Inteligência artificial, carne e mão de obra: gargalos ou oportunidades para o leite?

Hoje, os produtores de leite com maior destaque nos EUA precisam atuar como cientistas de dados, especuladores do mercado, especialistas em legislação trabalhista e vendedores de bovinos de corte. Entenda esse cenário.

Publicado por: MilkPoint

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A definição de um produtor de leite bem-sucedido nos EUA está mudando, agora exigindo habilidades em ciência de dados, legislação e comercialização. Na High Grounds Dairy Conference 2026, produtores como Amber Horn-Leiterman e Denton Ross discutiram desafios como imigração, regulamentação e competição por terras, especialmente com empresas de tecnologia. A rentabilidade está sendo impulsionada por cruzamentos entre gado de leite e de corte e o uso de tecnologia avançada para monitoramento de saúde animal. Apesar dos desafios, o setor está evoluindo com novas estratégias e ferramentas.
A definição de um produtor de leite bem-sucedido nos EUA está mudando. Antes, o desempenho era medido principalmente pela quantidade de leite enviada à indústria e pela produtividade das lavouras por hectare. Hoje, os produtores de maior destaque também precisam atuar como cientistas de dados, especuladores do mercado imobiliário, especialistas em legislação trabalhista e profissionais de comercialização de bovinos de corte.

Essa realidade em rápida transformação foi o tema central da High Grounds Dairy Conference 2026, realizada nos Estados Unidos, onde três importantes produtores do setor participaram de um painel aberto e direto sobre os desafios enfrentados nas fazendas. Amber Horn-Leiterman, da Hornstead Dairy, em Wisconsin, Denton Ross, da Arizona Dairy Company, e Jason Sheehan, da J&K Dairy, no estado de Washington, compartilharam uma visão transparente sobre os fatores que mais os preocupam atualmente — e as estratégias de alta tecnologia e maior rentabilidade que estão impulsionando seus negócios.

Desde a ameaça crescente de centros de dados de inteligência artificial (IA) comprando terras agrícolas de alta qualidade até a explosão da rentabilidade dos cruzamentos entre gado de leite e gado de corte, o chamado beef-on-dairy, o consenso foi claro: a pecuária leiteira moderna enfrenta desafios sem precedentes, mas as oportunidades para quem estiver disposto a se adaptar nunca foram tão grandes.

A panela de pressão: imigração, regulamentação e disputa por terras

Quando questionados sobre as maiores preocupações enfrentadas por suas propriedades, as respostas não giraram em torno dos preços do leite ou dos custos da alimentação. Em vez disso, o foco mudou imediatamente para mão de obra e terras.

Para Denton Ross, que ordenha 3.000 vacas no calor do deserto de Gila Bend, no Arizona, a principal preocupação está acontecendo a apenas 112 quilômetros da fazenda, na fronteira entre os Estados Unidos e o México. "Temos tido uma enorme presença relacionada à imigração e ao ICE atualmente, inclusive nesta última semana", compartilhou Ross. "Se você imaginar uma caixa de preocupações, que está sempre cheia daquilo que está tirando seu sono, neste momento é exatamente isso que está me preocupando na fazenda: como essa situação vai se desenrolar."

Essa preocupação se estende até o Alto Centro-Oeste dos Estados Unidos. Em Wisconsin, Amber Horn-Leiterman concordou com Ross sobre as questões relacionadas à imigração, mas acrescentou que as regulamentações ambientais e a intensa disputa por recursos estão alterando profundamente o cenário da pecuária leiteira no estado.

Talvez o concorrente mais surpreendente pelas terras destinadas à produção leiteira não seja a expansão urbana nem os produtores de grãos, mas sim, a inteligência artificial (IA). "Se você quiser provocar uma discussão familiar na mesa da cozinha, basta falar sobre centros de dados de IA", observou Horn-Leiterman. Com grandes empresas de tecnologia buscando terras e recursos hídricos para resfriar enormes parques de servidores, governos locais estão assinando acordos de confidencialidade e alterando o zoneamento de áreas agrícolas. A entrada desse capital elevou o preço das terras a níveis extraordinários.

