A concentração mostra que não está mudando apenas o tamanho da produção americana, mas também onde ela acontece. Disponibilidade de água, instalação de novas indústrias, custos de produção e possibilidade de operar em maior escala estão redesenhando o mapa da atividade leiteira no país.
Texas, Idaho e Kansas ganham espaço
Os números dos rebanhos ajudam a dimensionar essa transformação. Desde janeiro de 2023, cinco estados se destacaram pelo crescimento no número de vacas leiteiras. O Texas adicionou 76 mil animais ao rebanho, seguido por Idaho, com 71 mil; Kansas, com 70 mil; Dakota do Sul, com 63 mil; e Michigan, com 32 mil.
O movimento contrasta com o observado em regiões tradicionalmente associadas à produção de leite. Wisconsin, conhecido historicamente como um dos grandes centros da atividade leiteira americana, perdeu 44 mil vacas no mesmo período.
A consequência é uma concentração cada vez maior da produção em determinadas regiões, enquanto outras precisam transportar leite e derivados por distâncias maiores para atender seus mercados consumidores. O Sudeste americano é um exemplo. A região reúne 26% da população dos Estados Unidos, distribuída por 16 estados, mas responde por apenas 9% da produção de leite do país, participação que continua diminuindo.
Água ajuda a definir o novo mapa
Um dos principais fatores por trás da migração da atividade é a disponibilidade de água. A produção leiteira depende desse recurso não apenas para os animais, mas também para a produção dos alimentos utilizados nas fazendas. Por isso, regiões com oferta mais confiável de água passam a apresentar vantagens para receber novos investimentos.
Segundo Corey Geiger, economista-chefe de leite do CoBank, a expansão da indústria de processamento, com exceções como Idaho e Texas, está ocorrendo principalmente onde há disponibilidade de água. Estados próximos aos Grandes Lagos e partes das planícies do norte dos Estados Unidos aparecem entre as regiões que oferecem essa condição.
Mas água não é o único fator. Escala de produção, custo da terra, ambiente regulatório e disponibilidade de mão de obra também influenciam a localização das fazendas. Estados como Texas e Idaho, por exemplo, oferecem condições para propriedades leiteiras de grande escala, modelo que vem ganhando participação na produção americana.
US$ 13 bilhões em novas indústrias
A mudança das fazendas está sendo acompanhada pela indústria. Segundo o levantamento apresentado na reportagem, cerca de US$ 13 bilhões estão sendo investidos em capacidade de processamento de leite nos Estados Unidos, com plantas novas ou recentemente concluídas instaladas estrategicamente próximas às regiões onde a produção está crescendo.
A lógica é direta: à medida que o rebanho e a produção se deslocam, a capacidade industrial também tende a acompanhar o leite. O movimento pode reforçar ainda mais a concentração. Regiões que recebem novas indústrias passam a contar com maior capacidade de processamento e mercado para o leite, criando condições para novos investimentos na produção. Os investimentos em nova capacidade de processamento seguem previstos até 2028.
Não é apenas a quantidade de leite que está aumentando
Outra transformação importante ocorre dentro do próprio leite produzido nos Estados Unidos. Entre 2011 e 2025, a produção americana de leite cresceu 18%. No mesmo período, porém, a produção de proteína aumentou 27,7%, enquanto a de gordura avançou 34,6%.
Isso significa que o crescimento dos componentes sólidos foi significativamente maior do que o crescimento do volume total de leite. E essa mudança é especialmente relevante em um país onde cerca de 80% do leite é destinado à fabricação de produtos lácteos.
O resultado aparece diretamente no rendimento industrial. Atualmente, aproximadamente 45,4 kg de leite permitem produzir cerca de 5,3 kg de queijo cheddar. Historicamente, a mesma quantidade de leite rendia aproximadamente 4,5 kg de queijo.
Na prática, isso representa um aumento de 15,8% no rendimento de queijo. O rendimento de manteiga também aumentou 17,2%, enquanto cada porção de leite fluido contém 9,6% mais proteína do que há 15 anos. A mudança mostra por que olhar apenas para litros ou toneladas de leite pode não ser suficiente para entender a evolução da produtividade da cadeia. A composição do leite passou a ter peso cada vez maior sobre o resultado industrial.
Teor de gordura também avançou
Parte dessa transformação está relacionada à genética. Segundo os dados apresentados, o percentual de gordura do leite produzido nos Estados Unidos aumentou 15,2% na última década. Desse crescimento, 9,4% ocorreu somente nos últimos cinco anos.
Esse avanço alterou inclusive a posição do país no mercado de manteiga. Em 2024, os Estados Unidos importaram cerca de 79,8 mil toneladas de manteiga. Em 2025, entretanto, o aumento da produção de gordura do leite contribuiu para que o país passasse também a exportar o produto, com 80% dessas exportações ocorrendo depois de agosto. Até julho de 2026, as exportações de gordura do leite haviam alcançado aproximadamente 101,6 mil toneladas, mais que o dobro do nível registrado em 2024.
Exportações ganham importância
O mercado externo também passou a ocupar uma posição muito maior na cadeia leiteira americana. Em 1995, os Estados Unidos exportavam apenas entre 2% e 3% de sua produção de leite. Atualmente, essa participação chegou a 17%.
Ao mesmo tempo, a produção doméstica cresceu 44% nesse período. Ou seja, o país ampliou a produção e passou a direcionar uma parcela muito maior dela ao mercado internacional. O queijo ajuda a ilustrar essa mudança. Em maio de 2025, as exportações americanas ultrapassaram pela primeira vez 49,9 mil toneladas de queijo em um único mês. Mais recentemente, alguns meses já superaram aproximadamente 63,5 mil toneladas.
Produção, indústria e recursos estão redesenhando a atividade
O novo mapa do leite americano, portanto, resulta da combinação de diferentes movimentos. O rebanho cresce em alguns estados e diminui em regiões tradicionais. Bilhões de dólares estão sendo direcionados à construção e expansão de indústrias próximas às novas áreas produtoras. Ao mesmo tempo, genética e manejo estão aumentando a concentração de sólidos no leite e, consequentemente, o rendimento industrial.
Para os produtores, a localização passa a ter peso crescente. Regiões em expansão tendem a contar com maior capacidade de processamento, possibilidade de ganhos de escala e mais alternativas para comercialização. Nas áreas onde a atividade encolhe, a redução do número de indústrias e as maiores distâncias de transporte podem aumentar os desafios.
Os números mostram, sobretudo, que a transformação da cadeia leiteira americana vai além de produzir mais leite. Está mudando onde o leite é produzido, como ele é processado e até quanto produto final pode ser obtido a partir da mesma quantidade de matéria-prima.
As informações são do Dairy Herd Management, adaptadas pela equipe MilkPoint.
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