Professora da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), também em Francisco Beltrão, Melaine esclarece que o trabalho reúne conhecimentos das áreas de administração, desenvolvimento regional e geografia para abordar a cadeia produtiva do leite, os saberes tradicionais e as formas de organização dos produtores.
Segundo a autora, a produção artesanal de queijo começou a se consolidar no Sudoeste durante o processo de colonização, a partir da década de 1930. Migrantes de origem italiana, alemã e polonesa trouxeram hábitos alimentares e técnicas utilizadas nas regiões de onde vieram. Inicialmente, a fabricação era uma atividade realizada principalmente pelas mulheres para garantir a alimentação das famílias.
O excedente passou a ser comercializado entre vizinhos e moradores das comunidades, o que contribuiu para ampliar o consumo e preservar o modo tradicional de produção. “Eles continuaram a produzir os alimentos que lembravam suas origens. Assim começou a produção artesanal de queijos no Sudoeste do Paraná, inicialmente como uma atividade feminina, voltada à alimentação da família”, explica Melaine.
Exigências afastaram produtores da formalização
A pesquisa também apresenta as dificuldades enfrentadas pelos pequenos produtores após a regulamentação dos alimentos de origem animal, em 1952. As normas exigiam, entre outros procedimentos, a pasteurização do leite e a inspeção federal, condições que não correspondiam à estrutura das pequenas queijarias familiares.
Com isso, parte dos produtores deixou de fabricar queijo, enquanto outros permaneceram na informalidade. Conforme Melaine, entre 1952 e 2017, muitas famílias que mantiveram a atividade operaram à margem do sistema por não conseguirem adaptar suas estruturas às exigências estabelecidas para os grandes laticínios.
A mudança começou a ocorrer em 2017, com a flexibilização das regras para a fabricação de queijos artesanais com leite cru. De acordo com a pesquisadora, a produção passou a ser permitida desde que fossem cumpridos requisitos sanitários, como o controle de tuberculose e brucelose nos rebanhos, a adoção de boas práticas de fabricação e o período de maturação do produto.
A possibilidade de manter o leite cru ajudou a preservar características relacionadas ao modo de fazer de cada família e ao território onde o queijo é produzido. Alimentação dos animais, vegetação, clima, raça do rebanho e conhecimentos transmitidos entre gerações interferem no resultado final.
“O queijo artesanal tem uma diversidade. Cada produto apresenta uma especificidade, seja pelo saber-fazer do produtor, seja pelas características do território. Mesmo os queijos de uma mesma propriedade podem apresentar diferenças ao longo do ano”, afirma.
Embora diferentes tipos de queijo sejam produzidos no Sudoeste, o colonial permanece como o principal produto das queijarias artesanais, devido à relação histórica com a formação das comunidades e com os hábitos de consumo da população.
Entre 2018 e 2025, os associados da Associação dos Produtores de Queijo Artesanal do Sudoeste do Paraná (Aprosud) conquistaram 61 medalhas em concursos estaduais, nacionais e internacionais. Para a pesquisadora Melaine Camarotto, os resultados ajudaram a ampliar o reconhecimento de um produto que já fazia parte do cotidiano regional.
Esse processo exigiu mudanças na organização das queijarias, na gestão das propriedades e na preparação para atender ao crescimento da demanda. Visitas técnicas, reportagens, premiações e intercâmbios com produtores de outras regiões também contribuíram para aumentar a visibilidade do produto.
Outro marco apresentado no livro é a conquista da Indicação Geográfica (IG), na modalidade Indicação de Procedência, para o Queijo Colonial do Sudoeste do Paraná. O reconhecimento, emitido pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), abrange 42 municípios. A IG pertence à Aprosud, responsável por administrar o uso da identificação.
Os produtores interessados devem cumprir um caderno de especificações técnicas relacionado ao processo de fabricação, às condições sanitárias, às características do produto e à saúde dos rebanhos.
Um comitê gestor acompanha o cumprimento das normas e controla a utilização da identificação. Segundo Melaine, o sistema permite rastrear a origem do queijo, oferecer garantias aos consumidores e agregar valor ao produto.
Antes da conquista da IG, uma lei estadual aprovada em 2024 reconheceu o Queijo Colonial do Sudoeste do Paraná como patrimônio cultural e imaterial da região. Para a pesquisadora, esses avanços consolidam o reconhecimento do modo de fazer, da identidade territorial e da herança cultural preservada pelos produtores.
Memória afetiva motivou pesquisa
Filha de Inês e Mario Camarotto, que migraram de Joaçaba, no Oeste de Santa Catarina, para Francisco Beltrão, em 1979, Melaine cresceu mantendo contato com famílias produtoras do Sudoeste. O pai trabalhava com máquinas e equipamentos agrícolas e estabeleceu relações de amizade com agricultores da região.
Durante a infância, ela passava fins de semana e férias nas propriedades dessas famílias, onde acompanhava a ordenha e a transformação do leite em queijo. A experiência criou uma memória afetiva que, anos depois, aproximou sua trajetória acadêmica do tema.
Melaine é graduada em administração com habilitação em comércio exterior e possui especializações em controladoria e gestão financeira e em gestão de empresas cooperativas. Também é mestre em gestão e desenvolvimento regional e doutora em geografia, na linha de desenvolvimento econômico e dinâmicas territoriais.
A combinação dessas áreas permitiu analisar a produção artesanal sob diferentes perspectivas, como gestão, mercado, organização associativa, sucessão familiar e identidade territorial. “A pesquisa foi uma oportunidade de reunir essas formações e contribuir com o movimento de reconhecimento e valorização da produção artesanal”, resume a autora.
As informações são do Jornal de Beltrão.
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