Efeito da irrigação na cultura da alfafa

Produzir alfafa com irrigação pode garantir até 30 t/ha de feno e ampliar a receita líquida do produtor. Veja os benefícios e métodos mais eficientes.

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A alfafa (Medicago sativa L.) é uma planta versátil, amplamente utilizada na alimentação animal e resistente à seca, com sistema radicular profundo. A irrigação é crucial para aumentar a produtividade, sendo o método por aspersão o mais comum. A produção de feno irrigado é significativamente superior à de sequeiro. A alfafa também é rentável, apresentando alta receita líquida em comparação a culturas como algodão, milho e soja. Além disso, contribui para a fixação de nitrogênio no solo, melhorando a rotação de culturas.

A alfafa (Medicago sativa L.) é uma planta de muitas utilidades, principalmente na alimentação animal e com ampla distribuição geográfica, podendo ser plantada em todos os biomas nacionais desde que evite áreas alagadiças e com lençol freático inadequado (Figura 1).

Figura 1. Cultivo de alfafa em Lunardelli, PR (Pérsio Sandir D’Oliveira- Embrapa, 2023).

Figura 1

 

Originária de regiões semiáridas, da Ásia ao Oriente Médio, tem destacada resistência à seca, decorrente do seu sistema radicular profundo, podendo chegar a 3 m. Porém, responde bem a irrigação, garantindo elevada produtividade e regularidade na produção ao longo do ano, com respostas expressivas na produção de feno e de sementes em escala comercial. 

 

Irrigação da alfafa

Existem diversos sistemas de irrigação:

  • Por inundação;
  • Por sulcos;
  • Por aspersão;
  • Por gotejamento.

Cada método apresenta suas vantagens, desvantagens e peculiaridades que dependem da cultura, se perene ou anual, assim como dos custos de instalação e de manutenção, sistematização do solo, entre outros.

Para a cultura da alfafa, a irrigação por aspersão tem sido o método mais usado pela forma versátil e por ser adaptável a diferentes tipos de terreno e culturas. O sistema de aspersão mais comum é o de canhão, seguido pelo pivô central, sendo este mais utilizado e recomendável para grandes extensões de áreas com vistas a produção comercial de fenos ou pressecados (Figura 2).

Diversos estudos comprovam os benefícios da irrigação na cultura da alfafa. Em condições experimentais, a produção de matéria seca da alfafa cv. Crioula, quando irrigada a 100% da capacidade de campo, foi 46% maior do que em condição de sequeiro.

Para otimizar a produção de forragem, deve-se manter uma alta disponibilidade de água no solo, para que a planta se mantenha em plena vegetação. Para a produção de sementes, existem duas fases: a inicial, na qual se deve manter alta disponibilidade hídrica; e a final, na qual se deve restringir à disponibilidade hídrica a um grau que induza a planta a iniciar o processo reprodutivo. 

A produção de feno de alfafa responde muito bem a irrigação. No Brasil, em condições experimentais, sem irrigação foi possível fazer até 8 cortes/ano para feno e, com irrigação, de 10 a 12 cortes/ano, conseguindo-se próximo de 30 t de feno por hectare. Em geral, a produção de feno de alfafa, com irrigação, é mais de 50% maior do que a produção em sequeiro (sem irrigação).

A produção comercial de sementes de alfafa também responde bem a irrigação. Em Petrolina/PE, a irrigação por gotejamento resultou na produção de 3.800 kg/ha. Já em São Domingos/PB, a cultivar Crioula irrigada por gotejamento, resultou na produção de 1.285 kg/ha. 

 

Fatores que influenciam a irrigação

Além do método de irrigação adequado, a eficiência desta prática depende da textura de solo: em solos arenosos, com baixa capacidade de retenção de água, o turno de regas é diferente daquele utilizado em solos argilosos. O cálculo do balanço hídrico é fundamental para a eficiência da irrigação.

Figura 2. Irrigação por pivô central em alfafa (Erich dos Reis Duarte – Unopar, 2025).