"Tivemos uma propriedade rural no nordeste de Wisconsin vendida por cerca de US$ 56.800 por hectare. Isso é astronômico", afirmou Horn-Leiterman. "Há apenas três anos, comprei uma área por aproximadamente US$ 25.900 por hectare e já achei aquele valor astronômico." Essa intensificação da necessidade de capital está obrigando as propriedades a repensarem seus planos de expansão. Não apenas o preço da terra dobrou, como o custo dos animais também disparou. Horn-Leiterman lembrou que, durante a expansão da fazenda em 2017, comprava novilhas prenhas por US$ 1.500 por cabeça. Hoje, esses mesmos animais custam entre US$ 3.800 e US$ 4.000.

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Jason Sheehan enfrenta um tipo diferente de pressão no estado de Washington, onde uma decisão da Suprema Corte estadual passou a exigir, há dois anos, o pagamento de horas extras para qualquer jornada superior a 40 horas semanais nas fazendas leiteiras. No entanto, as dificuldades enfrentadas pelo restante da agricultura criaram oportunidades inesperadas. Com o setor de frutas de clima temperado entrando em crise devido aos mesmos custos trabalhistas, Sheehan comprou recentemente um pomar de 60 hectares de maçãs e cerejas por uma fração de seu valor anterior — simplesmente porque precisava da área para instalar uma tubulação destinada ao transporte de esterco líquido.

A corrida do ouro dos cruzamentos entre gado de leite e de corte e os rebanhos "geriátricos"

Com os custos de capital em alta e a expansão das fazendas se tornando cada vez mais difícil, as propriedades leiteiras estão encontrando grandes ganhos de rentabilidade ainda na fase de criação dos bezerros. O bezerro resultante do cruzamento entre gado de leite e de corte deixou de ser uma atividade complementar para se tornar um dos principais pilares da lucratividade da pecuária leiteira.

Na Hornstead Dairy, 50% do rebanho em lactação é inseminado com genética de corte. "Recebo um cheque de US$ 2.000 por aquele bezerro com 12 a 24 horas de vida, o que é impressionante", explicou Amber Horn-Leiterman. No ano passado, a fazenda vendeu aproximadamente US$ 800 mil em vacas de descarte, mas obteve impressionantes US$ 2,1 milhões com a venda de bezerros recém-nascidos provenientes de cruzamentos para carne e de machos Holandeses. "Fazendo uma conta rápida, faturamos US$ 1 milhão por mês com o leite e US$ 2,1 milhões no ano com os animais destinados à produção de carne."

Essa fonte adicional de receita está mudando profundamente o tempo de permanência das vacas no rebanho. Com o uso de softwares avançados de monitoramento da saúde dos animais, a Hornstead Dairy consegue identificar doenças mais cedo e descartar menos vacas. "Nossa média de idade no rebanho é de 4,1 lactações, o que é bastante elevada", comentou Horn-Leiterman, rindo. "Estamos mantendo as vacas por mais tempo... e é aí que entra a produção de carne. Ela realmente está pagando por toda essa infraestrutura."

No Arizona, Denton Ross leva essa estratégia um passo além, mantendo a propriedade dos animais cruzados Angus-Holandesa e engordando-os até o abate. "É impressionante o desempenho de um cruzamento Angus-Holandesa em um confinamento", afirmou Ross. "São animais extraordinários, com excelente desempenho alimentar e que fazem praticamente tudo o que você espera deles."

Jason Sheehan, no entanto, adota uma estratégia diferente no estado de Washington. Convencido de que descartar vacas mais velhas e vender o excedente de novilhas prenhes pode ser tão lucrativo quanto comercializar bezerros recém-nascidos, ele aposta em um sistema baseado no grande volume de produção. Suas novilhas são inseminadas exclusivamente com sêmen sexado, enquanto a grande maioria das vacas em lactação recebe sêmen de Angus. Como resultado, a fazenda produz continuamente um excedente tanto de bezerros cruzados de alto valor quanto de novilhas leiteiras para reposição.

