Livro revela como o queijo artesanal ajudou a moldar a identidade do Sudoeste do Paraná

Livro resgata a identidade do queijo artesanal do Sudoeste do Paraná

Publicado por: MilkPoint

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A professora e pesquisadora Melaine Roberta Camarotto lança o livro “A Produção do Queijo Artesanal”, resultado de sua pesquisa de doutorado em Geografia, desenvolvida entre 2021 e 2024 na Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), campus de Francisco Beltrão. A obra analisa a história da atividade no Sudoeste do Paraná, a organização dos produtores associados à Aprosud e a relação do queijo colonial com a identidade cultural e territorial da região.

Professora da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), também em Francisco Beltrão, Melaine esclarece que o trabalho reúne conhecimentos das áreas de administração, desenvolvimento regional e geografia para abordar a cadeia produtiva do leite, os saberes tradicionais e as formas de organização dos produtores.

Segundo a autora, a produção artesanal de queijo começou a se consolidar no Sudoeste durante o processo de colonização, a partir da década de 1930. Migrantes de origem italiana, alemã e polonesa trouxeram hábitos alimentares e técnicas utilizadas nas regiões de onde vieram. Inicialmente, a fabricação era uma atividade realizada principalmente pelas mulheres para garantir a alimentação das famílias.

O excedente passou a ser comercializado entre vizinhos e moradores das comunidades, o que contribuiu para ampliar o consumo e preservar o modo tradicional de produção. “Eles continuaram a produzir os alimentos que lembravam suas origens. Assim começou a produção artesanal de queijos no Sudoeste do Paraná, inicialmente como uma atividade feminina, voltada à alimentação da família”, explica Melaine.

Figura 1

Exigências afastaram produtores da formalização

A pesquisa também apresenta as dificuldades enfrentadas pelos pequenos produtores após a regulamentação dos alimentos de origem animal, em 1952. As normas exigiam, entre outros procedimentos, a pasteurização do leite e a inspeção federal, condições que não correspondiam à estrutura das pequenas queijarias familiares.

Com isso, parte dos produtores deixou de fabricar queijo, enquanto outros permaneceram na informalidade. Conforme Melaine, entre 1952 e 2017, muitas famílias que mantiveram a atividade operaram à margem do sistema por não conseguirem adaptar suas estruturas às exigências estabelecidas para os grandes laticínios.

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A mudança começou a ocorrer em 2017, com a flexibilização das regras para a fabricação de queijos artesanais com leite cru. De acordo com a pesquisadora, a produção passou a ser permitida desde que fossem cumpridos requisitos sanitários, como o controle de tuberculose e brucelose nos rebanhos, a adoção de boas práticas de fabricação e o período de maturação do produto.

A possibilidade de manter o leite cru ajudou a preservar características relacionadas ao modo de fazer de cada família e ao território onde o queijo é produzido. Alimentação dos animais, vegetação, clima, raça do rebanho e conhecimentos transmitidos entre gerações interferem no resultado final.

“O queijo artesanal tem uma diversidade. Cada produto apresenta uma especificidade, seja pelo saber-fazer do produtor, seja pelas características do território. Mesmo os queijos de uma mesma propriedade podem apresentar diferenças ao longo do ano”, afirma.

Figura 2

Embora diferentes tipos de queijo sejam produzidos no Sudoeste, o colonial permanece como o principal produto das queijarias artesanais, devido à relação histórica com a formação das comunidades e com os hábitos de consumo da população.

Entre 2018 e 2025, os associados da Associação dos Produtores de Queijo Artesanal do Sudoeste do Paraná (Aprosud) conquistaram 61 medalhas em concursos estaduais, nacionais e internacionais. Para a pesquisadora Melaine Camarotto, os resultados ajudaram a ampliar o reconhecimento de um produto que já fazia parte do cotidiano regional.

Esse processo exigiu mudanças na organização das queijarias, na gestão das propriedades e na preparação para atender ao crescimento da demanda. Visitas técnicas, reportagens, premiações e intercâmbios com produtores de outras regiões também contribuíram para aumentar a visibilidade do produto.

Outro marco apresentado no livro é a conquista da Indicação Geográfica (IG), na modalidade Indicação de Procedência, para o Queijo Colonial do Sudoeste do Paraná. O reconhecimento, emitido pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), abrange 42 municípios. A IG pertence à Aprosud, responsável por administrar o uso da identificação.

Os produtores interessados devem cumprir um caderno de especificações técnicas relacionado ao processo de fabricação, às condições sanitárias, às características do produto e à saúde dos rebanhos.

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Um comitê gestor acompanha o cumprimento das normas e controla a utilização da identificação. Segundo Melaine, o sistema permite rastrear a origem do queijo, oferecer garantias aos consumidores e agregar valor ao produto.

Antes da conquista da IG, uma lei estadual aprovada em 2024 reconheceu o Queijo Colonial do Sudoeste do Paraná como patrimônio cultural e imaterial da região. Para a pesquisadora, esses avanços consolidam o reconhecimento do modo de fazer, da identidade territorial e da herança cultural preservada pelos produtores.

Memória afetiva motivou pesquisa

Filha de Inês e Mario Camarotto, que migraram de Joaçaba, no Oeste de Santa Catarina, para Francisco Beltrão, em 1979, Melaine cresceu mantendo contato com famílias produtoras do Sudoeste. O pai trabalhava com máquinas e equipamentos agrícolas e estabeleceu relações de amizade com agricultores da região.

Durante a infância, ela passava fins de semana e férias nas propriedades dessas famílias, onde acompanhava a ordenha e a transformação do leite em queijo. A experiência criou uma memória afetiva que, anos depois, aproximou sua trajetória acadêmica do tema.

Melaine é graduada em administração com habilitação em comércio exterior e possui especializações em controladoria e gestão financeira e em gestão de empresas cooperativas. Também é mestre em gestão e desenvolvimento regional e doutora em geografia, na linha de desenvolvimento econômico e dinâmicas territoriais.

A combinação dessas áreas permitiu analisar a produção artesanal sob diferentes perspectivas, como gestão, mercado, organização associativa, sucessão familiar e identidade territorial. “A pesquisa foi uma oportunidade de reunir essas formações e contribuir com o movimento de reconhecimento e valorização da produção artesanal”, resume a autora.

As informações são do Jornal de Beltrão.

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