Figura 2

 

A qualidade da água utilizada também é importante ponto a se considerar, pois, embora a alfafa seja uma cultura moderadamente resistente à salinidade, em comparação com gramíneas forrageiras, existem limitações ao teor de sais: com atenção ao limite de condutividade elétrica (2,0 dS/m); assim como ao acúmulo de sódio. Em regiões áridas com solos muito salinos, podem ser um problema para seu cultivo.

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Por fim, a necessidade hídrica da cultura varia, de acordo com seu estádio de desenvolvimento, desde a plântula recém-germinada até a planta adulta, seja no ponto de corte para feno ou no momento da colheita de sementes.

 

Retorno econômico

Em simulações elaborada por técnicos da Embrapa, o feno de alfafa irrigado foi mais competitivo do que o algodão, o milho ou a soja, destacando-se como uma alternativa rentável ao produtor rural, principalmente aqueles localizados em áreas que tradicionalmente usam irrigação, a exemplo das área irrigadas de MATOPIBA. 

Na página seguinte, a Tabela 1 apresenta a análise da receita líquida entre o feno de alfafa e três commodities tradicionais  (algodão, milho, soja). Mesmo com maior custo de produção, o feno de alfafa com irrigação apresentou a maior receita líquida de todas as culturas. Portanto, é uma cultura interessante para o produtor rural.

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Um ponto favorável à introdução da cultura da alfafa em áreas de produção de commodities é a economia de fertilizantes nitrogenados na cultura subsequente, quando em sistema de rotação com gramíneas, decorrente da fixação biológica de nitrogênio.

Além do mais, outros fatores favorecem a rotação com a alfafa:

  • Melhora a estrutura do solo devido ao sistema radicular profundo,
  • Auxilia no controle da erosão do solo,
  • Reduz a incidência de plantas daninhas e quebra os ciclos de pragas e doenças muito comuns com períodos longos em monoculturas. 

Em sistemas de rotação de culturas, principalmente com o milho e o algodão, prática realizada em várias partes do mundo, a alfafa foi capaz de fixar 470 kg/ha de nitrogênio (N), podendo chegar a 800 kg/ha dependendo da região e tipo de solo. O efeito residual do N no solo se estende por até um ano. Em condições experimentais, o melhor modelo testado de rotação foi o de 3 anos com alfafa ou no momento que o stand começa a reduzir, seguidos de  2 a 3 anos com uma gramínea (algodão ou milho), tendo sido relatados como estimuladores de aumento de produtividade da cultura sucessora.

Tabela 1. Análise comparativa da receita líquida com a produção e comercialização do feno de alfafa com outras culturas (região Nordeste).

Produto

Produtividade  (kg/ha/ano safra)

Preço unitário (R$/kg)

Receita bruta  (R$/ha)

Custo de produção  (R$/ha)

Receita líquida  (R$/ha/ano safra)

Algodão em pluma1 

  1.945

9,96

19.372,20

17.991,25

  1.380,95

Milho 1ª safra1 

  4.077

1,29

5.259,33

3.424,68

  1.834,65

Milho 2ª safra1

  2.093

1,19

2.490,67

1.758,12

    732,55

Soja1 

  3.560

1,90

6.764,00

5.138,00

  1.626,00

Feno de alfafa, com irrigação2 

18.885

2,15

40.602,75

26.061,30

14.541,45

Referências bibliográficas

Vilela e Leite (2020). 1. CONAB (2025). 2. Dados de produtor rural. CONAB. Companha Nacional de Abastecimento. Custos de Produção. Disponível em: portaldeinformacoes.conab.gov.br/custos-de-producao.html. Acesso em: 08.ago.2025

VILELA, D.; LEITE. J.L.B. Alfafa como alternativa para agricultura irrigada no MaToPiBa. AIBA Rural, Salvador, v.6, n.17, p.72-73, jul./dez. 2020.

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Material escrito por:

Pérsio Sandir D'Oliveira

Pérsio Sandir D'Oliveira

Pesquisador da Embrapa Gado de Leite

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