Quando focamos apenas no sinal clínico ou lesão mais evidente, corremos o risco de ignorar os fatores mais amplos que influenciam a saúde do rebanho. Ao dar um passo atrás, passamos a perceber padrões que não são visíveis de perto. Entenda melhor, lendo a matéria a seguir!
Figura 1 – representação da parábola dos homens cegos e do elefante.
Todos conhecem a antiga parábola dos homens cegos e do elefante: cada um toca uma parte diferente do animal e acredita compreender o todo. Ao examinar a tromba, um dos homens a descreve como semelhante a uma cobra; ao tocar a perna, o outro a compara a um tronco de árvore. Cada observação é correta, mas cada conclusão pode ser profundamente incompleta.
Na medicina veterinária, muitas vezes caímos na mesma armadilha — não por falta de atenção, mas pelo próprio treinamento que nos leva a observar de perto. Em um contexto em que as doenças surgem da interação entre nutrição, imunidade, ambiente, comportamento e manejo, a parábola nos lembra que a verdade não está em uma parte isolada, mas nas relações entre elas.
Por que olhar de perto não é suficiente?
O reconhecimento de padrões é uma das nossas maiores habilidades. Aprendemos a identificar apresentações clássicas e a associá-las a um diagnóstico. Por exemplo, cetose ou outra doença metabólica em uma vaca no pós-parto, ou doença respiratória em uma bezerra que está tossindo. Mas as doenças raramente se limitam a um único sistema do organismo ou a uma única prática de manejo da fazenda.
Uma visão limitada/restrita pode nos enganar. Podemos nos fixar no ponto “principal” porque parece algo evidente e chamativo, enquanto ignoramos o conjunto de forças que realmente molda a resposta do animal.
Os exemplos aparecem em todos os momentos na fazenda: um problema de claudicação em vacas leiteiras atribuído apenas à dermatite digital. Quando a causa principal envolve a cama que está sempre úmida, ventilação inadequada e leves alterações na lotação do galpão. Ou quando ocorre um surto de doença respiratória nas bezerras, que é atribuído à rinotraqueíte infecciosa bovina (IBR), e a verdadeira causa da doença começa pela qualidade do colostro, seguida por alterações na ventilação e ou/ variações climáticas que agravam mais a situação.
Cada diagnóstico contém uma parcela de verdade, mas permanece incompleto quando analisado de forma isolada.
Pensamento Sistêmico: analisando as ‘entrelinhas’
O pensamento sistêmico é a prática de compreender como os elementos interagem para gerar determinados resultados. Ele nos desafia a parar de perguntar o que causou isso e começar a perguntar como esses fatores se combinaram para criar essa situação.
O Prof. Dr. Brian Vander Ley, da Universidade de Nebraska–Lincoln (EUA), falou recentemente sobre o tema. “O pensamento sistêmico é, na verdade, um desdobramento de uma área chamada ‘dinâmica de sistemas’, que envolve modelos matemáticos complexos usados para prever o comportamento de sistemas com base em seus componentes e nas relações entre eles”.
No entanto, o pensamento sistêmico remove a parte matemática. “Trata-se de um conjunto de ferramentas, processos e princípios que nos permite concentrar a atenção nas relações entre as partes do sistema e não apenas em algumas partes isoladamente.”
Um sistema não é apenas uma lista de componentes. Engloba diversas características, como:
- A relação direta entre nutrição e imunidade da vaca;
- A forma como a ventilação interage com a carga de patógenos do ambiente;
- Como o comportamento do tratador ou demais colaboradores do manejo, influencia a fisiologia do estresse dos animais;
- Como as decisões de uma semana se transformam em padrões de doença que vão ocorrer no mês seguinte.
A analogia do iceberg também se aplica aqui: o que vemos na vaca é apenas uma pequena fração do que realmente está acontecendo. Os fatores mais relevantes que impulsionam a doença permanecem abaixo da superfície — invisíveis, a menos que procuremos da forma correta.
A ideia do pensamento sistêmico está em reconhecer que as doenças são interconectadas. Não surgem de um único fator, mas de vários atuando ao mesmo tempo, às vezes amplificando uns aos outros, às vezes se compensando.
Em outras palavras, o elefante não é apenas tromba + perna + orelha. O elefante é o conjunto de relações que conectam essas partes e as transformam em um organismo vivo.
Autores:
José da Páscoa Nascimento Neto
Vitória Ferreira Vieira
Ricarda Maria dos Santos
Material traduzido e adaptado - Andrea Bedford. Seeing the Whole Elephant: Systems Thinking and Animal Health. Disponível em: https://www.dairyherd.com/seeing-whole-elephant-systems-thinking-and-animal-health?utm_medium=email&_hsenc=p2ANqtz-_QrQBtZQugm-u9uKux6O12PICJ_zNlPIDtj9Fyc5F6kZILPWC0uTJ3TaKQfd4l1Td0C6XHQ9O1M-qxqfrlIEN3zdx3_w&_hsmi=392673192&utm_content=392673192&utm_source=hs_email