Produção de leite nos EUA cresce, mas enfrenta gargalo na mão de obra

Enquanto a produção de leite cresce em estados como Kansas e Dakota do Sul, a dependência de mão de obra imigrante e a falta de vistos adequados colocam a expansão do setor em risco nos EUA.

Publicado por: MilkPoint

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A produção de leite nos EUA cresce em estados como Kansas e Texas, mas enfrenta desafios na contratação de mão de obra, em grande parte composta por imigrantes. Um incidente violento em Kansas destacou a dependência do setor em relação a esses trabalhadores, muitos dos quais não têm status migratório regular. O programa de vistos H-2A, voltado para trabalhos temporários, não atende às necessidades permanentes da pecuária leiteira, que exige cuidados diários com os animais. A falta de trabalhadores experientes pode comprometer a operação das fazendas.
A produção de leite dos Estados Unidos vive uma aparente contradição. De um lado, a atividade cresce em estados como Kansas, Texas e Dakota do Sul. Do outro, muitas das fazendas responsáveis por essa expansão dependem de uma mão de obra que enfrenta incertezas quanto à possibilidade de permanecer e trabalhar legalmente no país.

A questão ganhou novamente atenção após um grave episódio ocorrido no Kansas. Em 31 de agosto, uma briga entre funcionários de uma empresa em Deerfield terminou com a morte de um trabalhador. O caso ocorreu em uma operação de criação de bezerras e novilhas com capacidade para até 100 mil animais. 

Para além do episódio, porém, o caso trouxe novamente à tona um problema muito mais amplo para a cadeia leiteira americana: quem vai trabalhar nas fazendas? Segundo dados da National Milk Producers Federation, os imigrantes representam mais da metade de toda a mão de obra das fazendas leiteiras dos Estados Unidos. E essa dependência ocorre justamente em um momento de expansão da produção em algumas regiões do país.

Produção cresce, mas depende de pessoas

O Kansas é um exemplo dessa transformação. Em um ano, o estado acrescentou 29 mil vacas ao rebanho e registrou crescimento de 13,9% na produção, o maior avanço do país no período citado pela publicação. Em agosto de 2026, os Estados Unidos produziram aproximadamente 9 bilhões de quilos de leite, crescimento de 1,7%, com boa parte do avanço concentrada em estados como Kansas, Texas e Dakota do Sul. 

O ocorrido na empresa do Kansas ajuda a dimensionar a importância das pessoas nesse sistema. A empresa emprega cerca de 200 funcionários para cuidar de animais provenientes de dez estados. O CEO da operação afirmou que, apesar da busca constante por vantagens capazes de melhorar os resultados, o desempenho cotidiano depende essencialmente da equipe, da consistência dos processos, dos cuidados com os animais e da limpeza. O problema é que uma parcela importante dessa força de trabalho é formada por imigrantes, e parte dela não possui uma situação migratória regular ou um caminho claro para permanecer legalmente no país.

Uma fazenda perdeu 38 funcionários de uma vez

O tamanho do risco ficou evidente em outra propriedade. Na primavera de 2025, Rodney e Dorothy Elliott, da Drumgoon Dairy, em Lake Norden, Dakota do Sul, passaram por uma auditoria do Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos.

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O resultado teve efeito imediato sobre a fazenda de 6.500 vacas: 38 funcionários precisaram ser dispensados. Restaram apenas 16 trabalhadores. Para Dorothy, a perda foi muito além do número de pessoas disponíveis para executar as tarefas diárias. “Não perdemos apenas funcionários. Perdemos anos de experiência, habilidades, conhecimento e uma cultura de equipe que havíamos construído ao longo dos últimos dez anos ou mais”, relatou.

É justamente essa experiência acumulada que torna a questão especialmente delicada para as propriedades. Trabalhadores que permanecem durante anos em uma fazenda conhecem os animais, as rotinas e os procedimentos da operação. E substituir dezenas deles de uma só vez não significa apenas encontrar novas pessoas, mas reconstruir parte desse conhecimento.

Por que simplesmente contratar trabalhadores temporários não resolve?

Uma das alternativas disponíveis para o agronegócio americano é o chamado programa H-2A. Trata-se de um programa de vistos destinado à contratação de trabalhadores estrangeiros temporários para atividades agrícolas. O problema, segundo a publicação, está justamente na palavra “temporários”.

O H-2A foi concebido para atender trabalhos sazonais, como plantio, colheita e períodos específicos de maior necessidade de mão de obra. A produção de leite funciona de outra maneira. As vacas precisam ser ordenhadas todos os dias. Bezerras precisam ser alimentadas diariamente. Os animais precisam de cuidados independentemente de ser época de plantio, colheita, inverno ou verão. Não existe uma “entressafra” em que uma fazenda leiteira simplesmente possa interromper suas atividades.

Mudanças recentes ampliaram a possibilidade de utilização do H-2A por operações leiteiras, o que representantes do setor consideram um primeiro passo. Ainda assim, a avaliação apresentada pela publicação é de que a atividade precisa de uma solução compatível com sua necessidade de mão de obra durante os 365 dias do ano.

Há ainda outro problema: os trabalhadores que já estão nas fazendas

A contratação de novos funcionários estrangeiros também não resolve a situação daqueles que já trabalham há anos na atividade. Muitos dos trabalhadores mais experientes das fazendas leiteiras vivem nos Estados Unidos há anos, em alguns casos, décadas. Nesse período, acumularam experiência e se tornaram parte importante das operações onde trabalham. O H-2A, porém, é voltado à entrada de novos trabalhadores temporários e não oferece, por si só, um caminho para resolver a situação dessas pessoas que já estão no país.     

É uma diferença importante porque, em uma atividade tão dependente de rotina e manejo diário, quantidade de trabalhadores não é o único fator em jogo. Experiência e continuidade também têm peso. O caso da Drumgoon Dairy mostra isso de forma concreta: quando 38 pessoas deixaram a propriedade simultaneamente, foram embora também anos de conhecimento acumulado sobre aquela operação.

Uma atividade que não pode simplesmente parar

O dilema da mão de obra ganha dimensão ainda maior quando colocado ao lado do movimento de expansão da pecuária leiteira americana. Enquanto novas vacas são incorporadas aos rebanhos e a produção cresce em estados como Kansas, Texas e Dakota do Sul, permanece a necessidade de encontrar pessoas para alimentar bezerras, ordenhar vacas, cuidar dos animais e manter as operações funcionando todos os dias.     

Representantes do setor citados defendem uma solução de contratação de trabalhadores estrangeiros que considere a natureza permanente da pecuária leiteira, em vez de tratá-la da mesma maneira que atividades agrícolas sazonais. Também destacam a necessidade de considerar a situação dos funcionários experientes que já trabalham nas propriedades. 

Porque, independentemente do tamanho da fazenda, do número de vacas ou do ritmo de crescimento da produção, há uma realidade que permanece a mesma: a produção de leite não tem dia de folga. E, à medida que a atividade se expande, a pergunta sobre quem estará disponível para realizar esse trabalho se torna cada vez mais importante para o setor leiteiro dos Estados Unidos.

As informações são do Dairy Herd Management.

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