Orizona/GO: cidade de 17 mil habitantes produz 400 mil litros de leite por dia

Orizona, em Goiás, se consolidou como uma das principais referências da atividade no estado.

Publicado por: MilkPoint

Publicado em: - 7 minutos de leitura

Ícone para ver comentários 0
Ícone para curtir artigo 3

Sem tempo? Leia o resumo gerado pela MilkIA
Orizona, com 17.035 habitantes e a principal bacia leiteira de Goiás, produz cerca de 400 mil litros de leite diariamente. O Torneio Leiteiro, realizado desde 1975, destaca a evolução da produção, com a vaca campeã deste ano alcançando 115 litros. A modernização da produção inclui ordenha robotizada e tecnologias avançadas, apesar da falta de mão de obra qualificada. A Festa do Leite, focada em negócios e conhecimento, atraiu cerca de 15 mil visitantes, refletindo a importância econômica da atividade leiteira na região.
Orizona, município com população estimada em 17.035 habitantes, localizado a cerca de 127 quilômetros de Goiânia por rodovia, produz aproximadamente 400 mil litros de leite por dia e se consolidou como a principal bacia leiteira de Goiás. O avanço da atividade pode ser medido pelo Torneio Leiteiro realizado no município. Em 1975, a vaca campeã produziu 9 litros. Na edição deste ano, a vencedora alcançou média de 115 litros.

Continua depois da publicidade

As propriedades rurais já adotam ordenha robotizada, confinamento moderno, inseminação artificial e transferência de embriões. A modernização, porém, esbarra na falta de mão de obra qualificada. Presidente do Sindicato Rural de Orizona e da Cooperativa Copi Goiás, Geovando Pereira destacou a força econômica da cadeia leiteira, a Festa do Leite e os desafios para manter o município na liderança estadual.

Figura 1

Para começar, quem é Geovando Pereira e qual é a atuação do Sindicato Rural de Orizona?

Geovando Pereira: "sou natural de Orizona. Atualmente, sou presidente do Sindicato Rural de Orizona e da Copi Goiás, uma cooperativa de captação de leite. O sindicato é filiado à Federação da Agricultura do Estado de Goiás, a FAEG, e nossa missão é levar informação e conhecimento aos produtores, defender a classe rural e, principalmente, promover capacitação".

E como essa capacitação chega aos produtores?

Geovando Pereira: "principalmente por meio do Senar. Levamos conhecimento técnico e assistência aos produtores de leite. Hoje, por exemplo, temos o Senar Mais Leite. Um técnico acompanha cerca de 30 produtores, capacitando-os em todo o sistema produtivo da fazenda. Temos oito grupos desse tipo no município". 

Quanto leite Orizona produz atualmente? É uma produção que abastece apenas o próprio município?

Geovando Pereira: "em torno de 400 mil litros de leite por dia. Não. Temos três cooperativas atuando no município, além de cooperativas de Silvânia e Bela Vista de Goiás que buscam leite em Orizona para beneficiá-lo em outros municípios. Também temos indústrias. Há o Laticínio Valeza, dentro do próprio município, e grandes empresas que fazem captação na região".

Como Orizona chegou ao posto de principal bacia leiteira de Goiás?

Geovando Pereira: "é uma história que vem de muitos anos. Desde 1975, realizamos o Torneio Leiteiro. Naquela época, com o crescimento da produção, um técnico da Emater começou a incentivar os produtores a trabalhar com tecnologia. Depois vieram os financiamentos, as associações rurais que se transformaram em cooperativas e cada vez mais assistência técnica. O produtor foi se tecnificando até Orizona se tornar a principal bacia leiteira do Estado".

O próprio Torneio Leiteiro mostra essa evolução. Quanto produzia a campeã em 1975 e quanto produz hoje?

Geovando Pereira: "no primeiro torneio, em 1975, a vaca mais produtiva produziu 9 litros. Depois tivemos um período em torno de 30 litros, passamos para 50, depois 70 e hoje ultrapassamos 100 litros. No ano passado, a vaca mais produtiva ficou em torno de 114 litros de média e, neste ano, chegou a 115".

