EUA buscam recuperar mercado de lácteos chinês com novo acordo comercial de US$ 30 bi

A indústria de lácteos dos Estados Unidos vê uma nova oportunidade para recuperar sua competitividade no mercado chinês.

Publicado por: MilkPoint

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A indústria de laticínios dos EUA vê uma oportunidade de aumentar sua competitividade na China com a criação do Conselho de Comércio EUA-China, que inclui produtos lácteos para possíveis reduções tarifárias. O mecanismo faz parte da iniciativa 30-for-30, mas as tarifas ainda não foram eliminadas. A National Milk Producers Federation e o U.S. Dairy Export Council destacam que tarifas retaliatórias ainda prejudicam a competitividade americana. A situação econômica da China também gera preocupações sobre a demanda.
A indústria de lácteos dos Estados Unidos vê uma nova oportunidade para recuperar sua competitividade no mercado chinês. A criação do Conselho de Comércio EUA-China (U.S.-China Board of Trade), anunciada no final de setembro, incluiu produtos lácteos entre as mercadorias que poderão receber tratamento tarifário mais favorável, embora as reduções ainda não tenham entrado em vigor.

O mecanismo faz parte de uma iniciativa comercial conhecida como 30-for-30, que prevê a consideração de aproximadamente US$ 30 bilhões em produtos americanos e outros US$ 30 bilhões em produtos chineses para possíveis reduções tarifárias.

Para o setor lácteo americano, a medida representa uma oportunidade de reduzir as desvantagens comerciais enfrentadas diante de fornecedores concorrentes. Entretanto, a inclusão na lista não garante a eliminação imediata das tarifas nem o aumento das compras chinesas. A National Milk Producers Federation (NMPF) e o U.S. Dairy Export Council (USDEC) receberam positivamente o anúncio, mas ressaltaram que as tarifas retaliatórias continuam prejudicando a competitividade dos produtos americanos na China.

EUA buscam recuperar mercado de lácteos chinês com novo acordo comercial de US$ 30 bi

Foto: Casa Branca / Daniel Torok

Gregg Doud defende maior previsibilidade nas relações comerciais

Gregg Doud, presidente e CEO da NMPF, considera que um sistema de comércio administrado por acordos entre governos pode oferecer melhores condições para a indústria láctea americana do que uma relação sujeita a constantes incertezas comerciais.

Em entrevista ao programa AgriTalk, durante a World Dairy Expo, Doud reconheceu que o novo modelo representa uma forma de comércio administrado, mas afirmou acreditar que esse tipo de acordo pode funcionar melhor na relação com a China. “Creio que estamos melhor assim”, afirmou o dirigente, ao comentar a possibilidade de estabelecer compromissos e canais permanentes de comunicação entre os dois países.

A posição de Doud está relacionada à sua experiência como negociador agrícola americano durante a primeira administração de Donald Trump, quando participou das negociações do acordo comercial conhecido como fase um. Segundo ele, naquela época havia comunicação frequente entre autoridades americanas e chinesas, o que permitia resolver problemas relacionados a embarques, portos e autorizações comerciais.

Doud relatou que mantinha contato diário com representantes chineses e que algumas dificuldades podiam ser solucionadas em poucos dias graças à existência desses canais diretos. Para o dirigente, a possibilidade de conversar com autoridades responsáveis pelas decisões comerciais é especialmente importante em uma relação na qual medidas governamentais têm grande influência sobre o acesso ao mercado.

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Ele também criticou a ausência de diálogo comercial agrícola entre os dois países durante a administração Biden, afirmando que esse contato ficou interrompido por quatro anos. Na avaliação de Doud, a retomada de um mecanismo formal de negociação pode trazer mais estabilidade para os exportadores, mesmo que não represente um sistema de livre comércio.

Lácteos estão entre os produtos que poderão receber redução de tarifas

O novo mecanismo comercial entre Estados Unidos e China prevê a análise de duas listas de produtos, cada uma com valor aproximado de US$ 30 bilhões, que poderão receber tratamento tarifário mais favorável. Entre os produtos americanos incluídos na lista destinada ao mercado chinês estão leite e creme de leite, produtos lácteos concentrados e em pó, iogurtes e outros leites fermentados, soro de leite, manteiga e diferentes categorias de queijos. A inclusão é relevante porque contempla tanto produtos de consumo direto quanto ingredientes utilizados pela indústria de alimentos.

Entretanto, os documentos oficiais divulgados pela Casa Branca em 27 de setembro deixam claro que as reduções tarifárias ainda dependem dos procedimentos legais de cada país. Os valores de US$ 30 bilhões foram estabelecidos com referência ao comércio bilateral de 2024 e não representam compromissos de compras adicionais já garantidas. Portanto, a medida abre a possibilidade de condições comerciais mais favoráveis, mas não significa que os produtos lácteos americanos já estejam entrando na China com tarifas reduzidas.

Tarifas retaliatórias ainda prejudicam a competitividade americana

Em comunicado conjunto divulgado em 28 de setembro, a NMPF e o USDEC comemoraram a inclusão dos lácteos nas negociações, mas defenderam a eliminação completa das tarifas retaliatórias chinesas. Segundo Doud, essas tarifas continuam colocando os produtores americanos em desvantagem enquanto os concorrentes internacionais ampliam sua participação no mercado chinês. O dirigente também defendeu que os produtos lácteos sejam incluídos entre os compromissos de compras agrícolas assumidos pela China.

