As propriedades rurais já adotam ordenha robotizada, confinamento moderno, inseminação artificial e transferência de embriões. A modernização, porém, esbarra na falta de mão de obra qualificada. Presidente do Sindicato Rural de Orizona e da Cooperativa Copi Goiás, Geovando Pereira destacou a força econômica da cadeia leiteira, a Festa do Leite e os desafios para manter o município na liderança estadual.
Para começar, quem é Geovando Pereira e qual é a atuação do Sindicato Rural de Orizona?
Geovando Pereira: "sou natural de Orizona. Atualmente, sou presidente do Sindicato Rural de Orizona e da Copi Goiás, uma cooperativa de captação de leite. O sindicato é filiado à Federação da Agricultura do Estado de Goiás, a FAEG, e nossa missão é levar informação e conhecimento aos produtores, defender a classe rural e, principalmente, promover capacitação".
E como essa capacitação chega aos produtores?
Geovando Pereira: "principalmente por meio do Senar. Levamos conhecimento técnico e assistência aos produtores de leite. Hoje, por exemplo, temos o Senar Mais Leite. Um técnico acompanha cerca de 30 produtores, capacitando-os em todo o sistema produtivo da fazenda. Temos oito grupos desse tipo no município".
Quanto leite Orizona produz atualmente? É uma produção que abastece apenas o próprio município?
Geovando Pereira: "em torno de 400 mil litros de leite por dia. Não. Temos três cooperativas atuando no município, além de cooperativas de Silvânia e Bela Vista de Goiás que buscam leite em Orizona para beneficiá-lo em outros municípios. Também temos indústrias. Há o Laticínio Valeza, dentro do próprio município, e grandes empresas que fazem captação na região".
Como Orizona chegou ao posto de principal bacia leiteira de Goiás?
Geovando Pereira: "é uma história que vem de muitos anos. Desde 1975, realizamos o Torneio Leiteiro. Naquela época, com o crescimento da produção, um técnico da Emater começou a incentivar os produtores a trabalhar com tecnologia. Depois vieram os financiamentos, as associações rurais que se transformaram em cooperativas e cada vez mais assistência técnica. O produtor foi se tecnificando até Orizona se tornar a principal bacia leiteira do Estado".
O próprio Torneio Leiteiro mostra essa evolução. Quanto produzia a campeã em 1975 e quanto produz hoje?
Geovando Pereira: "no primeiro torneio, em 1975, a vaca mais produtiva produziu 9 litros. Depois tivemos um período em torno de 30 litros, passamos para 50, depois 70 e hoje ultrapassamos 100 litros. No ano passado, a vaca mais produtiva ficou em torno de 114 litros de média e, neste ano, chegou a 115".
Sair de 9 litros para mais de 100 representa uma transformação expressiva. O que tornou isso possível?
Geovando Pereira: "são vários fatores. Primeiro, assistência técnica bem-feita. É capacitar o produtor para fazer silagem e trabalhar corretamente a parte nutricional. Outro pilar é a genética. Hoje temos animais especializados em produção de leite e um ganho genético muito grande, com inseminação artificial, transferência de embriões e várias outras tecnologias".
A genética se tornou, então, um dos grandes diferenciais?
Geovando Pereira: "com certeza. As próprias empresas que vendem sêmen no país têm representantes no município porque existe demanda. O sindicato também capacita os trabalhadores das fazendas para fazer inseminação e trabalhar com essas tecnologias".
A tecnologia chegou ao ponto de substituir a ordenha tradicional por robôs?
Geovando Pereira: "sim. Já temos fazendas robotizadas no município. A ordenha, de maneira geral, é mecanizada e temos propriedades trabalhando com robôs. Isso reduz a necessidade de mão de obra em algumas etapas, mas cria outra necessidade: profissionais especializados para operar esses equipamentos".
Então Orizona tem baixo desemprego?
Geovando Pereira: "o problema hoje é outro: falta mão de obra qualificada. Mesmo as pessoas que chegam de fora precisam ser capacitadas para trabalhar nas propriedades, porque a atividade leiteira utiliza muita tecnologia".
Como vivem as vacas que chegam a produzir mais de 100 litros?
Geovando Pereira: "a maioria desses animais fica estabulada em galpões, em sistemas como free stall ou compost barn. A vaca permanece no galpão e sai para a ordenha. Tem ventilação, alimentação balanceada, controle nutricional e sistemas para refrescar o animal. Uma vaca que produz muito leite também gera muito calor, então precisa de conforto".
Ainda existe uso frequente de hormônios para alcançar essa produtividade?
Geovando Pereira: "hoje usamos muito pouco. Praticamente não se usa mais como antigamente. Estamos caminhando para um manejo mais limpo. Isso também melhora a saúde e a vida produtiva do animal".
Como uma vaca é escolhida para disputar o Torneio Leiteiro?
Geovando Pereira: "o veterinário da propriedade seleciona os animais com maior potencial produtivo. A preparação começa cerca de 30 dias antes. Quando chega ao evento, o animal passa por adaptação e recebe todo o manejo necessário, com banho, ventilação e alimentação adequada".
