De pelagem predominantemente vermelha, porte relativamente pequeno e origem no atual Paquistão, o Sindi chegou ao Brasil oficialmente em 1952 e encontrou no Nordeste brasileiro condições bastante semelhantes àquelas para as quais havia sido selecionado durante gerações: calor, ambientes secos e disponibilidade de alimento nem sempre abundante. Essa capacidade de adaptação ajudou a transformar a raça em uma alternativa interessante para sistemas de produção mais rústicos — inclusive quando o objetivo é produzir leite.
Do Paquistão para o Brasil
O Sindi é originário da região de Sind, no atual Paquistão. A literatura científica descreve a raça como um zebu de pequeno porte, pelagem vermelha e reconhecido por sua rusticidade e tolerância ao calor.
A história brasileira, entretanto, é um pouco mais antiga e mais movimentada do que pode parecer. A Associação Brasileira dos Criadores de Sindi registra relatos da presença de animais com características da raça na Bahia e no Rio de Janeiro ainda entre 1850 e 1856. A importação que marcaria a formação do rebanho brasileiro, porém, ocorreu em 1952, quando Felisberto de Camargo trouxe do Paquistão um lote de 31 animais — três reprodutores e 28 fêmeas.
E há uma curiosidade e tanto nessa história: antes de chegar aos rebanhos brasileiros, os animais passaram por 15 meses de quarentena na Ilha de Fernando de Noronha.
Posteriormente, parte desses animais foi enviada para o Pará e para a Ilha de Marajó, enquanto outros exemplares chegaram a instituições de pesquisa e ensino. A Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP) recebeu reprodutores, e o Instituto de Zootecnia também passou a trabalhar com a raça. Essa trajetória foi fundamental para preservar e desenvolver o Sindi no Brasil.
Uma zebuína pequena — e isso faz diferença
Uma das características que mais chamam atenção no Sindi é justamente seu pequeno porte. Um estudo sobre a estrutura genética da raça no Brasil descreve o Sindi como um animal de pequeno porte e destaca sua reputação internacional por rusticidade e tolerância ao calor. Em sistemas tropicais, esse conjunto de características pode ser interessante.
Animais menores tendem a apresentar menor exigência de manutenção do que animais de maior porte, embora isso não signifique automaticamente que sejam mais eficientes em qualquer sistema. A eficiência depende de genética, alimentação, ambiente, manejo e objetivo produtivo. No caso do Sindi, o diferencial está justamente na combinação entre tamanho corporal, adaptação e capacidade produtiva.
A Embrapa descreve a raça como de dupla aptidão, rústica, resistente ao calor, vigorosa e dócil. Um trabalho recente realizado no Centro de Tecnologia para Raças Zebuínas Leiteiras (CTZL), da Embrapa Cerrados, destaca ainda o potencial do Sindi para produção de leite a pasto em condições adversas.
Mas a raça Sindi dá leite mesmo?
Sim! Além da rusticidade e da adaptação a condições de clima quente, o Sindi também é utilizado na produção leiteira, com rebanhos selecionados para essa finalidade no Brasil.
O interesse pela aptidão leiteira da raça não é recente. Estudos conduzidos pelo Instituto de Zootecnia já avaliavam a produção de leite de vacas Sindi na década de 1970. Mais recentemente, pesquisas da Embrapa Cerrados voltaram a investigar o desempenho de animais da raça, considerando seu uso em sistemas de produção a pasto e em condições desafiadoras.
Esses trabalhos reforçam a importância de avaliar o Sindi não apenas por sua rusticidade, mas também por suas características produtivas e reprodutivas. A continuidade das pesquisas contribui para ampliar o conhecimento sobre a raça e orientar sua utilização em diferentes sistemas de produção.
Uma raça que quase desapareceu?
