O que fazer para maior profissionalização da produção de lácteos no Brasil?

A profissionalização da cadeia láctea no Brasil envolve uma transformação profunda em todas as suas etapas, do campo ao consumidor final. Confira!

Publicado em: - 7 minutos de leitura

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A agropecuária do Brasil é hoje considerada uma das mais eficientes do planeta. Mas a pouco tempo atrás o País era importador líquido de produtos agropecuários. Um dos fatores relevantes na profissionalização e no ganho de competitividade foi a inserção da agropecuária nos padrões internacionais, tornando o País um grande exportador. Seria esse o caminho, a de uma maior profissionalização da produção de lácteos, dando maior competitividade ao leite brasileiro?

A profissionalização da produção de leite no Brasil tem sido um processo de transformação significativo, mas lento, ao longo das últimas décadas. Historicamente, a atividade leiteira no País sempre foi marcada por práticas rudimentares, com baixa tecnologia e pouco foco em eficiência produtiva. No entanto, o cenário começou a mudar com a introdução de tecnologias avançadas, melhoramento genético de animais e plantas e a capacitação dos produtores. Todavia, um setor mais competitivo e sustentável ainda não se consolidou, quando se analisa as médias. Se considerarmos, por exemplo, o volume de leite inspecionado, como uma referência da profissionalização do setor, a média em relação à produção total do País, no período de 2000 a 2023, foi de 67,8%, sendo que a maior parcela foi de 73,0% em 2017, enquanto na Argentina chega a 93% e no Uruguai a 92,8%.

A profissionalização da cadeia láctea no Brasil envolve uma transformação profunda em todas as suas etapas, do campo ao consumidor final. A modernização, o uso de tecnologias, a melhoria da logística e da qualidade são os pilares que têm possibilitado ao setor obter algum avanço, no atendimento às exigências de um mercado globalizado e cada vez mais seletivo.
Mas o que precisa ser feito, ainda, para que o Brasil possa se profissionalizar e se transformar em um player relevante no mercado internacional de lácteos, deixando de ser importador líquido de derivados lácteos?

Para isto, parece ser necessário superar uma série de desafios como forma de promover a profissionalização em todas as etapas da cadeia produtiva do leite. Isso exige uma abordagem estratégica, que combine investimentos em tecnologia, gestão eficiente e atenção à qualidade às exigências dos mercados internacionais. Abaixo, estão alguns fatores primordiais para a profissionalização da cadeia produtiva do leite no Brasil e sugestões de passos para alcançar a posição de exportador relevante no mercado global de lácteos.

1. Qualidade e padrões sanitários

A melhoria contínua da qualidade do leite cru e dos produtos derivados é um fator essencial. Muitos mercados internacionais, como a União Europeia e os Estados Unidos, exigem padrões sanitários mais rigorosos, especialmente em relação à composição do leite, níveis de contaminação e boas práticas agropecuárias. Para atender a essas exigências, o Brasil precisa continuar investindo na padronização da produção, com foco no controle de qualidade desde a ordenha até o processamento e distribuição. A legislação brasileira considera Contagem de Células Somáticas (CCS) até 500.000 células/mL, enquanto na Argentina e no Uruguai até 400.000 células/mL.

Para melhorar é preciso implementar programas mais robustos de controle sanitário e de melhoria da qualidade do leite, como a erradicação de doenças como brucelose e tuberculose nos rebanhos. Precisa ainda de expandir o uso de certificações internacionais, como HACCP (Análise de Perigos e Pontos Críticos de Controle) e boas práticas agropecuárias (BPA), para garantir a segurança e qualidade dos produtos.

2. Inovação tecnológica e automação

O uso de tecnologias modernas e automação é fundamental para aumentar a eficiência e reduzir os custos de produção, dois fatores que impactam diretamente a competitividade. Tecnologias de precisão, ordenha mecanizada, monitoramento de saúde animal em tempo real, e utilização de softwares de gestão podem ajudar a otimizar a produtividade.

Nesse particular é recomendável investir em tecnologias de monitoramento de rebanhos e manejo de pastagens em tempo real, adotar software de gestão rural, que possibilite acompanhar indicadores como produção de leite, qualidade, custos e eficiência.

3. Capacitação e gestão profissional

O setor de laticínios precisa ser gerido de maneira profissional. Capacitar os produtores e profissionais envolvidos na cadeia produtiva para gerenciar de maneira eficaz seus negócios e propriedades, com foco em eficiência, sustentabilidade e inovação, é crucial para tornar a produção competitiva.