Krysta Harden, presidente e CEO do USDEC, destacou que o novo conselho comercial pode oferecer a previsibilidade necessária aos exportadores americanos e seus clientes. Para ela, a inclusão dos lácteos na lista é positiva, mas o objetivo deve ser eliminar integralmente as tarifas retaliatórias que ainda afetam o setor, permitindo uma concorrência em condições mais equilibradas.

Harden também recebeu positivamente a prorrogação de dois meses da trégua tarifária entre os países. Ao mesmo tempo, alertou para outro possível obstáculo: a proposta de cobrança de taxas portuárias sobre navios chineses. Segundo a dirigente, é fundamental evitar que esses custos sejam repassados aos exportadores agrícolas americanos, pois o aumento das despesas com frete poderia reduzir os benefícios esperados do novo acordo comercial.

China é um mercado importante para soro de leite e ingredientes lácteos

A China tem importância histórica para as exportações americanas de soro de leite, lactose e leite em pó. Mais recentemente, o mercado também passou a representar oportunidades crescentes para os queijos. Essa relação comercial ganhou importância à medida que a indústria láctea dos Estados Unidos ampliou sua participação no mercado internacional.

Segundo os números apresentados por Doud, em 1995 o país exportava apenas entre 2% e 3% de sua produção de leite. Em 2025, essa participação havia alcançado aproximadamente 17%. O dirigente destacou que o valor das exportações americanas de lácteos chegou a cerca de US$ 9,5 bilhões em 2025, enquanto a perspectiva apresentada para 2026 era de aproximadamente US$ 10,5 bilhões. Esse crescimento ajuda a explicar por que a indústria americana considera tão importante recuperar condições competitivas na China. Com uma parcela cada vez maior da produção destinada ao exterior, barreiras tarifárias, dificuldades logísticas e mudanças nas regras de importação podem afetar diretamente as oportunidades comerciais do setor.

Doud vê limitações na demanda chinesa

Apesar das oportunidades criadas pelo novo acordo, Doud demonstrou preocupação com a situação econômica da China. Em entrevista, o dirigente fez uma avaliação bastante negativa da economia chinesa, mencionando a redução da população, a estagnação da renda per capita e os preços baixos de diferentes commodities. Como exemplo, citou os preços da carne suína e de outros produtos agrícolas. Na interpretação de Doud, essas condições tornam arriscado depender exclusivamente de um aumento espontâneo da demanda chinesa para ampliar as exportações americanas.

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É nesse contexto que ele defende acordos comerciais administrados, com compromissos entre governos e canais diretos para solucionar dificuldades. O dirigente reconhece que os Estados Unidos precisam competir com fornecedores internacionais, incluindo Nova Zelândia, União Europeia, Austrália e outros países. Para ele, porém, uma relação comercial mais estruturada com a China pode oferecer maior previsibilidade aos exportadores.

Experiência da fase um influencia a estratégia atual

A participação de Doud nas negociações agrícolas da fase um ajuda a explicar sua defesa do novo modelo. Durante aquele período, segundo seu relato, a existência de contatos frequentes entre representantes americanos e chineses permitia resolver rapidamente problemas que surgiam no comércio bilateral. O dirigente citou situações envolvendo cargas retidas em portos e dificuldades relacionadas à liberação de produtos. Em alguns casos, uma ligação direta às autoridades chinesas era suficiente para que o problema fosse solucionado em um ou dois dias.

Doud considera que esse tipo de relacionamento institucional é especialmente importante para empresas que dependem da regularidade dos embarques internacionais. Na avaliação dele, a interrupção desses contatos após a mudança de governo nos Estados Unidos prejudicou a relação comercial. A criação do novo conselho representa, portanto, uma oportunidade de restabelecer mecanismos permanentes de comunicação e negociação.

Segundo a documentação oficial, o Conselho de Comércio EUA-China será formado por representantes dos governos dos dois países e terá como objetivo melhorar as condições do comércio bilateral. Além das listas iniciais de produtos, o mecanismo poderá discutir outras medidas comerciais e eventuais ampliações de sua abrangência.

Redução das tarifas ainda depende de implementação

Embora a indústria americana tenha recebido positivamente o anúncio, o resultado prático das negociações ainda depende de novas etapas. O primeiro desafio é transformar as recomendações de redução tarifária em medidas efetivamente implementadas pelos governos. Em seguida, será necessário verificar se as novas condições comerciais resultarão em maior competitividade e crescimento das vendas americanas para a China.

A NMPF e o USDEC afirmaram que continuarão trabalhando com o governo dos Estados Unidos para eliminar barreiras comerciais existentes e evitar a criação de novos obstáculos. Para Doud, a principal vantagem do novo mecanismo é recuperar a previsibilidade nas relações com um mercado importante para o setor lácteo.

A inclusão de leite em pó, queijos, manteiga, soro de leite e outros produtos nas negociações representa um avanço para os exportadores americanos. No entanto, a recuperação de sua competitividade dependerá da eliminação efetiva das tarifas retaliatórias e das condições de acesso ao mercado chinês.

As informações são do Dairy Herd Management, comunicado conjunto da NMPF e do USDEC, Casa Branca e documento oficial do mecanismo 30-for-30.

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