Juntando as peças do quebra-cabeça da produção leiteira

Bioclimatologia animal: peça-chave na bovinocultura leiteira. Venha descobrir como essa ciência se relaciona com a produção!

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O tangram é um quebra-cabeça chinês, cujas peças tem formatos e tamanhos diferentes e por menor que seja uma delas, esta será  importante para completar o jogo. Fazendo esta analogia, na produção animal damos muita ênfase a duas ou três áreas que consideramos como pilares do sucesso, permitindo termos melhores resultados.

Ao leitor, sugiro um pequeno exercício: pensar em qual ordem de importância colocaria as áreas que acredita serem as que proporcionam maior produtividade num rebanho leiteiro.

Organizando o que você pensou num formato de tangram, ele ficaria parecido com este abaixo?

tangram da produção de leite

A lista começou por genética, depois ficou um pouco na dúvida entre nutrição e sanidade. Seguiu a lista pensando numa sala de ordenha robotizada e num bom manejo geral do rebanho. Onde ficou o conforto/bem-estar térmico dos animais? Ok... pode ter ficado “embutido” no pensamento de manejo geral, ou instalações.

Comparando com as demais áreas de conhecimento, a “bioclimatologia animal” é a ciência que estuda a relação entre as variáveis climáticas e os animais, visando entender os efeitos deletérios do estresse térmico, a fim de reduzir seu impacto e assim preservar o bem-estar animal, gerando consequentemente melhores resultados produtivos e reprodutivos.

Naquela analogia com o quebra-cabeça, a bioclimatologia animal não é a maior ou mais importante peça do jogo, mas, sem ela, as demais ficam incompletas. Ou no nosso caso, sabe-se que sob estresse térmico, a genética não se manifestará no seu ótimo, a sanidade pode ficar comprometida, o comportamento ingestivo será alterado, a eficiência reprodutiva será prejudicada, etc. Existem inúmeras pesquisas ou artigos de revisão que evidenciaram através de quais mecanismos o estresse térmico causa prejuízos na produção leiteira. Para obter um compilado de informações sobre o assunto, consultar Zampieri et al. (2022).

Ao longo de 100 anos aproximadamente, observamos que a produtividade do gado leiteiro aumentou expressivamente, devido aos avanços científicos em muitas áreas. A principal delas foi a genética populacional quantitativa, que começou na década de 1930 a qual alavancou os ganhos em produtividade (GIANOLA e ROSA, 2015). Outras áreas também foram importantes para este progresso, como os desenvolvimentos tecnológicos em equipamentos de ordenha, registros computadorizados que permitiram a identificação precisa das vacas mais produtivas.

Os avanços nas tecnologias reprodutivas, como a inseminação artificial, permitiram que os animais selecionados produzissem vários descendentes. Os avanços na nutrição e no manejo permitiram que os animais atingissem seu potencial genético para que as diferenças genéticas pudessem ser detectadas. A computação permitiu o desenvolvimento de programas para analisar dados de reprodução, fazer a formulação de dietas mais precisas e o gerenciamento de manejos sofisticados. 

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Mesmo com tanta evolução genética, sabe-se que produtividade não “caminha” junto com rusticidade, na verdade, estão em “pratos” opostos da balança. Cabe citar duas pesquisas relevantes neste sentido, as quais comprovaram que o processo de melhoramento genético ao longo de décadas, proporcionou ganhos em produtividade de leite, mas acarretou em menor termotolerância, tanto no Gir leiteiro (SANTANA et al., 2015) como no gado holandês (SANTANA et al., 2017).

Pois bem... vem chegando o verão e precisamos rever as peças do nosso quebra-cabeça! 

O objetivo do presente artigo é recomendar um passo-a-passo para a utilização de informações que permitam identificar o grau de estresse térmico e quando ocorrem os períodos de maior risco térmico para bovinos leiteiros, permitindo assim um melhor uso de estratégias para minimizar os efeitos deletérios decorrentes.

Cabe relembrar que:

  • Os animais apresentam suas diferenças individuais e considerando a dificuldade de tratar cada animal separadamente, devemos ao menos agrupá-los conforme categorias (vacas secas, primíparas, multíparas, nível de produtividade, em tratamento, etc); visando atender suas necessidades térmicas de forma mais precisa.
     
  • Ao falar-se de clima, é equivocado preocupar-se somente com a temperatura do ar. O efeito combinado das diferentes variáveis climáticas  proporciona uma sensação térmica, que precisa ser avaliada quanto ao efeito que causará sobre uma espécie. Por esta razão, recomenda-se o uso de um índice bioclimático, como o Índice de Temperatura e Umidade (ITU), para estimar o grau de estresse térmico ao qual um animal possa estar exposto.