Sair de 9 litros para mais de 100 representa uma transformação expressiva. O que tornou isso possível?

Geovando Pereira: "são vários fatores. Primeiro, assistência técnica bem-feita. É capacitar o produtor para fazer silagem e trabalhar corretamente a parte nutricional. Outro pilar é a genética. Hoje temos animais especializados em produção de leite e um ganho genético muito grande, com inseminação artificial, transferência de embriões e várias outras tecnologias".

A genética se tornou, então, um dos grandes diferenciais?

Geovando Pereira: "com certeza. As próprias empresas que vendem sêmen no país têm representantes no município porque existe demanda. O sindicato também capacita os trabalhadores das fazendas para fazer inseminação e trabalhar com essas tecnologias".

A tecnologia chegou ao ponto de substituir a ordenha tradicional por robôs?

Geovando Pereira: "sim. Já temos fazendas robotizadas no município. A ordenha, de maneira geral, é mecanizada e temos propriedades trabalhando com robôs. Isso reduz a necessidade de mão de obra em algumas etapas, mas cria outra necessidade: profissionais especializados para operar esses equipamentos".

Então Orizona tem baixo desemprego?

Geovando Pereira: "o problema hoje é outro: falta mão de obra qualificada. Mesmo as pessoas que chegam de fora precisam ser capacitadas para trabalhar nas propriedades, porque a atividade leiteira utiliza muita tecnologia".

Como vivem as vacas que chegam a produzir mais de 100 litros?

Geovando Pereira: "a maioria desses animais fica estabulada em galpões, em sistemas como free stall ou compost barn. A vaca permanece no galpão e sai para a ordenha. Tem ventilação, alimentação balanceada, controle nutricional e sistemas para refrescar o animal. Uma vaca que produz muito leite também gera muito calor, então precisa de conforto".

Ainda existe uso frequente de hormônios para alcançar essa produtividade?

Geovando Pereira: "hoje usamos muito pouco. Praticamente não se usa mais como antigamente. Estamos caminhando para um manejo mais limpo. Isso também melhora a saúde e a vida produtiva do animal".

Como uma vaca é escolhida para disputar o Torneio Leiteiro?

Geovando Pereira: "o veterinário da propriedade seleciona os animais com maior potencial produtivo. A preparação começa cerca de 30 dias antes. Quando chega ao evento, o animal passa por adaptação e recebe todo o manejo necessário, com banho, ventilação e alimentação adequada".

E como é feita a medição?

Geovando Pereira: "são três ordenhas por dia. A vaca chega antes para se adaptar ao ambiente e, depois, começam as ordenhas válidas. A produção é pesada e acompanhada pela equipe durante a competição".

Quanto recebe o produtor da vaca campeã?

Geovando Pereira: "em torno de R$ 12 mil. Depois temos premiações próximas de R$ 10 mil e R$ 8 mil. É mais um incentivo, porque não cobre todas as despesas de preparação".

E qual é a destinação do leite produzido durante a competição?

Geovando Pereira: "o leite é doado para o abrigo de idosos de Orizona. É uma instituição construída com a participação da própria comunidade e que abriga cerca de 30 a 40 idosos. O sindicato também contribui mensalmente com o abrigo".

É possível dizer que Orizona vive do leite?

Geovando Pereira: "o leite é predominante. Temos outras atividades, como a produção de cachaça e mel, mas o leite movimenta muito a economia. No dia 25, que tradicionalmente é o dia do pagamento do leite, a cidade muda. Produtores e empregados recebem e vão fazer compras. O comércio fica movimentado".

Isso ajuda a explicar por que vocês optaram por uma Festa do Leite, em vez de uma exposição agropecuária tradicional?

Geovando Pereira: "exatamente. A maioria dos sindicatos faz exposição agropecuária com shows. Nós fizemos outra opção. Como Orizona é leite, criamos a Festa do Leite. Na realidade, é praticamente uma feira de negócios".

Por que abrir mão dos grandes shows?

