n. 3, p. 405-426, 2021.

GAMSJÄGER, L. et al. Host innate immune responses and microbiome profile of neonatal calves challenged with Cryptosporidium parvum and the effect of bovine colostrum supplementation. Frontiers in cellular and infection microbiology, v. 13, p. 1165312, 2023.

HALASA, M. et al. Bovine colostrum supplementation in prevention of upper respiratory tract infections–Systematic review, meta-analysis and meta-regression of randomized controlled trials. Journal of Functional Foods, v. 99, p. 105316, 2022.

HAMMON, H.; BLUM, J. W. Prolonged colostrum feeding enhances xylose absorption in neonatal calves. Journal of Animal Science, v. 75, n. 11, p. 2915-2919, 1997.

HUGUET, A.; LE DIVIDICH, J.; LE HUËROU-LURON, I. Improvement of growth performance and sanitary status of weaned piglets fed a bovine colostrum-supplemented diet. Journal of Animal Science, v. 90, n. 5, p. 1513-1520, 2012.

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KING, M. R. et al. Dietary bovine colostrum increases villus height and decreases small intestine weight in early-weaned pigs. Asian-Australasian Journal of Animal Sciences, v. 21, n. 4, p. 567-573, 2008.

LI, J. et al. Bovine colostrum and product intervention associated with relief of childhood infectious diarrhea. Scientific Reports, v. 9, n. 1, p. 3093, 2019.

LOMBARD, J. et al. Consensus recommendations on calf-and herd-level passive immunity in dairy calves in the United States. Journal of Dairy Science, v. 103, n. 8, p. 7611-7624, 2020.

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PYO, J. et al. Feeding colostrum or a 1: 1 colostrum: milk mixture for 3 days postnatal increases small intestinal development and minimally influences plasma glucagon-like peptide-2 and serum insulin-like growth factor-1 concentrations in Holstein bull calves. Journal of Dairy Science, v. 103, n. 5, p. 4236-4251, 2020.

RENAUD, D. L.; STEELE, M. A. What can't colostrum do? Exploring the effects of supplementing colostrum after the first day of life: A narrative review. JDS Communications, 2024.

VAN SOEST, B. et al. Effects of transition milk and milk replacer supplemented with colostrum replacer on growth and health of dairy calves. Journal of Dairy Science, v. 103, n. 12, p. 12104-12108, 2020.

VAN SOEST, B. et al. Transition milk stimulates intestinal development of neonatal Holstein calves. Journal of Dairy Science, v. 105, n. 8, p. 7011-7022, 2022.

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Material escrito por:

Cristiane Tomaluski

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Carla Maris Machado Bittar

Carla Maris Machado Bittar

Prof. Do Depto. de Zootecnia, ESALQ/USP

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