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O indicador OEE é adequado para a realidade dos laticínios?

POR PAULO HENRIQUE RODRIGUES JÚNIOR

INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 22/09/2021

7 MIN DE LEITURA

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A busca por processos cada vez mais eficientes faz parte da história da indústria. Veja bem, no passado o ser humano deixava o leite “azedar” no tempo para obter “um alimento dos deuses”: O queijo! Hoje em dia já temos as mais modernas “queijomatics” onde nem se vê massa ou soro. Elas produzem toneladas de queijo por hora no menor tempo possível. Tudo no mesmo padrão ao apertar de um botão.

Na gestão da indústria as coisas não são diferentes. Os métodos evoluem e nós não podemos ficar para trás. Para isso, temos à disposição uma série de ferramentas, na quais podemos destacar os indicadores de desempenho.

Dentre estes indicadores para a indústria, o OEE (Overall Equipment Effectiveness ou Indicador de eficiência de equipamento) desponta como um dos mais utilizados nas indústrias em geral. Mas será que ele é adequado para a realidade da indústria do leite?

 

Contextualizando o OEE 

Respondendo à pergunta acima, o OEE, como o próprio nome já diz, é um indicador voltado para equipamentos. A maioria dos laticínios são grandes parques tecnológicos onde só se vê inox, bombas e máquinas. Até mesmo fazendas já vivem esta realidade. Os equipamentos respondem muito pela produtividade e impactam diretamente nos resultados da empresa. E,nesse sentido, o OEE é sim, bem adequado à indústria de laticínios.

Falando um pouco mais do indicador em si, ele foi desenvolvido em 1981, por Seichii Nakajima, como parte da metodologia de gestão TPM (Total Productive Maintenance ou Manutenção produtiva total). Em resumo, o TPM se baseia em extrair o desempenho máximo dos equipamentos de uma linha. Para saber qual a eficiência da linha, é necessário medir. Esse é o objetivo do OEE.

Porém, não é necessário ter o TPM implantado para utilizar o OEE. Isso por si só é uma grande vantagem. Claro que o melhor resultado em sinergia com o TPM, mas não é um pré-requisito. Na verdade, o OEE pode ser a porta de entrada para o TPM ou outra metodologia de gestão mais avançada, pois a evolução é natural.

Aplicar estas ferramentas acaba por nos levar ao ciclo da melhoria contínua. E aí, não tem volta. Mas afinal, o que é o OEE, de fato?

 

Três indicadores 

O OEE é um produto de três métricas dentro do processo. Ele se baseia em três informações fornecidas pelo equipamento ou pela linha de produção, sendo elas:

1) A quantidade de horas que o equipamento está parado ou disponível para a produção;

2) A quantidade de produtos que o equipamento está alcançando durante seu funcionamento;

3) A quantidade de produtos que saem adequados e, em contrapartida, a quantidade de produtos com defeito ou não conformes.

Cada um dos itens acima é um fator dentro do OEE.

 

A disponibilidade (1) é a porcentagem de horas que o equipamento esteve em funcionamento durante o dia. Por exemplo, se seu pasteurizador precisa funcionar 20 horas por dia e precisou parar por 4 horas para trocar uma bomba, sua disponibilidade é de 16 horas, ou 16/ 20 = 80%.

A performance (2) é o mesmo que a produtividade, ou seja, qual é a produção média por hora em comparação com a capacidade nominal do equipamento. No mesmo exemplo do pasteurizador, se sua capacidade instalada é de 30 m³/h e durante essas 16 horas ele produziu o equivalente à 27 m³/h, sua performance foi de 27/30 = 90%.

Já a qualidade (3) diz respeito à porcentagem de produtos conformes que a linha produziu. Ainda no exemplo do pasteurizador, suponha que, ao fim do dia, 2.000 litros de leite foram segregados, pois, não atingiram a temperatura mínima de 72°C — exemplo bem surreal, afinal existe a válvula de desvio ou retorno que impediria que este leite fosse adiante). Como a produção do dia foi de 432.000 litros de leite, o fator de qualidade seria de 432.000-2.000 = 430.000/432.000 = 99,5%.

Portanto, o OEE é a multiplicação dos três fatores:  80% x 90% x 99,5% = 71,6%

 

Lembre-se: tudo está conectado!

Existe outra forma de obter o mesmo número do OEE, mas de forma direta. No mesmo caso acima, podemos calcular a programação do dia, que seria a capacidade do equipamento x as horas em funcionamento, ou seja, 30 VEZES 20 igual a 600 metros cúbicos ou 600.000 litros.