E como é feita a medição?
Geovando Pereira: "são três ordenhas por dia. A vaca chega antes para se adaptar ao ambiente e, depois, começam as ordenhas válidas. A produção é pesada e acompanhada pela equipe durante a competição".
Quanto recebe o produtor da vaca campeã?
Geovando Pereira: "em torno de R$ 12 mil. Depois temos premiações próximas de R$ 10 mil e R$ 8 mil. É mais um incentivo, porque não cobre todas as despesas de preparação".
E qual é a destinação do leite produzido durante a competição?
Geovando Pereira: "o leite é doado para o abrigo de idosos de Orizona. É uma instituição construída com a participação da própria comunidade e que abriga cerca de 30 a 40 idosos. O sindicato também contribui mensalmente com o abrigo".
É possível dizer que Orizona vive do leite?
Geovando Pereira: "o leite é predominante. Temos outras atividades, como a produção de cachaça e mel, mas o leite movimenta muito a economia. No dia 25, que tradicionalmente é o dia do pagamento do leite, a cidade muda. Produtores e empregados recebem e vão fazer compras. O comércio fica movimentado".
Isso ajuda a explicar por que vocês optaram por uma Festa do Leite, em vez de uma exposição agropecuária tradicional?
Geovando Pereira: "exatamente. A maioria dos sindicatos faz exposição agropecuária com shows. Nós fizemos outra opção. Como Orizona é leite, criamos a Festa do Leite. Na realidade, é praticamente uma feira de negócios".
Por que abrir mão dos grandes shows?
Geovando Pereira: "porque nosso público é outro. Quando procuramos empresas para participar, muitas perguntam primeiro se haverá show. Se tiver, algumas não querem participar, porque o público delas não é o público de show. Elas querem conversar com o produtor. Então temos empresas de nutrição, máquinas para produção de leite, energia solar, veterinários e vários outros segmentos".
É uma feira voltada diretamente para quem produz?
Geovando Pereira: "sim. É uma feira de negócios e de conhecimento. Procuramos levar palestrantes de alto nível para discutir liderança, gestão, reprodução, sucessão e tecnologia".
Quem participou desta edição?
Geovando Pereira: "tivemos Sérgio Soriano, diretor-geral da Fazenda Colorado, em São Paulo; Diana Junqueira, da Fazenda Agrindus; e José Eduardo Portela, professor da Universidade da Flórida, nos Estados Unidos. Antes da palestra, inclusive, ele visitou quatro propriedades tecnificadas de Orizona para conhecer nosso trabalho".
A presença feminina também ganhou destaque?
Geovando Pereira: "sim. Temos várias mulheres que dirigem propriedades em Orizona. Em alguns casos, são elas que estão à frente da gestão da fazenda. Então procuramos valorizar esse protagonismo feminino também na programação".
Quantas pessoas passaram pela Festa do Leite?
Geovando Pereira: "foram contabilizadas cerca de 14.810 pessoas pela entrada principal. Como havia outros acessos, estimamos aproximadamente 15 mil visitantes nos quatro dias".
O público da festa equivale a quase toda a população do município. Qual é a importância desse alcance?
Geovando Pereira: "sim. E não é apenas quantidade. As palestras tiveram média de aproximadamente 200 pessoas. Tivemos encontro de produtores assistidos pelo Senar, demonstrações de artesanato, simulador de máquinas agrícolas e até uma ferramenta do Sebrae que utiliza inteligência artificial para fazer o diagnóstico das propriedades".
Apesar da força econômica do leite, quais são hoje os principais gargalos de Orizona?
Geovando Pereira: "a infraestrutura das estradas deixa a desejar. O município é muito grande e temos muitas estradas de chão. No período chuvoso, isso atrapalha, aumenta o custo de produção e dificulta até a chegada das indústrias às propriedades".
Saúde, educação e segurança acompanham o desenvolvimento econômico do município?
Geovando Pereira: "saúde e educação são áreas que funcionam bem. Na segurança, Orizona também é uma cidade tranquila. O sindicato participou da implantação da Patrulha Rural, inspirada em uma experiência de Catalão. Esse modelo cresceu e hoje existe um batalhão rural no Estado".
Depois de sair de uma vaca produzindo 9 litros para animais que superam 100 litros, qual é o próximo passo para Orizona?
Geovando Pereira: "continuar investindo em tecnologia, conhecimento e qualificação. Queremos mostrar o trabalho que é feito nas propriedades e aproximar produtores, empresas e especialistas. A Festa do Leite é justamente uma vitrine desse potencial. Orizona chegou a esse nível porque o produtor investiu em genética, assistência técnica, capacitação e gestão".
As informações do portal Gyn Notícias, resumidas e adaptadas pela Equipe MilkPoint.
Vale e pena ler também:
Caverna subterrânea e fungos naturais ajudam produtor a criar queijos premiados em Goiás
Como o Laticínio Marajoara está transformando efluentes industriais em pastos verdes?
Pesquisa aponta cenários de impacto das mudanças climáticas na produção de leite em Goiás