O cenário tem estimulado famílias a investir no processamento do próprio leite, agregando valor à produção sem depender exclusivamente da venda de matéria-prima para laticínios. É o caso de Igor Valsoler, produtor de Jóia, no Noroeste gaúcho, vencedor do 4º Mundial do Queijo do Brasil. Desde que começou a produzir leite, em 2007, ele e a família optaram por investir na fabricação de queijos como estratégia para permanecer na atividade. “Se não fosse essa decisão, acho que estaríamos vivendo a mesma dificuldade que a maioria dos produtores de leite, enfrentando instabilidade de preço”, avalia.
Em Soledade, no norte do estado, Eloiza Debona também encontrou no queijo uma forma de dar continuidade à produção. Em 2016, após uma greve de caminhoneiros, ela começou a fabricar queijos para aproveitar cerca de 500 litros de leite que ficaram represados na propriedade. A iniciativa, baseada em uma receita de família, ganhou espaço no mercado. Atualmente, a produtora industrializa 95% do leite produzido na fazenda e já conquistou medalha de ouro no Mundial do Queijo do Brasil.
Segundo Aline Balbinoto, especialista em leite e derivados do Sebrae-RS, o mercado de queijarias artesanais cresceu no estado nos últimos cinco anos, impulsionado também pelo interesse dos consumidores em produtos diferenciados e de origem conhecida. O Sebrae atende cerca de 45 pequenas agroindústrias queijeiras gaúchas e apoia iniciativas de divulgação dos produtos em concursos e feiras pelo país.
A valorização da identidade regional também está entre as estratégias do setor. A Associação das Queijarias do Queijo Colonial da Serra Gaúcha, fundada neste ano, busca obter a Indicação Geográfica (IG) para o produto. O movimento segue o exemplo do queijo serrano, que recebeu o reconhecimento do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) em 2020, tornando-se o primeiro queijo artesanal brasileiro a conquistar uma IG.
Para Allan Tormen, coordenador da Comissão do Leite e Derivados da Farsul, a produção artesanal representa uma oportunidade de manter pequenos pecuaristas no campo por meio da agregação de valor, sem exigir necessariamente o aumento da escala produtiva. O Rio Grande do Sul é o terceiro maior produtor de leite do Brasil, responsável por 12,8% da captação nacional.
O avanço, porém, depende de condições que permitam aos pequenos negócios se desenvolver. Tormen defende a atualização das normas estaduais para a produção artesanal, considerando as diferenças de estrutura e capacidade de investimento entre pequenas queijarias e grandes indústrias. De acordo com Balbinoto, a implantação de uma agroindústria queijeira custa a partir de R$ 35 mil, podendo chegar a milhões de reais conforme o porte da estrutura.
A recomendação é começar com instalações compatíveis com a demanda atual e ampliar o negócio gradualmente. Assim, além de preservar receitas e tradições gaúchas, os queijos artesanais podem abrir novas oportunidades de renda e contribuir para a permanência de pequenos produtores na atividade leiteira.
As informações são do Globo Rural, resumidas e adaptadas pela Equipe MilkPoint.
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