A alfafa (Medicago sativa L.) é uma planta de muitas utilidades, principalmente na alimentação animal e com ampla distribuição geográfica, podendo ser plantada em todos os biomas nacionais desde que evite áreas alagadiças e com lençol freático inadequado (Figura 1).
Figura 1. Cultivo de alfafa em Lunardelli, PR (Pérsio Sandir D’Oliveira- Embrapa, 2023).
Originária de regiões semiáridas, da Ásia ao Oriente Médio, tem destacada resistência à seca, decorrente do seu sistema radicular profundo, podendo chegar a 3 m. Porém, responde bem a irrigação, garantindo elevada produtividade e regularidade na produção ao longo do ano, com respostas expressivas na produção de feno e de sementes em escala comercial.
Irrigação da alfafa
Existem diversos sistemas de irrigação:
- Por inundação;
- Por sulcos;
- Por aspersão;
- Por gotejamento.
Cada método apresenta suas vantagens, desvantagens e peculiaridades que dependem da cultura, se perene ou anual, assim como dos custos de instalação e de manutenção, sistematização do solo, entre outros.
Para a cultura da alfafa, a irrigação por aspersão tem sido o método mais usado pela forma versátil e por ser adaptável a diferentes tipos de terreno e culturas. O sistema de aspersão mais comum é o de canhão, seguido pelo pivô central, sendo este mais utilizado e recomendável para grandes extensões de áreas com vistas a produção comercial de fenos ou pressecados (Figura 2).
Diversos estudos comprovam os benefícios da irrigação na cultura da alfafa. Em condições experimentais, a produção de matéria seca da alfafa cv. Crioula, quando irrigada a 100% da capacidade de campo, foi 46% maior do que em condição de sequeiro.
Para otimizar a produção de forragem, deve-se manter uma alta disponibilidade de água no solo, para que a planta se mantenha em plena vegetação. Para a produção de sementes, existem duas fases: a inicial, na qual se deve manter alta disponibilidade hídrica; e a final, na qual se deve restringir à disponibilidade hídrica a um grau que induza a planta a iniciar o processo reprodutivo.
A produção de feno de alfafa responde muito bem a irrigação. No Brasil, em condições experimentais, sem irrigação foi possível fazer até 8 cortes/ano para feno e, com irrigação, de 10 a 12 cortes/ano, conseguindo-se próximo de 30 t de feno por hectare. Em geral, a produção de feno de alfafa, com irrigação, é mais de 50% maior do que a produção em sequeiro (sem irrigação).
A produção comercial de sementes de alfafa também responde bem a irrigação. Em Petrolina/PE, a irrigação por gotejamento resultou na produção de 3.800 kg/ha. Já em São Domingos/PB, a cultivar Crioula irrigada por gotejamento, resultou na produção de 1.285 kg/ha.
Fatores que influenciam a irrigação
Além do método de irrigação adequado, a eficiência desta prática depende da textura de solo: em solos arenosos, com baixa capacidade de retenção de água, o turno de regas é diferente daquele utilizado em solos argilosos. O cálculo do balanço hídrico é fundamental para a eficiência da irrigação.
Figura 2. Irrigação por pivô central em alfafa (Erich dos Reis Duarte – Unopar, 2025).
A qualidade da água utilizada também é importante ponto a se considerar, pois, embora a alfafa seja uma cultura moderadamente resistente à salinidade, em comparação com gramíneas forrageiras, existem limitações ao teor de sais: com atenção ao limite de condutividade elétrica (2,0 dS/m); assim como ao acúmulo de sódio. Em regiões áridas com solos muito salinos, podem ser um problema para seu cultivo.
Por fim, a necessidade hídrica da cultura varia, de acordo com seu estádio de desenvolvimento, desde a plântula recém-germinada até a planta adulta, seja no ponto de corte para feno ou no momento da colheita de sementes.
Retorno econômico
Em simulações elaborada por técnicos da Embrapa, o feno de alfafa irrigado foi mais competitivo do que o algodão, o milho ou a soja, destacando-se como uma alternativa rentável ao produtor rural, principalmente aqueles localizados em áreas que tradicionalmente usam irrigação, a exemplo das área irrigadas de MATOPIBA.
Na página seguinte, a Tabela 1 apresenta a análise da receita líquida entre o feno de alfafa e três commodities tradicionais (algodão, milho, soja). Mesmo com maior custo de produção, o feno de alfafa com irrigação apresentou a maior receita líquida de todas as culturas. Portanto, é uma cultura interessante para o produtor rural.
Um ponto favorável à introdução da cultura da alfafa em áreas de produção de commodities é a economia de fertilizantes nitrogenados na cultura subsequente, quando em sistema de rotação com gramíneas, decorrente da fixação biológica de nitrogênio.
Além do mais, outros fatores favorecem a rotação com a alfafa:
- Melhora a estrutura do solo devido ao sistema radicular profundo,
- Auxilia no controle da erosão do solo,
- Reduz a incidência de plantas daninhas e quebra os ciclos de pragas e doenças muito comuns com períodos longos em monoculturas.
Em sistemas de rotação de culturas, principalmente com o milho e o algodão, prática realizada em várias partes do mundo, a alfafa foi capaz de fixar 470 kg/ha de nitrogênio (N), podendo chegar a 800 kg/ha dependendo da região e tipo de solo. O efeito residual do N no solo se estende por até um ano. Em condições experimentais, o melhor modelo testado de rotação foi o de 3 anos com alfafa ou no momento que o stand começa a reduzir, seguidos de 2 a 3 anos com uma gramínea (algodão ou milho), tendo sido relatados como estimuladores de aumento de produtividade da cultura sucessora.
Tabela 1. Análise comparativa da receita líquida com a produção e comercialização do feno de alfafa com outras culturas (região Nordeste).
|
Produto |
Produtividade (kg/ha/ano safra) |
Preço unitário (R$/kg) |
Receita bruta (R$/ha) |
Custo de produção (R$/ha) |
Receita líquida (R$/ha/ano safra) |
|
Algodão em pluma1 |
1.945 |
9,96 |
19.372,20 |
17.991,25 |
1.380,95 |
|
Milho 1ª safra1 |
4.077 |
1,29 |
5.259,33 |
3.424,68 |
1.834,65 |
|
Milho 2ª safra1 |
2.093 |
1,19 |
2.490,67 |
1.758,12 |
732,55 |
|
Soja1 |
3.560 |
1,90 |
6.764,00 |
5.138,00 |
1.626,00 |
|
Feno de alfafa, com irrigação2 |
18.885 |
2,15 |
40.602,75 |
26.061,30 |
14.541,45 |
Vilela e Leite (2020). 1. CONAB (2025). 2. Dados de produtor rural. CONAB. Companha Nacional de Abastecimento. Custos de Produção. Disponível em: portaldeinformacoes.conab.gov.br/custos-de-producao.html. Acesso em: 08.ago.2025
VILELA, D.; LEITE. J.L.B. Alfafa como alternativa para agricultura irrigada no MaToPiBa. AIBA Rural, Salvador, v.6, n.17, p.72-73, jul./dez. 2020.