Os dois mundos do setor lácteo industrial: em qual sua empresa está?

Em qual desses mundos sua empresa pretende competir - e ela tem as competências necessárias para vencer nele?

Publicado em: - 6 minutos de leitura

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A narrativa sobre o setor lácteo mudou significativamente nos últimos anos, com um aumento no otimismo em relação aos produtos lácteos tradicionais, apesar das ameaças de alternativas plant-based e fermentação de precisão. A demanda por proteínas de alta qualidade e a percepção favorável sobre os lácteos estão crescendo. No Brasil, o setor enfrenta desafios como consolidação e a necessidade de inovação. O Dairy Vision abordará essas tendências, destacando a importância de escolher um nicho competitivo claro no mercado.
Há muitos anos frequento alguns dos principais eventos do setor lácteo no mundo, nos quais são discutidas tendências, oportunidades e ameaças para a indústria. E é interessante observar como a narrativa sobre o futuro do setor mudou radicalmente em menos de uma década.

Antes da pandemia, em muitos desses fóruns, parecia que o futuro das empresas lácteas estava justamente no não lácteo. Plant-based e fermentação de precisão ocupavam boa parte das discussões sobre crescimento e inovação. Dentro dos lácteos tradicionais, uma das poucas categorias vistas como especialmente promissoras era a dos orgânicos — que, apesar do crescimento, nunca deixou de ser um nicho.

O entusiasmo era tamanho que várias empresas tradicionais partiram para aquisições no segmento plant-based. Talvez o caso mais emblemático tenha sido o da Danone, que em 2016 anunciou a compra da WhiteWave por US$ 12,5 bilhões. A WhiteWave faturava US$ 4,2 bilhões e reunia marcas como Silk e Alpro.  A Danone pagou o equivalente a 21,2 vezes o EBITDA estimado para 2016, um múltiplo que ajuda a dimensionar as expectativas depositadas naquele mercado.

Os lácteos tradicionais, por outro lado, eram vistos como uma categoria quase boring: madura, com crescimento marginal e poucas grandes histórias para contar, especialmente nos mercados desenvolvidos.

E havia uma ameaça considerada ainda maior: a fermentação de precisão

Em 2019, a RethinkX publicou um relatório com previsões impressionantes. Segundo o estudo, até 2030 a demanda por produtos derivados de bovinos nos Estados Unidos cairia 70%, o número de vacas seria reduzido pela metade e o mercado de lácteos poderia encolher quase 90% em volume. A tese era que proteínas produzidas por fermentação de precisão se tornariam tão baratas que desencadeariam uma ruptura econômica na cadeia tradicional.

Estamos a menos de quatro anos de 2030. Creio que ninguém em sã consciência acredita que isso ocorrerá (ao menos nesse prazo).  Na realidade, o pêndulo se moveu para o outro lado. Em um evento internacional de que participei recentemente, o ambiente era francamente favorável aos lácteos. E não por uma razão isolada, mas pela convergência de diversos movimentos de consumo.

Saúde e bem-estar ganharam importância nas decisões de compra de alimentos. Proteína deixou de ser uma preocupação de atletas e passou para o mainstream. Nos Estados Unidos, uma pesquisa recente apontou que 86% dos consumidores dizem estar procurando aumentar sua ingestão de proteína. Há ainda a chamada geração prateada: uma população que envelhece e precisa preservar massa muscular, aumentando a relevância de proteínas de alta qualidade.

E agora temos o fenômeno dos medicamentos GLP-1, as chamadas canetas emagrecedoras. Ao reduzirem significativamente o apetite e o consumo de calorias, elas aumentam a importância da densidade nutricional: entregar mais proteína e nutrientes em cada caloria ingerida. Iogurtes proteicos, cottage cheese, bebidas lácteas e outros formatos compactos e ricos em nutrientes encaixam-se muito bem nessa lógica. Não por acaso, já começam a surgir produtos desenvolvidos especificamente para esse consumidor.

Também parece estar ocorrendo uma mudança na própria percepção sobre a saudabilidade dos lácteos. É uma impressão minha, mas repare: a quantidade de críticos ao leite e à produção leiteira parece ter diminuído — ou, pelo menos, sua estridência nas redes sociais é menor hoje do que há alguns anos. Durante esse evento, fiz uma pergunta ao painel, composto por alguns dos principais líderes da indústria mundial: o que pode dar errado? O que de relevante podemos estar deixando de enxergar?

A pergunta pareceu surpreendê-los. Não obtive uma resposta clara. Minha impressão foi que o vento está tão favorável que, por alguns momentos, parece que os perigos simplesmente desapareceram. É justamente aí que mora o risco.

