Essa foi a pergunta que guiou a live promovida pelo MilkPoint, reunindo Thiago Silveira, da Xapetuba Agropecuária; Thiago Carneiro, da Fazenda São José/Leite Fazenda Bela Vista; e Thiago Guimarães, da Fazenda Canadá, com mediação de Marcelo Pereira de Carvalho, da MilkPoint Ventures. Os três produtores também estarão entre os palestrantes do Interleite Brasil 2026, onde compartilharão, em profundidade, as estratégias de gestão e os aprendizados construídos em suas fazendas.
Embora cada propriedade tenha vivido desafios distintos e seguido caminhos próprios, um consenso se formou ao longo da conversa: não existe uma tecnologia capaz de transformar uma fazenda sozinha. Os melhores resultados surgem quando gestão, pessoas, sanidade, infraestrutura e indicadores trabalham em conjunto.
Gestão deixou de ser diferencial para se tornar requisito
As três fazendas passaram por momentos em que precisaram rever completamente a forma de administrar o negócio.
Na Xapetuba Agropecuária, Thiago Silveira compara a propriedade a uma indústria que opera sem interrupções. Com centenas de equipamentos funcionando diariamente, a gestão precisa acompanhar a complexidade da operação. "Hoje temos cerca de 400 ventiladores na fazenda. É uma atividade extremamente dinâmica. Trabalhamos com orçamento anual, fluxo de caixa diário e diversos indicadores. Mesmo assim, muitas vezes precisamos recorrer a consultorias para nos ajudar a enxergar oportunidades de melhoria."
Na Fazenda Canadá, o ponto de inflexão aconteceu em 2018, quando a família cogitou abandonar a atividade leiteira. A entrada no Educampo permitiu integrar indicadores zootécnicos e financeiros, revelando exatamente para onde o dinheiro da propriedade estava indo. "O produtor precisa querer conhecer seus números. Vejo muita gente reclamando sem saber se está ganhando ou perdendo dinheiro."
Já na Fazenda São José, Thiago Carneiro lembra que, apesar da excelente estrutura, a ausência de gestão baseada em indicadores fez a fazenda perder desempenho entre 2017 e 2018. "A grande virada aconteceu quando passamos a enxergar o lucro invisível das ações preventivas."
Pessoas continuam sendo o maior ativo da fazenda
Se existe um tema que uniu completamente os três produtores, foi a valorização das equipes. Para Thiago Silveira, nenhuma inovação entrega resultados sem pessoas comprometidas. A Xapetuba trabalha com salários acima da média do mercado, plano de carreira estruturado, bonificações por desempenho e ações voltadas à retenção de talentos. "Não adianta modernizar a fazenda se você não levar as pessoas junto. O colaborador precisa acreditar no negócio e perceber que está crescendo junto com ele."
Na Fazenda São José, a estabilidade da equipe tornou-se um dos principais indicadores de sucesso. Desde 2019, praticamente não houve mudanças no quadro de colaboradores. "O investimento nas pessoas retorna em produtividade. Muitos aumentaram seus salários fazendo a mesma atividade, mas entregando resultados melhores."
Thiago Guimarães compartilha da mesma visão. Segundo ele, profissionalizar a gestão também significa criar um ambiente onde as pessoas tenham condições de trabalhar bem. "A pecuária mudou muito nos últimos anos. Para atrair profissionais qualificados, precisamos oferecer estrutura, treinamento e oportunidades de crescimento."
Estrutura muda produtividade — quando faz parte da estratégia
Outro ponto em comum foi a importância dos investimentos em infraestrutura. Na Xapetuba, a mudança para o compost barn representou um divisor de águas.
Antes disso, o sistema baseado em pista de alimentação trouxe desafios relacionados ao clima, aumento de casos de mastite, problemas de casco e redução da produtividade. "A mudança para o compost barn transformou nossa realidade. Se não tivéssemos feito isso, talvez nem estivéssemos mais na atividade."
Na Fazenda Canadá, a construção de novos galpões trouxe maior controle sobre o ambiente, melhorando tanto o conforto dos animais quanto às condições de trabalho da equipe.
Já Thiago Carneiro resume a experiência da Fazenda São José de forma direta. "O grande pulo para nós foi investir em boas obras." Segundo ele, melhorias estruturais desencadearam uma sequência de avanços que envolveu sanidade, desempenho do rebanho, retenção de funcionários e rentabilidade.
Sanidade gera um lucro que nem sempre aparece nas contas
Entre todos os investimentos citados, talvez nenhum tenha recebido tanta ênfase quanto a sanidade. Na Fazenda São José, um amplo diagnóstico sanitário realizado com apoio laboratorial exigiu um investimento próximo de R$ 1 milhão. O retorno veio na redução das perdas de bezerras, melhoria dos índices produtivos e evolução do rebanho.
Carneiro resume essa lógica em uma frase que marcou a live: "O que tem que nascer não pode morrer. E o que não pode morrer tem que chegar." Com menor mortalidade e maior eficiência reprodutiva, a fazenda passou a crescer utilizando apenas animais próprios. Desde 2019, nenhuma vaca precisou ser comprada para reposição.
O futuro passa por eficiência, sustentabilidade e especialização
Quando olharam para os próximos anos, os três produtores também apresentaram visões bastante alinhadas.
Escala de produção, aumento da produtividade por vaca, melhoramento genético, sustentabilidade, economia circular, uso de biogás, genômica, equipes multidisciplinares e especialização técnica aparecem entre as principais oportunidades para tornar as fazendas ainda mais competitivas.
Na Xapetuba, por exemplo, a produção de energia a partir do biogás já é realidade, e novos investimentos devem permitir que a propriedade praticamente elimine seus custos com energia elétrica. Já na Fazenda Canadá, a sustentabilidade é vista como uma consequência do aumento da eficiência. "Da vaca, praticamente tudo pode ser aproveitado."
Não existe uma única resposta
Ao encerrar a live, Marcelo Pereira de Carvalho sintetizou aquilo que apareceu repetidamente durante toda a conversa. "Não existe bala de prata."
Segundo ele, as fazendas que apresentam os melhores resultados não se destacam por uma única tecnologia ou investimento específico, mas pela capacidade de executar bem diversas frentes ao mesmo tempo.
Gestão financeira, sanidade, infraestrutura, pessoas, treinamento, indicadores e tecnologia deixam de competir entre si para atuar de forma complementar.
Mais do que apontar uma fórmula pronta para produzir mais leite, a conversa mostrou que as fazendas leiteiras de alta performance compartilham uma característica em comum: tratam a gestão como parte da produção. Afinal, antes de investir em qualquer inovação, é preciso conhecer os números, desenvolver pessoas e construir processos capazes de sustentar o crescimento no longo prazo.
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