A discussão ganhou força após um episódio fatal ocorrido em 31 de agosto de 2026, na Kansas Dairy Development, em Deerfield, no Kansas. Uma discussão no local de trabalho terminou com a morte de um funcionário de 32 anos, e outro trabalhador foi acusado de homicídio culposo. O caso trouxe novamente à tona a situação migratória de parte da mão de obra que sustenta a produção agropecuária americana.
A empresa emprega cerca de 200 pessoas e trabalha com animais provenientes de dez estados. Segundo seu CEO, Jason Shamburg, a consistência das equipes é fundamental para garantir o bem-estar animal, a limpeza e a eficiência da operação. Como ocorre em outras empresas do setor, trabalhadores imigrantes representam uma parcela importante dessa força de trabalho.
O debate acontece em um momento de expansão da atividade leiteira. No Kansas, o rebanho cresceu em aproximadamente 29 mil vacas em um ano, enquanto a produção avançou 13,9%, segundo os dados citados na reportagem original. O crescimento amplia a necessidade de trabalhadores em uma atividade que exige cuidados diários com os animais, independentemente da época do ano.
Projeto propõe mudanças no sistema de vistos
Thompson defende a aprovação da Farm Workforce Security Act (SAWA), proposta que pretende criar um programa de vistos agrícolas adequado às operações que funcionam durante os 365 dias do ano, como as fazendas leiteiras. Segundo o parlamentar, a iniciativa conta com o apoio de mais de 600 organizações e 60 copatrocinadores. A proposta prevê um programa de trabalho temporário para atividades como pecuária, produção de leite e cultivo em estufas, além da modernização do sistema de vistos H-2A.
Atualmente, o H-2A é destinado à contratação temporária de trabalhadores estrangeiros para atividades agrícolas sazonais. Embora o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) tenha esclarecido, em junho de 2025, que produtores de leite também poderiam solicitar esse tipo de visto, o modelo ainda enfrenta limitações para atender operações contínuas.
“O USDA não administra este programa”, afirmou Rollins ao explicar que as regras envolvem outros órgãos federais e que a legislação atual estabelece o caráter sazonal do H-2A. Segundo ela, o departamento vem buscando alternativas dentro de sua competência, mas mudanças estruturais dependem do Congresso.
A dimensão do desafio aparece nos números apresentados por Thompson: as vagas anunciadas pelo programa H-2A passaram de aproximadamente 11 mil, em 1995, para mais de 400 mil em 2025. Para o parlamentar, essa evolução demonstra a crescente dependência da agricultura americana de trabalhadores estrangeiros e a necessidade de adaptar a legislação às demandas atuais.
Impactos já são sentidos nas fazendas
As consequências da escassez de mão de obra também foram relatadas por produtores de outros estados. Na primavera de 2025, a Drumgoon Dairy, em Dakota do Sul, perdeu 38 funcionários em um único dia após uma auditoria do Departamento de Segurança Interna dos EUA. A operação, que contava com cerca de 6.500 vacas, ficou com apenas 16 trabalhadores.
Segundo Dorothy Elliott, uma das responsáveis pela propriedade, a perda foi além do número de funcionários: a fazenda também deixou de contar com anos de experiência, conhecimento e integração das equipes. O episódio ilustra a dificuldade de manter operações leiteiras em funcionamento quando há mudanças abruptas na disponibilidade de trabalhadores. Diferentemente de atividades agrícolas sazonais, a produção de leite exige manejo, alimentação e ordenha diariamente, durante todo o ano.
Segurança alimentar entra na discussão
Thompson e Rollins argumentam que a disponibilidade de mão de obra também está relacionada à segurança alimentar dos Estados Unidos. Para representantes do setor, a dependência de trabalhadores imigrantes precisa ser considerada na formulação das políticas agrícolas. A SAWA busca oferecer uma alternativa legal para atender a essa demanda, sem criar, segundo seus defensores, um caminho automático para a residência permanente. A proposta, porém, enfrenta resistência política e permanece paralisada na Comissão Judiciária da Câmara.
Thompson pretende ampliar a mobilização em torno do projeto, com visitas a estados produtores e a expectativa de aproveitar oportunidades legislativas no fim do ano. Enquanto isso, o USDA afirma que continuará trabalhando dentro das regras atuais para tentar melhorar o acesso dos produtores de leite ao programa H-2A.
O impasse coloca a cadeia leiteira diante de um desafio crescente: sustentar a expansão da produção em um modelo que depende de mão de obra disponível todos os dias, mas cujo sistema de vistos foi estruturado para atender principalmente a necessidades sazonais. Para os produtores, a definição de uma solução dependerá da capacidade do Congresso de adaptar a legislação às particularidades da atividade leiteira.
As informações são do Dairy Herd, traduzidas e adaptadas pela Equipe MilkPoint.
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