A resposta passa por muito mais do que a tecnologia. Experiências de produtores norte-americanos mostram que a automação exige mudanças na gestão, na seleção dos animais e na rotina da fazenda — e que os resultados variam conforme o tamanho e as características de cada operação.
Em reportagem publicada pelo Dairy Herd, dois produtores compartilharam suas experiências com a ordenha robotizada, enquanto Courtney Halbach, especialista em extensão da iniciativa Dairyland Initiative, da Universidade de Wisconsin, apresentou questionamentos sobre os desafios e os limites desse modelo.
De um lado, David Trimner administra uma operação com 3 mil vacas em Athens, no estado de Wisconsin. Do outro, Dan Venteicher trabalha com o irmão em uma propriedade de 200 vacas em Strawberry Point, Iowa. Embora estejam em escalas muito diferentes, ambos afirmam estar satisfeitos com a decisão de investir na tecnologia.
De 200 a 3 mil vacas: como a automação muda a rotina
Na propriedade de Venteicher, três robôs atendem 200 vacas. Ele e o irmão são responsáveis pela operação, que envia aproximadamente 6 milhões de libras de leite por ano, o equivalente a cerca de 2,72 milhões de quilos. O produtor destaca que o aumento da produção de leite após a adoção do sistema ajudou a compensar as parcelas do investimento. Além do retorno produtivo, a automação trouxe flexibilidade à rotina da família, reduzindo a dependência dos horários fixos de ordenha.
Na operação de Trimner, a estratégia é diferente. Das 3 mil vacas, aproximadamente 1.800 são ordenhadas por 30 robôs, enquanto as outras 1.200 permanecem em uma sala de ordenha convencional. A estrutura robotizada funciona com seis pessoas dedicadas às atividades relacionadas aos robôs e ao manejo dos animais nesse galpão. Isso representa aproximadamente 300 vacas por funcionário, sem incluir tarefas como alimentação e manejo de dejetos, que também seriam necessárias no sistema convencional.
Os números mostram o potencial da automação para ampliar a capacidade operacional, mas não significam que o trabalho desaparece. Como observa Halbach, as funções mudam: em vez de se concentrar na ordenha em horários determinados, a equipe passa a executar tarefas mais especializadas, acompanhar os equipamentos e intervir quando necessário.
O investimento compensa?
O custo é um dos principais pontos de atenção. Os dois produtores implantaram seus sistemas em 2019, quando as condições de financiamento eram mais favoráveis. Trimner relata que o investimento total de sua estrutura, incluindo instalações e equipamentos, ficou em aproximadamente US$ 9.500 por vaca. Segundo a reportagem, projetos semelhantes atualmente podem custar de US$ 15 mil a mais de US$ 20 mil por animal, dependendo da localização e das condições da construção ou adaptação das instalações.
A diferença reforça a importância de avaliar o momento do investimento, as condições de crédito e o custo total do projeto. Não basta comparar o preço dos robôs com o salário de um funcionário: é necessário considerar instalações, manutenção, financiamento, produção, dimensionamento do rebanho e organização do trabalho.
Para Venteicher, a decisão também foi influenciada pela perspectiva de aumento dos custos com pessoal ao longo do tempo. O produtor afirma que o volume adicional de leite obtido após a mudança superou o valor das parcelas do financiamento. Os dois produtores dizem que os sistemas se pagaram. Ainda assim, são experiências individuais, que não garantem o mesmo retorno para outras fazendas.
Mais leite nem sempre significa mais eficiência
Um dos pontos levantados por Halbach diz respeito à produção por vaca. Segundo a pesquisadora, algumas propriedades que produziam mais de 100 libras de leite por vaca ao dia antes da instalação dos sistemas robotizados passaram a enfrentar dificuldades para superar 90 libras após a mudança.
Os valores correspondem, aproximadamente, a 45,4 e 40,8 quilos de leite por vaca ao dia, respectivamente. A observação não significa que a ordenha robotizada necessariamente reduza a produção, mas alerta para a necessidade de avaliar os resultados com atenção, inclusive em instalações novas e bem planejadas.