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Nesse particular, será preciso promover programas de capacitação técnica para produtores e trabalhadores do setor, com foco em gestão agrícola, sustentabilidade e boas práticas agropecuárias. Para os produtores é inegável a importância de apoiar iniciativas de associativismo e cooperativismo, possibilitando acesso à tecnologia e mercados mais amplos, além de uma assistência técnica profissional e continuada. O fortalecimento do programa mais leite saudável seria um caminho.

4. Custos de produção do leite

Uma das formas de competir internacionalmente é pela capacidade de ofertar produtos de qualidade a preço competitivos. Preços competitivos depende dos custos de produção, desde a produção da matéria prima leite, passando por toda a infraestrutura da cadeia produtiva, até às gondolas do supermercado. O custo de produção de leite varia bastante, influenciado por fatores como clima, tecnologia, custo de insumos, mão de obra, gestão da propriedade e políticas governamentais.

Dependendo da região e do sistema de produção o custo médio do leite produzido no Brasil é da ordem de R$2,00 a R$2,50. Tem influência sobre os custos os preços de insumos como ração, fertilizantes e combustíveis, além de custos com mão de obra.

Se considerarmos os custos de produção a um dólar de R$5,50, o custo médio no Brasil estaria variando de US$0,40 a US$0,45. Na Argentina e no Uruguai gira em torno de US$ 0,36 por litro. Essa diferença na produção da matéria prima leite tem impactos relevantes na capacidade de competir do País. Considere ainda os chamados custos Brasil que impacta a cadeia produtiva como um todo, notadamente a logística de coleta e distribuição.

5. Infraestrutura e logística

Os desafios não podem se limitar à fazenda produtora de leite. É preciso ter uma visão holística abarcando os diversos desafios ao longo da cadeia produtiva. Para melhorar a competitividade, é crucial melhorar a infraestrutura de transporte e logística de distribuição. O leite e seus derivados são produtos perecíveis, e manter a qualidade durante o armazenamento e transporte é um desafio logístico significativo. A eficiência no transporte refrigerado e a rápida distribuição são essenciais para garantir que os produtos cheguem ao destino final com as mesmas propriedades de quando foram produzidos.

Nesse particular há necessidade de sensibilização dos governos nas diversas esferas de poder, para melhorar as rodovias e acessos às propriedades rurais e aos mercados. As empresas precisam investir em centros de processamento próximos às áreas produtoras, aprimorar as redes logísticas para reduzir o tempo de transporte, a qualidade da refrigeração, o cumprimento de prazos de entrega e de exportação. Comparando as condições e desafios entre o Brasil, Argentina e Uruguai, temos:

desafios Brasil, Argentina e Uruguai

6. Governança da cadeia produtiva

Será preciso construir uma governança da cadeia que torne produtores e laticínios parceiros estratégicos de longo prazo. Para tanto é preciso incentivar a adoção de modelos de governança corporativa nas cooperativas e empresas, promovendo uma gestão eficiente, transparente e com elevada previsibilidade de produção e preços.

7. Sustentabilidade e Certificações Ambientais

A sustentabilidade é cada vez mais um requisito para acessar mercados internacionais. Países da União Europeia e outros mercados desenvolvidos dão grande importância a práticas sustentáveis.

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Estimular o uso de práticas de baixo impacto ambiental, o uso de energias renováveis, a exemplo da energia fotovoltaica, manejo de dejetos e uso e reuso de água como tecnologias sustentáveis para reduzir custo e impacto ambiental, pode ser um diferencial nos mercados internacionais.

8. Adaptação ao mercado internacional

Para exportar com sucesso, é necessário conhecer e atender às exigências específicas de cada mercado, tanto em termos de padrões regulatórios quanto de preferências de consumo. Mercados mais exigentes demandam produtos de alta qualidade, como queijos finos, iogurtes premium e leite orgânico, além de derivados com certificações de origem.

Essa adaptação requer investimento em pesquisas de mercado internacionais para identificar nichos e demandas específicas. Diversificação do portfólio de produtos lácteos, com foco em itens de maior valor agregado, além de adaptar as embalagens e marcas para atender às expectativas culturais e regulatórias de mercados internacionais.

9. Políticas públicas e acesso a mercados

A abertura de novos mercados exige o apoio do governo e a implementação de políticas públicas que incentivem a exportação, como a desburocratização do processo de exportação, incentivos fiscais e acordos comerciais com outros países. A participação do Brasil em acordos multilaterais e em blocos comerciais, como o Mercosul, é fundamental para acesso a novos mercados.