"Conseguimos criar uma novilha a um custo muito baixo", explicou Sheehan, destacando que a fazenda utiliza subprodutos agrícolas de baixo custo, como batatas descartadas e pellets de lúpulo, na alimentação dos animais. "Se decidirmos não expandir o rebanho, venderemos esses 500 animais para outra pessoa, que ficará responsável por ordenhá-los."

A revolução tecnológica: das coleiras às câmeras

Administrar rebanhos mais velhos, otimizar os cruzamentos entre gado de leite e de corte e enfrentar os elevados custos de mão de obra exige um nível de precisão que a observação humana, sozinha, já não consegue oferecer. Para os três produtores, tecnologia e inteligência artificial tornaram-se membros indispensáveis da equipe.

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Para Jason Sheehan, a tecnologia é a resposta direta às rigorosas regras de pagamento de horas extras no estado de Washington, que exigem remuneração adicional para qualquer jornada superior a 40 horas semanais. Recentemente, a J&K Dairy instalou o CattleEye, um sistema de câmeras baseado em inteligência artificial que monitora as vacas à medida que deixam a sala de ordenha, identificando automaticamente casos de claudicação e analisando os escores de locomoção. O sistema se comunica diretamente com o software DairyComp, que, por sua vez, aciona portões automáticos de seleção para encaminhar as 50 vacas com maior grau de claudicação para um curral de espera destinado ao casqueamento, realizado todas as noites de terça-feira.

"O custo disso é inferior a um terço do salário mensal de um funcionário, e o sistema é muito mais preciso", afirmou Sheehan. "Hoje você não quer mais que as pessoas façam muitas horas extras... Em certos casos, é melhor deixá-las ir para casa e pagar a inteligência artificial para fazer esse trabalho, pela consistência que ela oferece."

Da mesma forma, Denton Ross acredita que, no futuro, a tecnologia vestível deixará de ser necessária e será substituída por sistemas de monitoramento baseados em inteligência artificial. "Eu diria que não estamos a muitos anos de distância de um cenário em que as vacas não usarão mais coleiras e haverá apenas câmeras por toda parte", previu Ross. "As câmeras identificarão cada vaca, detectarão o cio e também os casos de claudicação. É provavelmente isso que está por vir."

Para Amber Horn-Leiterman, a próxima fronteira da tecnologia na pecuária leiteira não está apenas na coleta de dados, mas na integração entre os diferentes sistemas utilizados na fazenda. Sua visão é a de uma rede integrada em que os dados das máquinas agrícolas, os softwares de alimentação e os bolos ruminais de monitoramento de saúde conversem entre si de forma contínua. Isso permitiria realizar testes extremamente precisos, dentro da própria fazenda, para avaliar aditivos alimentares.

"Nós inserimos essas informações no sistema e conseguimos acompanhar a ruminação, o consumo de água, a temperatura corporal e a movimentação dos animais", explicou. "Se você quiser vender seu produto para mim, ele precisa provar que funciona. Mas esses sistemas precisam começar a conversar entre si... para que possamos realmente calcular com precisão quanto custa por acre e quanto custa produzir de forma geral."

Uma nova era de excelência

Seja lidando com a intensificação da fiscalização migratória no sudoeste dos Estados Unidos, disputando terras agrícolas com empresas de tecnologia em Wisconsin ou utilizando câmeras com inteligência artificial para enfrentar a legislação trabalhista no noroeste do país, o produtor de leite moderno enfrenta um conjunto de desafios cada vez mais complexo.

Ainda assim, como deixou claro o painel, o setor não está apenas sobrevivendo — está evoluindo. Ao adotar métricas avançadas de monitoramento da saúde animal, maximizar o valor de cada bezerro nascido e utilizar inteligência artificial para extrair ganhos de eficiência em todos os setores da fazenda, propriedades como J&K Dairy, Arizona Dairy Company e Hornstead Dairy estão construindo o modelo que deverá orientar a próxima geração da pecuária leiteira nos Estados Unidos.

Os desafios nunca foram tão grandes, mas as ferramentas disponíveis para superá-los também nunca foram tão poderosas.

As informações são do Dairy Herd Management, traduzidas e adaptadas pela equipe MilkPoint.

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