Trimner, por sua vez, relata produção de 112 a 113 libras de leite corrigido para energia por vaca ao dia, tanto no galpão robotizado quanto na sala convencional. Isso equivale a aproximadamente 50,8 a 51,3 quilos diários de leite corrigido para energia — uma medida que não deve ser confundida diretamente com o volume de leite produzido. A comparação ilustra como o desempenho depende da combinação entre instalações, manejo, perfil dos animais e frequência de ordenha.
Na ordenha robotizada, o tempo de cada vaca importa
Outro aprendizado da propriedade de Venteicher está na seleção dos animais. O produtor avalia não apenas a quantidade de leite produzida, mas também o tempo que cada vaca permanece dentro do robô durante a ordenha. Ele cita duas vacas como exemplos. Uma delas, chamada Marshmallow, produziu em média 155 libras de leite por dia ao longo de três lactações consecutivas e permanecia no equipamento por cerca de 5,5 minutos por ordenha. Outra, Franny, produzia 130 libras por ordenha, mas ocupava o equipamento por aproximadamente 15 minutos. Diante dessa diferença, o produtor concluiu que a primeira permitia um uso mais eficiente da capacidade do sistema.
A lógica é simples: em uma estrutura com capacidade limitada de atendimento, não basta observar a produção individual. O tempo de ocupação do equipamento também influencia quantas ordenhas podem ser realizadas e quanto leite pode ser obtido ao longo do dia. A automação, portanto, muda até os critérios de seleção e descarte do rebanho. A eficiência passa a envolver tanto a produção quanto a capacidade de cada animal de se adaptar à rotina do sistema.
O manejo continua sendo decisivo
A adaptação das novilhas é outro fator relevante. Venteicher relata que mantém os animais em uma área próxima aos robôs durante o treinamento, até que aprendam a utilizá-los de forma independente. Algumas novilhas se adaptam rapidamente; outras podem levar até duas semanas.
O produtor atribui parte de seus resultados ao manejo calmo e à seleção genética. A pesquisadora também menciona estudos que indicam que bezerros criados em pares ou grupos podem apresentar maior facilidade para lidar com situações novas, embora esse aspecto não deva ser interpretado como garantia de adaptação à ordenha robotizada.
A saúde dos cascos também exige atenção. Na propriedade de Venteicher, a combinação de cama de areia, raspadores automáticos em funcionamento contínuo, corredores relativamente curtos e casqueamento a cada 40 dias faz parte da estratégia de manejo.
Ele afirma não utilizar pedilúvios, mas ressalta que essa é uma decisão baseada nas condições específicas de sua fazenda, e não uma recomendação universal. Halbach lembra que problemas de claudicação já foram observados em rebanhos robotizados, especialmente quando as decisões sobre instalações e alojamento não favorecem o conforto dos animais. Além disso, falhas na preparação dos tetos podem comprometer a higiene da ordenha e aumentar o risco de mastite. A precisão dos equipamentos continua sendo um desafio, mesmo com os avanços tecnológicos.
Robôs ou sistemas convencionais? Depende do tamanho da fazenda
Para Halbach, propriedades com menos de 500 vacas podem encontrar na ordenha robotizada vantagens relacionadas à flexibilidade da rotina e à organização do trabalho. Em rebanhos maiores, a análise econômica se torna mais complexa, com custos de capital elevados e necessidade de comparar a tecnologia também com sistemas convencionais de alta capacidade, como as salas rotativas.
A experiência de Trimner mostra que combinar os modelos pode ser uma alternativa. Ao manter no sistema convencional vacas com problemas de saúde, características de úbere menos favoráveis ou dificuldades de adaptação, o produtor consegue direcionar os animais mais adequados aos robôs. Essa estratégia ajuda a mostrar que a escolha não precisa ser uma disputa entre tecnologia e métodos convencionais. Em determinadas condições, os sistemas podem se complementar.
No fim, a principal lição das duas propriedades é que a ordenha robotizada não substitui a gestão da fazenda. Ela muda a maneira de trabalhar, exige novos indicadores e demanda planejamento para que o investimento gere retorno. Mais do que perguntar quantas vacas um robô consegue ordenhar, o produtor precisa avaliar se o sistema faz sentido para seu rebanho, suas instalações, sua equipe e seus objetivos econômicos.
As informações são do Dairy Herd, adaptadas pela Equipe MilkPoint.