O queijo consolidou-se como o principal motor de crescimento da indústria láctea global. Em um cenário marcado pela volatilidade dos preços do leite, empresas têm direcionado investimentos para produtos de maior valor agregado, ampliando capacidade produtiva e fortalecendo sua presença nesse segmento.
Esse movimento já se reflete no comércio internacional. Desde 2017, o volume global de queijo negociado cresceu cerca de 40%, impulsionado principalmente pelos investimentos realizados pelas sete maiores empresas de lácteos do mundo. Apesar da expansão da oferta, a expectativa de uma queda ampla nos preços não encontra respaldo no mercado. A tendência observada atualmente é mais complexa e depende diretamente da disponibilidade de leite em cada região.
O queijo cheddar, por exemplo, já apresenta um cenário de maior oferta. Segundo dados da Global Dairy Trade (GDT), seus preços recuaram cerca de 6,5% nos últimos 12 meses. Isso ocorre porque os principais países produtores — Estados Unidos, Nova Zelândia e Oceania — continuam registrando crescimento na produção de leite. Nos Estados Unidos, a oferta aumentou aproximadamente 2% em relação ao ano passado, enquanto a Nova Zelândia registra expansão próxima de 4%, com perspectivas positivas para a próxima temporada.
Oferta elevada reduz pressão sobre o cheddar
Para Tom Booijink, especialista sênior em lácteos do Rabobank, os investimentos realizados pelos fabricantes norte-americanos na ampliação da capacidade industrial tornam improvável um cenário de escassez de cheddar no curto prazo. A situação, porém, é bastante diferente para os queijos cuja produção depende majoritariamente da União Europeia, como a muçarela.
As recentes ondas de calor reduziram significativamente a produção de leite em importantes países produtores, como França e Alemanha. No Reino Unido, uma análise da Unidade de Inteligência Energética e Climática apontou um declínio considerado sem precedentes durante a onda de calor de junho, com queda diária de até 4,3% na captação e um déficit acumulado de aproximadamente 16,5 milhões de litros em apenas nove dias.
Com menor disponibilidade de leite e demanda aquecida, a muçarela passou a registrar valorização. Atualmente, o queijo é negociado em torno de € 3.448 por tonelada, superando o cheddar, cotado próximo de € 3.138 por tonelada — uma inversão incomum para o mercado europeu. "Historicamente, o cheddar costuma valer mais que a muçarela. Hoje ocorre exatamente o contrário, uma situação bastante excepcional", observa Booijink.
Mercado deve ficar mais polarizado
Na avaliação do Rabobank, o comportamento dos preços dependerá, sobretudo, da evolução da produção de leite nas principais regiões exportadoras.
Enquanto Estados Unidos, Austrália e Nova Zelândia devem continuar ampliando sua oferta, a União Europeia enfrenta um cenário mais desafiador. Além das condições climáticas, a região conta hoje com um rebanho leiteiro menor e produtores menos estimulados a expandir a produção.
Outro fator que limita esse crescimento é a rentabilidade das fazendas leiteiras. Com os preços do leite significativamente abaixo dos registrados há um ano e custos elevados de insumos, como diesel e fertilizantes, há pouco incentivo econômico para aumentar a produção.
Como resultado, o mercado global de queijos tende a ficar ainda mais segmentado. De um lado, o cheddar deve continuar pressionado pela maior oferta internacional. De outro, queijos mais dependentes da produção europeia, como a muçarela, podem permanecer sustentados por preços mais elevados diante da restrição na disponibilidade de leite.
Artigo escrito por Harry Holmes, publicado no Dairy Reporter, traduzida pela Equipe MilkPoint.
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