Em síntese, para que o Brasil se torne mais competitivo no mercado de leite e derivados, é necessário um esforço coordenado entre produtores, indústrias, governo e cooperativas. A melhoria da qualidade, adoção de tecnologias, profissionalização da gestão e foco na sustentabilidade serão fatores-chave. Além disso, o Brasil precisa se alinhar às exigências dos mercados internacionais e explorar nichos de alto valor agregado, garantindo competitividade e possibilitando criar bases para uma maior inserção no mercado global de lácteos.

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Rui da Silva Verneque
RUI DA SILVA VERNEQUE

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 04/10/2024

Caro Bellini - artigo muito rico em informações e que apresenta diversas alternativas para a melhoria da cadeia do leite no Brasil. Parabéns. Entendo que as tecnologias na fronteira do conhecimento, como a automação, maior mecanização, etc. são relevantes, mas não é para todos. Serão introduzidas à medida que se tornarem viáveis para cada um e contribuírem efetivamente para redução dos gargalos da atividade, principalmente redução de custos e redução de despesas com mão de obra. Particularmente, entendo que o maior problema para aumentarmos a produção de leite no Brasil é o alto custo de produção. Apesar de ainda pecarmos na qualidade em algumas regiões, o Brasil já possui sistemas de produção muito eficientes com qualidade do leite comparável aos melhores do mundo e com condições plenas para exportar se tiver preço. No entanto, o alto custo dificulta tornarmos um país exportador competitivo, como o fazemos muito bem na soja, no milho, no suco de laranja, açúcar, café, etc. O baixo poder aquisitivo da população limita o aumento no consumo e, como consequência, o crescimento da produção que está no limite do consumo. Atualmente, qualquer aumento significativo da produção leva à redução de preço e ai nos mantemos estagnados, como se observa há 10 anos. Isto só irá mudar se houver aumento no consumo interno e/ou nos tornarmos exportadores de lácteos.
Fico sonhando com uma solução meio "milagrosa" que possa nos tornar também campeões mundiais na produção de leite. Talvez a sugestão do Dr. Duarte seja uma delas, mas se fosse fácil operacionalizá-la tenho certeza que a iniciativa privada já teria a abraçado.
Jose Luiz Bellini Leite
JOSE LUIZ BELLINI LEITE

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - INSTITUIÇÕES GOVERNAMENTAIS

EM 04/10/2024

Prezado Dr. Rui Verneque. Muito obrigado pelos seus instigantes comentários. Sim, realmente as tecnologias de fronteira do conhecimento são poupadoras de terra e mão de obra e, normalmente, intensivas de capital e conhecimento, que muitos não possuem; talvez seja por isto que há uma redução acentuada do número de produtores. Essa concentração no âmbito da produção vai também repercutir na industria à medida que se reduz o numero de produtores acirrando a competição pela matéria prima, por isso, aliança estratégica entre produtores em industria pode significar sobrevivência e crescimento no médio e longo prazo. Também concordo que a saída é a exportação por conta da timidez do crescimento de nosso mercado. Com relação ao custo, precisamos pensar de forma plural. Não é somente o custo da matéria prima, mas o conjunto de toda a cadeia produtiva. A industria, para citar um exemplo tem grande ociosidade; tem ainda o chamado custo Brasil que onera e trava a cadeia como um todo. Assim, nota-se que a equação solução e ou milagrosa é bastante complexa e vai demandar algum tempo até que o setor se ajuste e consiga sobrepor toda essa matrix de desafios. Muito agradecido pelos comentário e posicionamentos sobrios e plenos de relevancia.
Duarte Vilela
DUARTE VILELA

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 04/10/2024

Perfeito Bellini, parabéns pelo artigo tocando em pontos excenciais na profissionalização da produção de leite no Brasil. Se permite, incluo o exitoso modelo de produção integrada em suinos e aves que poderia ser adaptado para o leite. Incluiria ainda identificar nichos de mercado, onde já se produz com eficiência e transformá-los em polos exportadores de leite, se beneficiando de logística e mesmo apoio governamental com incentivo aduaneiros.
Jose Luiz Bellini Leite
JOSE LUIZ BELLINI LEITE

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - INSTITUIÇÕES GOVERNAMENTAIS

EM 04/10/2024

Perfeito Dr. Duarte, a integração, guardadas as diferenças inerentes às produções de suinos/aves e o leite, podem sim ser um grande exemplo a ser seguido. Intende-se que a aliança estratégica e de longo prazo, onde volume a ser entregue pelo produtor e critérios explicitos e previamente acordados de precificação para a matéria prima, pode significar sucesso em futuro não muito distante. Muito obrigado pelo excelente comentário.
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