Geovando Pereira: "porque nosso público é outro. Quando procuramos empresas para participar, muitas perguntam primeiro se haverá show. Se tiver, algumas não querem participar, porque o público delas não é o público de show. Elas querem conversar com o produtor. Então temos empresas de nutrição, máquinas para produção de leite, energia solar, veterinários e vários outros segmentos".

É uma feira voltada diretamente para quem produz?

Geovando Pereira: "sim. É uma feira de negócios e de conhecimento. Procuramos levar palestrantes de alto nível para discutir liderança, gestão, reprodução, sucessão e tecnologia".

Quem participou desta edição?

Geovando Pereira: "tivemos Sérgio Soriano, diretor-geral da Fazenda Colorado, em São Paulo; Diana Junqueira, da Fazenda Agrindus; e José Eduardo Portela, professor da Universidade da Flórida, nos Estados Unidos. Antes da palestra, inclusive, ele visitou quatro propriedades tecnificadas de Orizona para conhecer nosso trabalho".

A presença feminina também ganhou destaque?

Geovando Pereira: "sim. Temos várias mulheres que dirigem propriedades em Orizona. Em alguns casos, são elas que estão à frente da gestão da fazenda. Então procuramos valorizar esse protagonismo feminino também na programação".

Quantas pessoas passaram pela Festa do Leite?

Geovando Pereira: "foram contabilizadas cerca de 14.810 pessoas pela entrada principal. Como havia outros acessos, estimamos aproximadamente 15 mil visitantes nos quatro dias".

O público da festa equivale a quase toda a população do município. Qual é a importância desse alcance?

Geovando Pereira: "sim. E não é apenas quantidade. As palestras tiveram média de aproximadamente 200 pessoas. Tivemos encontro de produtores assistidos pelo Senar, demonstrações de artesanato, simulador de máquinas agrícolas e até uma ferramenta do Sebrae que utiliza inteligência artificial para fazer o diagnóstico das propriedades".

Apesar da força econômica do leite, quais são hoje os principais gargalos de Orizona?

Geovando Pereira: "a infraestrutura das estradas deixa a desejar. O município é muito grande e temos muitas estradas de chão. No período chuvoso, isso atrapalha, aumenta o custo de produção e dificulta até a chegada das indústrias às propriedades".

Saúde, educação e segurança acompanham o desenvolvimento econômico do município?

Geovando Pereira: "saúde e educação são áreas que funcionam bem. Na segurança, Orizona também é uma cidade tranquila. O sindicato participou da implantação da Patrulha Rural, inspirada em uma experiência de Catalão. Esse modelo cresceu e hoje existe um batalhão rural no Estado".

Depois de sair de uma vaca produzindo 9 litros para animais que superam 100 litros, qual é o próximo passo para Orizona?

Geovando Pereira: "continuar investindo em tecnologia, conhecimento e qualificação. Queremos mostrar o trabalho que é feito nas propriedades e aproximar produtores, empresas e especialistas. A Festa do Leite é justamente uma vitrine desse potencial. Orizona chegou a esse nível porque o produtor investiu em genética, assistência técnica, capacitação e gestão".

As informações do portal Gyn Notícias, resumidas e adaptadas pela Equipe MilkPoint. 

Vale e pena ler também: 

Caverna subterrânea e fungos naturais ajudam produtor a criar queijos premiados em Goiás

Como o Laticínio Marajoara está transformando efluentes industriais em pastos verdes?

Pesquisa aponta cenários de impacto das mudanças climáticas na produção de leite em Goiás

QUER ACESSAR O CONTEÚDO? É GRATUITO!

Para continuar lendo o conteúdo entre com sua conta ou cadastre-se no MilkPoint.

Tenha acesso a conteúdos exclusivos gratuitamente!

Ícone para ver comentários 0
Ícone para curtir artigo 3

Publicado por:

Foto MilkPoint

MilkPoint

O MilkPoint é maior portal sobre mercado lácteo do Brasil. Especialista em informações do agronegócio, cadeia leiteira, indústria de laticínios e outros.

Deixe sua opinião!

Foto do usuário

Todos os comentários são moderados pela equipe MilkPoint, e as opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva dos leitores. Contamos com sua colaboração.

Qual a sua dúvida hoje?