O plant-based, por exemplo, não desapareceu. Conquistou um espaço relevante. Nos Estados Unidos, as bebidas vegetais ainda representam cerca de 14% das vendas em valor da categoria de leite no varejo, movimentando US$ 2,8 bilhões em 2024. Mas o crescimento perdeu força: naquele ano, tanto as vendas em dólares quanto em volume recuaram. É uma categoria estabelecida, mas até agora muito distante da disrupção que alguns imaginavam.

A fermentação de precisão também não desapareceu. Pode se tornar muito relevante em ingredientes específicos e já há produtos comerciais utilizando proteínas produzidas dessa forma. Mas sua trajetória está sendo muito mais lenta e específica do que a substituição generalizada do leite prevista há poucos anos.

E no Brasil?

Aqui também estamos diante de dois mundos. De um lado, as mesmas tendências globais começam a empurrar a indústria para produtos com mais proteína, funcionalidade, conveniência e saudabilidade. Há oportunidades reais de premiumização e agregação de valor. De outro, estamos assistindo simultaneamente a um intenso processo de consolidação do setor.

Nos últimos anos tivemos uma sequência de aquisições. Há empresas sem sucessão. Outras excessivamente endividadas, sofrendo com juros altos, margens estreitas, escala insuficiente ou problemas de gestão. E há também bons negócios cujos acionistas simplesmente concluíram que fazia mais sentido vender para um grande player do que disputar mercado com ele.

A Lactalis talvez seja o símbolo mais evidente desse movimento: em cerca de uma década no Brasil, acumulou aproximadamente R$ 5 bilhões em aquisições, incorporando marcas e operações como Itambé, Batavo e outras. Essa realidade escancara algo importante. Uma categoria pode estar em um excelente momento e, ainda assim, várias empresas dessa categoria podem estar em uma situação muito ruim.

Essa talvez seja a distinção mais importante para os próximos anos...

O primeiro motivo é que, por mais que exista uma onda muito favorável de produtos premium, funcionais e de maior valor agregado, uma parcela enorme do leite continuará sendo direcionada para produtos com características de commodity. E o jogo das commodities é outro.

Ele exige escala, elevada eficiência industrial, excelência comercial, gestão rigorosa de custos e disciplina de capital. Isso se torna especialmente desafiador quando a matéria-prima ganha participação no custo total. Entre julho de 2006 e julho de 2026, por exemplo, o preço recebido pelo produtor de leite no Brasil aumentou 522% em termos nominais, enquanto o IPCA acumulou 197%, o UHT 280%, o leite em pó industrial 196% e a muçarela, 369%. Isso não significa que o produtor tenha ficado necessariamente mais rentável — seus custos também aumentaram —, mas mostra a enorme pressão que a matéria-prima exerceu sobre a equação industrial.

O segundo ponto é ainda mais importante: o fato de existir uma onda favorável não significa que todos irão surfá-la. Algumas empresas conseguirão transformar tendências como proteína, envelhecimento, GLP-1, conveniência e saudabilidade em inovação, marca, margem e crescimento. Outras continuarão essencialmente no jogo de escala e eficiência das commodities — e podem ser excelentes nesse jogo.

O perigo está em ficar no meio: sem escala e eficiência suficientes para vencer nas commodities, mas também sem inovação, marca, canais e capacidade comercial para capturar as oportunidades de maior valor agregado.

Talvez essa seja a pergunta estratégica mais importante para uma indústria de lácteos hoje: em qual desses mundos sua empresa pretende competir — e ela tem as competências necessárias para vencer nele?

No Dairy Vision deste ano, vamos justamente fazer uma imersão de alta qualidade nesse cenário. Vamos discutir as tendências que estão impulsionando o consumo de lácteos, a interface cada vez maior entre alimentação, saúde e nutrição e as oportunidades de inovação e agregação de valor. Mas sem deixar de olhar para o outro lado da equação: commodities, mercado, competitividade e consolidação.

Na prática, serão dois eventos integrados: um dia e meio de Dairy Vision e, na sequência, uma tarde inteira do Fórum MilkPoint Mercado, reunindo palestrantes do Brasil e do exterior. Teremos ainda, pela primeira vez, o Dairy Vision Awards, reconhecendo os principais lançamentos do setor em diferentes categorias e ajudando a dar visibilidade às empresas que estão efetivamente transformando tendências em inovação.

Hoje, o Dairy Vision se consolidou como um dos principais fóruns estratégicos do setor lácteo, não apenas pela qualidade do conteúdo, mas principalmente pela qualidade de quem está na sala: executivos de empresas que, juntas, respondem por mais de 80% do leite processado no Brasil.

O vento está favorável para os lácteos. Mas vento favorável não determina quem vence a regata.

Veja mais em www.dairyvision.com.br

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Material escrito por:

Marcelo Pereira de Carvalho

Marcelo Pereira de Carvalho

Fundador e CEO da MilkPoint Ventures.

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