O Sindi brasileiro passou por fortes gargalos populacionais. Um estudo da Embrapa sobre a evolução genética da raça analisou registros de 18.808 animais da base da ABCZ e identificou preocupação histórica com a redução do tamanho efetivo da população e o aumento da endogamia.
Os pesquisadores observaram um forte aumento da endogamia até aproximadamente o ano 2000, acompanhado de redução do tamanho efetivo da população. Depois desse período, houve uma redução favorável dos níveis de endogamia até 2010, embora os autores tenham ressaltado que a preocupação com a conservação da diversidade genética permanecia.
Outro estudo publicado na Revista Brasileira de Zootecnia já havia apontado que o número de fêmeas puras em reprodução era pequeno e que a raça se encontrava em situação de risco de conservação genética naquele momento.
Isso torna a história do Sindi ainda mais interessante: além de uma raça adaptada ao calor, ele também representa um patrimônio genético que precisou ser preservado.
E o futuro?
O momento atual também merece atenção.
Em 2025, foi lançado o Programa de Melhoramento Genético da Raça Sindi (PMGRS), uma parceria entre criadores, a Associação Nacional de Criadores e Pesquisadores (ANCP) e a Embrapa Cerrados.
A primeira avaliação genética foi publicada em agosto de 2025 e passou a utilizar dados de pedigree, fenótipos e genótipos em uma avaliação genômica multirracial. O programa disponibiliza DEPs para 19 características e três índices bioeconômicos.
Ao mesmo tempo, a Embrapa Cerrados mantém uma Prova Brasileira de Produção de Leite a Pasto, que inclui Sindi, Gir, Guzerá e cruzamentos. Na edição de 2026, a avaliação busca identificar animais de maior desempenho em produção de leite, reprodução, idade ao parto, qualidade do leite, persistência da lactação e características morfológicas, em condições reais de pastejo. Ou seja: a história do Sindi está longe de ser apenas uma lembrança de uma raça que chegou ao Brasil há mais de 70 anos.
Hoje, ele volta a ganhar espaço justamente em uma discussão muito atual da pecuária: como produzir leite de forma eficiente em ambientes quentes, utilizando animais adaptados e genética capaz de responder às condições de cada sistema?
Talvez essa seja a maior curiosidade sobre o Sindi. A raça não chegou ao Brasil para ser uma “versão menor” de outras raças leiteiras. Ela trouxe uma combinação própria de características — pequeno porte, rusticidade, tolerância ao calor e potencial produtivo — que, ao longo de décadas de seleção, ganhou uma identidade brasileira. E, em um país tropical como o Brasil, isso pode ser uma vantagem bastante relevante.
Vale a pena ler também:
Potencial da raça Sindi para a produção de queijos no semiárido brasileiro
Fontes consultadas:
PINTO, L. M. et al. Evolução da raça Sindi no Brasil e sua diversidade genética. Embrapa Gado de Leite. O trabalho analisou 18.808 registros da ABCZ e discutiu tamanho populacional, endogamia e conservação genética.
PIRES, F. L. et al. Produção de leite e duração da lactação nas raças Sindi, Guzerá, e Gir leiteira. Boletim de Indústria Animal, Instituto de Zootecnia.
BARROS, R. O. et al. Reproductive efficiency and milk yield in Sindhi breed cattle. Brazilian Journal of Veterinary Medicine, 2022. Estudo com 638 fêmeas Sindi de diferentes regiões brasileiras.
MELO, J. C. et al. Produção de leite no pico e duração da lactação de vacas Sindi P.O no bioma Cerrado. Embrapa Cerrados/Archivos Latinoamericanos de Producción Animal, 2025.
ABCSINDI. Conheça a raça – História. Associação Brasileira dos Criadores de Sindi.
ANCP. Programa Sindi. Programa de Melhoramento Genético da Raça Sindi, lançado em 2025 em parceria com a Embrapa Cerrados.
Embrapa Cerrados. Prova Brasileira de Produção de Leite a Pasto. Edição 2026.