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  2. Produção de leite

Qualidade da ventilação e desempenho de vacas leiteiras

Em nosso país o estresse por calor se não for o maior, é um dos maiores "vilões" nas fazendas produtoras de leite. O impacto desse problema é devastador. Leia!

Publicado por: Alexandre M. PedrosoeMaria Antonia Malheiros

Publicado em: 16/10/2023 - 6 minutos de leitura

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Em nosso país o estresse por calor se não for o maior, é um dos maiores “vilões” nas fazendas produtoras de leite. O impacto desse problema sobre a eficiência da produção de leite é devastador. Nos últimos 15 anos diversos trabalhos de pesquisa mostraram de forma muito clara a dimensão desse impacto. Hoje já se entende completamente os diversos efeitos do estresse por calor, com destaque para:

  • Redução significativa na produção leite;
     
  • Prejuízo enorme ao desempenho reprodutivo;
     
  • Prejuízo importante sobre a regeneração do tecido mamário no período seco;
     
  • Produção de colostro de pior qualidade e em menor quantidade;
     
  • Bezerras filhas de vacas que passaram por stress por calor no final da gestação nascem mais leves, desamam mais leves e produzem menos leite na vida adulta em comparação às filhas de vacas que não passaram por stress por calor nesse período.

Mesmo com a grande disponibilidade de informações sobre o tema, ainda é preocupante ver como o impacto do estresse por calor é subestimado em muitas fazendas, em todas as regiões do país. Em períodos de calor muito forte é impossível eliminar esse impacto, mas há muitas possibilidades de ajudar as vacas a lidarem melhor com esse problema, o que é fundamental para que possam se manter saudáveis e eficientes.

Um dos pontos mais importantes para minimizar o estresse por calor é a ventilação adequada, tanto nas instalações onde as vacas permanecem como nas salas de espera e ordenha. E é surpreendente como esse tema é negligenciado nas fazendas. Um trabalho que acaba de ser publicado no Journal of Dairy Science (Reuscher et al. 2023) mostra de forma muito interessante como a qualidade da ventilação sobre as camas das vacas afeta a capacidade de lidar com o stress por calor.

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Os pesquisadores da Universidade de Wisconsin nos EUA compararam 3 condições de ventilação em galpões de Free-Stall: 1) Sem ventilação artificial (SV); 2) Ventiladores ligados a 60% da potência, garantindo velocidade de vento acima de 1m/s a 0,5 m do piso da cama (V60); 3) Ventiladores ligados a 100% da potência (V100).

A tabela 1 abaixo mostra um resumo das condições observadas em cada situação.

Tabela resumo das condições

Observaram-se efeitos bastante interessantes das diferentes condições sobre diversas variáveis, com destaque para os seguintes pontos:

  • A frequência respiratória das vacas avaliada às 14h era significativamente maior para as vacas no tratamento SV (68,7 respirações/minuto) em relação às vacas que receberam ventilação (54,2 resp/min para 60V e 50,7 resp/min para 100V), o que mostra claramente o efeito benéfico da ventilação.
     
  • Na média, para cada incremento de 10 unidades no THI, a frequência respiratória aumentava à base de 17 resp/min. No entanto para as vacas no tratamento SV esse incremento foi de 23 resp/min, enquanto nos tratamentos com ventilação o incremento foi em torno de 14 resp/min, mostrando claramente que as vacas sem acesso à ventilação estavam sofrendo mais com o calor.
     
  • O tempo que as vacas passaram deitadas aumentou á medida que aumentou a velocidade do vento – 13,2h para SV, 13,9h para 60V e 14,2h para 100V.
     
  • A produção de leite foi maior à medida que a velocidade do vento aumentava – 41,0 kg/dia para SV, 42,6 kg/dia para 60V e 43,0 kg/dia para 100V. A diferença entre os dois tratamentos com ventilação não foi significativa, mas a ausência de ventilação reduziu significativamente a produção das vacas.
     
  • O consumo de matéria seca (CMS) também foi afetado pelos tratamentos – 25,6 kg/dia para SV, 26,5 kg/dia para 60V e 27,3 kg/dia para 100V. São diferenças expressivas, que além de afetarem a produção de leite, muito possivelmente resultarão em efeito sobre a variação de escore de condição corporal das vacas.

Esse trabalho apresenta dados muito interessantes e nos permite fazer algumas reflexões importantes. A questão óbvia, sem ventilação adequada sobre as camas, as vacas sofrem muito mais com o calor. Isso vale para qualquer tipo de instalação ou sistema. Quanto pior a ventilação, menos tempo as vacas passam deitadas, o que pode ter diferentes consequências.

