Mas apesar da disponibilidade destas práticas e tecnologias, o manejo hídrico ainda é deficiente – ou inexistente – nas propriedades leiteiras. Por que isso acontece? Se as soluções existem, o que explica fazer ou não fazer o manejo hídrico? Como os aspectos culturais, econômicos, sociais e ambientais contribuem com a adoção deste manejo?
Foram estas as perguntas que motivaram a Embrapa Pecuária Sudeste e a Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, campus de Tupã, a ir a campo e entender um pouco mais da relação de produtores(as) de leite com o recurso natural água. Os cenários de baixa adoção do manejo hídrico mapeados no estudo expõem um quadro de significativa complexidade. Apesar do desenvolvimento científico e tecnológico, o manejo hídrico permanece sendo sistematicamente negligenciado.
No campo teórico, adotar ou não o manejo de recursos naturais – incluindo a água – na propriedade leiteira está condicionado por diferentes fatores, entre os quais se destacam:
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Condições econômicas: disponibilidade de recursos para investimento e acesso a crédito;
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Organização do trabalho: tempo disponível, divisão de tarefas e prioridades da produção;
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Acesso à informação e assistência técnica: presença (ou ausência) de orientação continuada;
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Valores e experiências anteriores: experiências prévias e percepção de risco por parte do produtor.
Em particular, a primeira condição deve ser observada em atenção ao contexto de pressão econômica e concentração produtiva vigente na cadeia leiteira, que impacta diretamente a viabilidade de propriedades menos tecnificadas. No âmbito do estudo, isso ficou evidente em falas como: “O preço do leite está complicado, a gente não vê mais horizonte nenhum entregando pro laticínio.” (Sanches, 2026).
Neste cenário, a adoção de medidas de cuidado com a água foi diretamente dependente das prioridades e circunstâncias das famílias, como observamos nos trechos: “A gente com dinheiro próprio é difícil você fazer. Tirando esse leite que a gente mexe, o preço que está... É pra se manter.” (Sanches, 2026).
“Porque se começar a querer abraçar tudo que tem que fazer e querer começar a fazer, eu não pago a comida das vacas. E nem dos meus filhos. Então, tem que ir devagar. Vai fazendo conforme vai dando.” (Sanches, 2026).
Tais elementos ajudam a explicar por que determinadas práticas e tecnologias, embora tecnicamente adequadas e socialmente reconhecidas, não são incorporadas de imediato – ou sequer são consideradas no dia a dia da propriedade.
Na rotina da extensão rural, essa constatação tem implicações diretas: não basta recomendar uma solução tecnicamente eficiente se ela não dialoga com a realidade da propriedade. Por exemplo, um sistema de armazenamento e tratamento de dejetos, obrigatório em termos da legislação ambiental, pode ser viável do ponto de vista técnico em uma unidade leiteira, mas sua adoção dependerá de fatores como:
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Objetivos e prioridades do produtor;
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Mão de obra disponível para operação do sistema;
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Percepção do produtor sobre os retornos financeiro e reputacional esperados.
Em outras palavras, a efetividade das recomendações técnicas está diretamente ligada ao seu nível de adaptação à realidade local.
Nesse contexto, o papel do(a) extensionista ganha ainda mais relevância. Para além de um transferidor de tecnologias, a ele(a) cabe fazer confluir os saberes e experiências de sujeitos do campo com aqueles derivados de elaborações técnicas e teóricas.
Isso envolve uma escuta ativa das demandas e limitações dos(as) produtores(as), adaptação das recomendações ao contexto local e a construção participativa de soluções em oposição à prescrição técnica difusionista.
Sendo o manejo hídrico um fenômeno influenciado por fatores de ordem econômica, ambiental, social e cultural, ele não pode ser reduzido a um conjunto de técnicas isoladas. Trata-se de um processo que envolve decisões cotidianas, condicionadas por fatores que vão além do domínio técnico.
Reconhecer essa complexidade é um passo fundamental para ampliar a efetividade das ações de assistência técnica e extensão rural, especialmente aquelas voltadas à gestão da água.
Assim, mais do que perguntar “qual tecnologia adotar”, talvez seja o caso de avançarmos para uma abordagem mais estratégica que seja capaz de reconhecer as vulnerabilidades a que estão submetidas diferentes famílias inseridas na cadeia leiteira, articulando o manejo hídrico com as particularidades de cada realidade produtiva. Neste caminho, todos os atores envolvidos serão capazes de promover a preservação e conservação ambiental com equidade econômica e justiça social.
Referências bibliográficas
SANCHES, Igor Birelo. Os sentidos da água: o manejo hídrico e de dejetos na produção leiteira familiar do município de Tupã, São Paulo, Brasil. 2026. 106f. Dissertação de Mestrado (Mestrado em Agronegócio e Desenvolvimento) – Faculdade de Ciências e Engenharia, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Tupã, 2026.