Quanto ao uso de ferramentas para avaliar o grau de estresse térmico dos animais, temos 02 caminhos a seguir:

  • Caminho “longo”: obtendo-se os dados de temperatura (°C) e umidade relativa do ar (%) do local onde os animais encontram-se (à pasto ou dentro de uma instalação), fazendo-se o uso de um termo-higrômetro do tipo datalogger, ou coletando dados climáticos históricos na base de dados do INMET (INMET > Dados meteorológicos > Tabela de dados > Localidade, período, etc).

Com os dados coletados, é possível aplicar as informações na planilha (Figura 1) proposta por Collier et al. (2012) e interpretar o resultado. Ex.: a linha da temperatura de 30°C encontra-se com a coluna de 70% de U.R. na região vermelha (estresse perigoso).

Figura 1 - Planilha para a estimativa do Índice de Temperatura e Umidade (ITU) proposto para bovinos leiteiros. 

Planilha para a estimativa do Índice de Temperatura e Umidade (ITU) proposto para bovinos leiteiros.
Fonte: adaptado de Collier et. al, 2012.

 

  • Caminho “curto”: acessando uma base de dados climáticos e obtendo uma série histórica de variáveis climáticas (Figura 2) já convertida para o Índice de Temperatura e Umidade (para bovinos), a exemplo das informações disponíveis no site do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET > SISDAGRO > Monitoramento > Conforto Térmico Bovino > Gráfico).

Figura 2 - Tela com o resultado do comportamento do ITU para bovinos, ao longo de 10 anos (2014 a 2023), usando como exemplo o município de Maringá-PR.

Tela com o resultado do comportamento do ITU para bovinos, ao longo de 10 anos (2014 a 2023), usando como exemplo o município de Maringá-PR.

 

Neste tipo de análise gráfica, ao posicionar-se o cursor sobre os dados (linha preta), é possível observar quando acontecem os maiores picos de estresse térmico por calor e também mensurar a duração dos períodos de maior desafio (acima da faixa amarela). Pode-se observar, a exemplo do pico destacado na própria imagem, que a cada ano, próximo do início do mês de outubro acontece um pico, que geralmente atinge a faixa considerada de “perigo térmico” para bovinos (linha vermelha).

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Cabe destacar que, para vacas mais produtivas (>35 kg leite/vaca/dia), Collier et al. (2012) recomendam que se considere ITU = 68 como iniciando o estresse térmico por calor (faixa amarela).

Foram apresentadas duas ferramentas práticas, de fácil utilização e que permitem, ao analisar-se dados passados, evidenciar que as variáveis climáticas são cíclicas. O uso de um índice bioclimático validado para uma determinada espécie animal torna as informações climáticas mais compreensíveis quanto ao grau de estresse que nossos rebanhos possam estar submetidos, possibilitando assim planejarmos melhor as alternativas necessárias à promoção do bem-estar animal.

Uma série de modificações ambientais já foram abordadas em publicações anteriores, assim recomenda-se a quem estiver à frente deste tipo de consultoria, que siga preenchendo as peças deste quebra-cabeça!

 

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Referências:
COLLIER, R.J.; HALL, L.W.; RUNGRUANG, S.; ZIMBELMAN, R.B. Quantifying Heat Stress and Its Impact on Metabolism and Performance. Proceedings of  23rd Florida Ruminant Nutrition Symposium. p. 74-84. 2012. 

GIANOLA, D.; ROSA, G.J.M. One hundred years of statistical developments in animal breeding. Annu. Rev. Anim. Biosci., 3 (2015), pp. 19-56.

SANTANA, M.L.; Pereira, R.J. ; BIGNARDI, A.B. ; Vercesi Filho, A.E. ; MENENDEZ-BUXADERA, A. ; EL FARO, L. . Detrimental effect of selection for milk yield on genetic tolerance to heat stress in purebred Zebu cattle: Genetic parameters and trends. Journal of Dairy Science, v. 98, p. 9035-9043, 2015.

SANTANA, M. L.; BIGNARDI, A. B. ; PEREIRA, R. J. ; STEFANI, G. ; EL FARO, L. . Genetics of heat tolerance for milk yield and quality in Holsteins. Animal, v. 11, p. 4-14, 2017

ZAMPIERI, J.P.; BRENNECKE, K.; ZEFERINO, C.P.; ORLANDI, C.M.B. Efeitos do estresse térmico em vacas de leite. 2022. On line. Disponível em: https://www.milkpoint.com.br/artigos/producao-de-leite/efeitos-do-estresse-termico-em-vacas-de-leite-231687/

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Material escrito por:

Jerri Teixeira Zanusso

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Vitória Lopes dos Santos

Vitória Lopes dos Santos

Zootecnista pela UFPEL

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