Agora podemos pegar diretamente o que foi produzido e dividir pelo programado, ou sejja, 430.000/600.000 = 71,6%

Porém, isso não é OEE. Embora seja o mesmo número, o impacto não é o mesmo. O OEE depende dos fatores que o compõe, pois, só assim ele gera as ações necessárias, que é o propósito de todo indicador.

Ao fazer a conta direta, eu vejo que a eficiência está baixa, mas onde atuar para melhorar? Lembre-se, um indicador só é bom se ele te dá uma ideia do que fazer resolver os problemas. Por isso, o OEE calculado a partir dos fatores traz resultados, pois além de mostrar se o desempenho global está bom ou não, ele te mostra onde começar a agir.

Olhando para estes números, eu sei que foi perdido um bom tempo em manutenção. Também posso pensar se não é hora de abrir o pasteurizador para uma revisão, afinal seu fluxo diminuiu bastante em relação ao nominal. Posso tomar ações mais direcionadas, e focar no local certo.

No final das contas, se eu acreditar que meu OEE está ruim, vou ter que começar a investigar e vou acabar descobrindo onde estão os problemas. Mas aí já podem ter passado 5 dias ou um mês. Sendo que estes números podem ser gerados e acompanhados diariamente. Essa é a vantagem de trabalhar com um método.

 

Atenção com a qualidade

É muito importante se atentar para a qualidade dentro do OEE, especialmente nas indústrias de alimentos. Vamos pensar no fato citado acima sobre o leite não atingir a temperatura de pasteurização.

Em um pasteurizador real, sabemos que este leite entraria em recirculação, logo, ele seria pasteurizado sem grandes problemas. Eu não teria, portanto, esses 2.000 litros de leite não conformes ao final. O fator de qualidade seria de 100%, correto?

Pois bem, aqui entra o conceito de “Com qualidade e de primeira”. Se eu tenho que refazer uma etapa para entregar o produto, isso não indica que o processo está eficiente. Pelo contrário, eu estou precisando de mais tempo ou mais recurso para entregar o mesmo resultado. Retrabalho, de qualquer nível, deve ser contabilizado como qualidade.

No fim, o OEE será o mesmo, afinal se eu não contar a qualidade, ela impactará na performance (lembre-se, está tudo conectado), porém é importante separar os dois fatores justamente para atuar na raiz do problema.

Outro ponto sensível para o leite é entender quando esta qualidade se deve ao equipamento. Como alimentos são perecíveis e passam por diversas etapas, é importante entender se é mesmo um problema de máquina ou de matéria-prima.

Se algumas caixinhas de leite UHT  que ficaram retidas por causa de uma coagulação doce, isso não deve impactar no OEE da máquina de envase. Por outro lado, se essa retenção se deve a uma pós contaminação por má selagem, o fator de qualidade deverá indicar esta falha.

 

O OEE não diz nada!

Nenhum indicador diz. Com os exemplos acima é fácil perceber que as ações dependem da nossa análise crítica. A equipe deve conhecer os processos para traçar as melhores estratégias. O método apenas padroniza a forma de fazer e assim auxilia a direcionar as ações.

Neste ponto, o OEE também facilita a compreensão por meio da comparação. Eu costumo dizer que indicadores são para uma eterna competição contra nós mesmos. Em outras palavras, a indústria buscando ser melhor a cada dia.

Para isso, é sempre bom abusar das ferramentas auxiliares. O OEE vai muito bem combinado com Pareto, Curva ABC, 5W2H e PDCA, assim como outros indicadores estratégicos. É inevitável evoluir a gestão da empresa quando uma cultura de indicadores é verdadeiramente implementada.

Ao trabalhar com OEE, antes de olhar os World Class OEE (>85%), olhe para sua realidade. Principalmente no início dos monitoramentos, 45% de índice global é bem normal seja para alguma linha, ou a média da fábrica inteira. E subir 5% nesse indicador pode ser bem mais trabalhoso do que parece.

Mas é só o início. Na sua empresa, o OEE já chegou?

 

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*Fonte da foto do artigo: Freepik

PAULO HENRIQUE RODRIGUES JÚNIOR

Bacharel em Laticínios e Mestre em Ciência e Tecnologia de Alimentos pela UFV. Atuo no setor de P&D e Processos na indústria desde 2015. Consultor e Fundador do Blog "Proelementar".

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