Menos tempo de descanso geralmente resulta em menor ingestão de alimentos, o que naturalmente leva a menor produção de leite. Outro problema frequentemente associado ao menor tempo de descanso é o aumento na incidência dos problemas de casco, pelo maior tempo que as vacas passam em pé. Isso também leva a menor produção de leite e piora nos índices reprodutivos.

As respostas observadas no trabalho não diferem muito entre os tratamentos V60 e V100, o que pode indicar que não valeria a pena manter os ventiladores funcionando a mais de 60% da potência. Porém é preciso considerar 2 aspectos: em primeiro lugar que a mesmo no tratamento V60 a velocidade do vento se manteve acima de 1,7m/s na altura da vaca deitada e acima dos 3m/s na altura da vaca em pé. Isso já é muito mais do que costumo observar na maioria das fazendas que visito.

Outro ponto é que mesmo tendo sido realizado durante o verão, na época das avaliações, na localidade onde foi conduzido o trabalho, a intensidade do estresse por calor não era muito elevada. Os pesquisadores destacaram que havia uma queda significativa da temperatura durante a noite, o que diminuiu bastante o desafio das vacas. Se a intensidade do calor fosse maior, possivelmente seriam observadas diferenças maiores entre os tratamentos.

A variável que apresentou maior diferença entre V60 e V100 foi o CMS. A figura 1 abaixo mostra a relação entre essa variável e o THI máximo observado no dia anterior á avaliação, e fica claro que para as vacas no tratamento V100 (linha azul) praticamente não se observou variação no CMS com o aumento no THI máximo. Para as vacas no V60 (linha preta) o CMS caiu com o aumento do THI, resposta que foi ainda mais intensa nas vacas no tratamento VS (linha vermelha).

gráfico

Como a produção de leite pouco variou entre V60 e V100, pode-se inferir que com essa redução de consumo as vacas no V60 possivelmente apresentarão maior perda ou menor taxa de reposição do escore de condição corporal, o que representa um desafio metabólico adicional para esses animais. Considerando essa hipótese, fica claro que manter os ventiladores funcionando à potência máxima é a melhor opção, pensando no bem-estar e saúde das vacas.

Uma questão que também é bastante negligenciada em boa parte das fazendas é a manutenção preventiva dos ventiladores. Isso significa limpar, lubrificar, esticar correias e ajustar o posicionamento dos ventiladores periodicamente. A falta dessa manutenção preventiva leva a uma perda de potência gradual da ordem de 1m/s na velocidade do vento a cada 4-6 meses.

Ventiladores funcionando sem manutenção adequada são um cenário muito ruim, pois o gasto energético desses aparelhos será maior e a qualidade da ventilação será bastante comprometida. É fundamental que as fazendas mantenham programas de manutenção periódica dos ventiladores para que possam funcionar da melhor forma, favorecendo o conforto das vacas, e gastar menos energia.

Em resumo, a ventilação adequada é fundamental para que as vacas tenham condições de sofrer menos com o calor, que em nosso país é extremamente desafiador em boa parte do ano. Há muitas oportunidades de melhorar essa questão nas fazendas apenas adotando-se um bom programa de manutenção periódica e preventiva dos equipamentos. Boa ventilação é fundamental para que as vacas tenham melhores condições de bem-estar e saúde, o que é imprescindível para que sejam eficientes e lucrativas!

 

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Material escrito por:

Alexandre M. Pedroso

Alexandre M. Pedroso

Doutor em Ciência Animal e Pastagens, CowSignals Expert, especialista em nutrição, manejo e bem-estar de bovinos leiteiros.

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Luciano Martins Redu
LUCIANO MARTINS REDU

ENCANTADO - RIO GRANDE DO SUL - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 25/12/2024

Me chamou a atenção neste experimento a provável alta umidade do local! Outra coisa, vacas com 40 litros de média, o THI ideal seria 64?
Alexandre M. Pedroso
ALEXANDRE M. PEDROSO

PIRACICABA - SÃO PAULO - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS

EM 28/12/2024

Luciano, o trabalho aponta que a umidade relativa do ar durante o período experimental variou de 41 a 97%, com média de 76,4%. De fato, valores elevados. No caso do valor ideal de THI para vacas de alta produção, não há nenhuma referência a isso na literatura. Até por quê não existe um "valor ideal", a referência é do valor de 68,a partir do qual considera-se que as vacas passam a sofrer stress por calor. Vacas de alta produção, por consumirem mais matéria seca e produzirem mais calor interno (fermentação ruminal), tendem a sofrer mais com o calor. Faz sentido pensar que para esses animais poderíamos considerar um limiar de THI mais baixo, mas até agora não há consenso sobre isso na comunidade científica.
Eduardo Pelissari
EDUARDO PELISSARI

PIRACICABA - SÃO PAULO

EM 16/10/2023

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